Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DE ‘VEJA’ 2010

O candidato antes do ódio

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 24/03/2015 na edição 843

Pouca gente leu a matéria da Agência Estado publicada no Estado de S.Paulo em 2010 (19/7), que, replicando entrevista concedida por Aécio Neves à revista Veja no mesmo ano, mostrou o ex-candidato derrotado nas últimas eleições a falar de modo sóbrio e educado sobre Lula. Fez elogios ao ex-presidente. Afirmou que ele “representa a aspiração legítima de ascensão social do povo brasileiro”. E que Lula era “um fenômeno a ser analisado por estudiosos, sociólogos e cientistas políticos”. Queixos caíram nas redes sociais quando o vídeo da entrevista voltou à web, em 2014.

Em contraste, na entrevista, Aécio definiu-se, matreiramente, como um “homem comum de classe média”. Neste ponto já podemos ver que abandonamos o campo das narrativas factuais. O “herdeiro” de Tancredo Neves nunca foi “homem comum”. O que ele fez, ali, na entrevista da Veja, a revista nacional de escândalos e baixarias, foi tentar acentuar o meticuloso preparo político e o inegável carisma de Lula. Aécio pegou carona na alta popularidade de Lula para afirmar-se como opção ao PT e sua administração diante das camadas populares de eleitores. Ele pode não ser brilhante, mas é “esperto” e oportunista. Daí a simpatia na entrevista.

Em março deste ano, o vídeo da entrevista de 2010 à Veja voltou às redes sociais e assombrou muita gente. Que ficou espantada e atordoada ao assistir a Aécio Neves, hoje inimigo de morte de Lula e do “lulopetismo”, a derramar-se em elogios ao odiado inimigo, em boa educação, sóbrio e sem assombros, insultos ou os rompantes de raiva que o acometem vez por outra. O que houve, nesses cinco anos? De onde veio o ódio? E o apoio velado ao golpismo e o desrespeito à democracia jovem do Brasil? A animosidade se espalhou pela população graças, em parte, aos maus exemplos de cidadania que o ex-candidato derrotado em 2014 vem dando, com o apoio do “estadista do PSDB”, Fernando Henrique Cardoso.

A oposição fez a opção pelo ódio. A mídia ajudou a alimentar o fogo e exaltar os ânimos. É realmente assustador assistir à diferença no modo pelo qual o ex-candidato derrotado se comportava até 2010. Educado e respeitoso, era um adversário político, não o autoproclamado inimigo de Lula. Será que a derrota o tornou amargo como hoje?

O protesto da classe média

De qualquer maneira, o vídeo reapareceu em boa hora na web. “Lula é um fenômeno”, disse Aécio Neves em 2010. Quem assistiu ao vídeo assombrou-se com a mudança depois de 2012. Não foi só o comportamento do ex-candidato mineiro que mudou: toda a sociedade o fez. Todos mudaram. E não queremos voltar atrás.

O resultado das eleições não foi respeitado pelo ex-candidato, que aceitou bem, na véspera da eleição do ano passado para presidente, uma cartada suja da mesma revista Veja, o nosso “tabloide” de bobagens a acusações sem bases factuais. Mas voltemos ao Aécio bem educado. Se observarmos bem o vídeo da entrevista, perceberemos a ironia por trás dos elogios do político mineiro. “Fenômeno” foi um adjetivo que Aécio usou em sua triste tentativa de passar por “homem comum”.

E a imprensa com isso? Foi ela que manteve o ódio sempre presente nas pautas de jornais conservadores. Agindo de forma dúbia e sempre a enganar o povo, a imprensa brasileira criou uma imagem monstruosa da realidade do país depois de 12 anos de administração petista. Que, com seus pactos temerários para poder governar, acabou por ceder terreno demais àqueles que hoje chamamos de inimigos. Todos nós, de todas as matizes políticas, somos inimigos, de uma forma ou de outra, de alguém, de algum partido ou organização política. Muito pouca gente manteve a lucidez depois de 2014 no Brasil.

A resposta à origem do ódio a quem pensa diferente encontra-se em dois fatos importantes de nossa história recente: o surgimento dos novos movimentos populares autônomos, organizados em redes e presentes nas ruas em 2013, e o contra-ataque reacionário que veio junto com a volta da classe média tradicional às ruas em 2014 e 2015. Entre os dois, o desacerto do segundo mandato de Dilma Rousseff, e o ódio que ousou erguer sua face horrenda entre nós. A classe média acredita que não recebeu nenhum incentivo do governo Dilma. E saiu às ruas para protestar. É direito dela. E de todos.

Um país pronto

Queriam dar um susto. Não houve pretensão concreta de derrubar o governo, no dia 15 de março. Há gente responsável na oposição. O seu “alto clero” também se manteve dentro dos limites impostos pelo respeito ao Estado de direito. De forma clara e cabal. Mas sem abandonar a raiva. Sem deixar de estimular o ódio entre a população. E a mídia? Vem ajudando a criar um cenário de terra devastada e uma economia condenada ao fracasso. Superficial, mantém suas pautas conservadoras com a mesmice chata da meteorologia política do dia-a-dia enquanto esquece que há algum tempo vem ocorrendo um sério caso de envio suspeito de dinheiro através do banco HSBC.

Em seu mundinho de acusações que já se transformaram em condenas, esqueceram que há um mundo inteiro além de nossa política mesquinha e vingativa, sem programas de governo ou projetos para um país mais justo. Só mentiras e hipocrisia. Como o ex-candidato derrotado e seus elogios a Lula. Que devem ser lidos não como cumprimentos, mas antes como deboche: Aécio tentou insinuar que Lula era um fenômeno incapaz de ser reproduzido. Um tipo de “Frankenstein” feito de colagens de ideias marxistas, um ser criado artificialmente pelo stalinismo para ser o primeiro operário a ocupar a suprema magistratura do país. Um discípulo fanático de Antônio Gramsci, o pensador marxista italiano que a direita não leu, mas odeia.

O ódio não me assusta. Os políticos sabem manipular a mídia para produzir noticiário que não muda nem aprofunda nada. A não ser as acusações contra o governo, que estão sendo acatadas e processadas pela atual administração, como determina o Estado de direito. Cada culpado será punido. Mas antes precisa ser estabelecida e provada a culpa de cada um. Mas todos já foram julgados e condenados. Com muito ódio e aversão por uma burguesia provinciana que se encanta, como no século 19, com suas viagens a Paris. Com seus “banhos de civilização” que vão buscar na Europa ou Estados Unidos. Querem um país pronto e muito dinheiro. Mas não o trabalho de construir uma nação. Isso é muito complicado e, principalmente, demanda de8dicação cívica e amor ao país. Por onde anda ele? O amor ao Brasil, alguém viu?

A verdade há de surgir

O PSDB e o PT falharam ao não conseguir transformar a classe trabalhadora brasileira em uma classe média forte. O PT quase conseguiu. Esteve perto disto, mas suas alianças com o PMDB e outras legendas corrompidas, o sistema de financiamento corporativo de campanhas, os erros estratégicos e as coligações suspeitas, além da perseguição sistemática da mídia, desequilibraram a governança do partido. E a nova classe média agora tem suas conquistas ameaçadas pelo conservadorismo da classe média tradicional, insatisfeita por não ter sido contemplada em suas aspirações pelo PT. Mesmo com seus padrões de vida melhorados.

Hoje, o PT é maldição. Não era assim em 2010, quando Aécio sabia da popularidade de Lula e se comportava de acordo. Ele não é brilhante, mas não é tolo. Entretanto, naquela entrevista, derrapou feio: exaltou Lula e acabou por desacreditar a política com tanta hipocrisia. Esta foi a grande perdedora, neste jogo de “pega e mata”: acabamos despolitizados, a substituir a capacidade de análise política pela emoção sem freio. E, com nervos à flor da pele, abrimos a porta ao ódio. Queremos a cabeça de nossos adversários. Queremos eliminar quem pensa diferente.

O sorriso de Aécio durante a entrevista com a Veja em 2010 foi o sorriso de escárnio a um inimigo que ele então não ousava enfrentar diante do público graças à sua enorme popularidade. Agora, com Dilma em baixa, os golpes seguem em rotina diária. Mas quem hoje ri vai mudar a expressão em breve. Mergulhada na Lava Jato, a imprensa nacional chegou atrasada no caso do vazamento do banco mafioso HSBC. Esqueceram, isolados em seu ódio, que existem “pontes” entre os paraísos fiscais do Caribe e Europa e gente em altas posições na política e na mídia no Brasil.

O ódio não vai salvar ninguém da verdade. Não vai adiantar nada o monopólio conferido ao Globo pelo ICIJ, o instituto de jornalismo investigativo que se diz independente (apesar de ter recebido, através de uma organização-irmã, doações milionárias de George Soros). Revelações seletivas e interesseiras vão ser desmascaradas. São muitos os jornalistas a investigar o caso, em todo o mundo. E nem todos são servis aos interesses das organizações Globo. A verdade há de surgir. Então talvez quem agora vocifera contra os interesses maiores da nação volte a comportar-se dentro de padrões aceitáveis de educação.

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Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor

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