Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > BALAIO DO REPÓRTER

O antropólogo que sofreu com os índios

Por Lúcio Flávio Pinto em 24/03/2015 na edição 843
Reproduzido do Jornal Pessoal nº 580, 1ªquinzena/março de 2015; título original “Galvão: o antropólogo que sofreu com os índios”, intertítulo do OI

Eduardo Enéas Gustavo Galvão morreu em 26 de agosto de 1976, no Rio de Janeiro, onde nascera 55 anos antes. Dois meses depois, a viúva, Clara Galvão, me deu um exemplar de Os índios Tenetehara, escrito pelo seu marido e o também antropólogo americano (seu grande amigo) Charles Wagley. O exemplar, na edição do Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura, de 1961 (em 237 páginas, formato grande e clássico), pertenceu ao próprio Galvão, que o rubricou. Foi dupla dedicatória.

Na relativa irresponsabilidade dos 27 anos, não dei ao ato daquela mulher maravilhosa o significado que ele teve. Eu circulava no Museu Goeldi entre a sala de pesquisador, ocupada por Galvão, e a rica biblioteca, comandada com carinho e competência por Clara. O matrimônio já era formal, mas os dois se gostavam, se respeitavam e se queriam bem, permanecendo juntos por toda vida, sem filhos. Eram duas pessoas excepcionais.

No gesto de desprendimento e generosidade, talvez a doutora Clara (como a tratávamos) tivesse pretendido assinalar o seu reconhecimento à boa relação que mantive com Galvão até o final dos seus dias. De nada adiantou ele ter sido o primeiro antropólogo brasileiro a se doutorar pela prestigiosa Universidade Columbia, de Nova York, com uma tese que se transformaria no livro Santos e visagens: Um estudo da vida religiosa de Itá, Amazonas, de par com o livro de Wagley, Uma Comunidade Amazônica, dois dos grandes títulos da antropologia amazônica, brasileira e universal.

Com o golpe militar de 1964, ele, que nunca tivera atuação política direta, foi um dos 300 professores expulsos da Universidade de Brasília, a criação de Darcy Ribeiro, igualmente antropólogo. As portas passaram a se fechar para ele, abrindo-se apenas a do Goeldi, para onde voltou, após rápida passagem pelo museu, em 1955, e em 1957, na Universidade Federal do Pará.

Destruição sem fim

Galvão ainda pôde realizar o que mais o entusiasmava, as excursões de campo a tribos indígenas, de que resultaram seus livros e diários. Mas voltava dessas jornadas desanimado. Nas conversas informais que tínhamos, ele confessava seu desalento pela sorte dos índios com a abertura das grandes estradas de penetração às áreas isoladas da Amazônia, que testemunhou pessoalmente.

Era a mesma consciência crítica de Charles Wagley, manifestada na terceira edição do seu grande livro, quando os efeitos destruidores da rede hidroviária já estavam claros e cada vez mais ameaçadores. Como servidor público, porém, Galvão tinha que participar da ação do governo, o que lhe causava ainda maior incômodo e problemas de consciência. Sentia a impotência da antropologia e se perguntava se ela não teria, na Amazônia, o papel que desempenhou na ofensiva das grandes potências sobre a África e a Ásia.

Nessa época a antropologia era um dos meus principais focos de interesse. Havia sido monitor do professor Otávio da Costa Eduardo na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, a primeira do país, da qual Darcy Ribeiro foi um dos mais brilhantes alunos. Aproximei-me do alemão Herbert Baldus, da mais importante geração de etnólogos brasileiros. A pedido de seus amigos e discípulos, morei com ele, na Praça Benedito Calixto (depois local da famosa feira de artesanato e cultura dos sábados), na condição de acompanhante, até a sua morte, desfrutando das longas conversas que tínhamos.

Meus encontros com Galvão eram verdadeiras aulas, mas serviam também aos seus desabafos, que se tornavam ácidos quando, fora do Goeldi, nos sentávamos no bar do Central Hotel. Ele manifestava seu ceticismo e desencanto entre doses de gim, o que assinalei em matéria de página inteira em O Estado de S. Paulo, provavelmente com a última entrevista que ele deu. Ele não gostou da indiscrição sobre seu hábito de beber, que se refletia no seu nariz avermelhado e grande, mas não reclamou. Continuamos a nos ver, até que a saúde abalada lhe impôs o retorno ao Rio de Janeiro.

A pesquisa que ele e Wagley realizaram entre os tenetehara do Maranhão é um exemplar da melhor antropologia que um pesquisador de campo pode realizar para documentar a vida de povos distantes de nós, apesar de contemporâneos em cronologia. Entes de um mundo que devíamos exaltar e preservar, mas que destruímos sem parar, como Eduardo Galvão viu e, sem poder mudar a história, padeceu-a junto com os índios.

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Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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