Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & CRISE POLÍTICA

O dia depois de amanhã

Por Ivan Berger em 24/03/2015 na edição 843

Se a arte imita a vida, como preconizava Aristóteles, é lícito supor que a recíproca seja verdadeira, e sob tal prisma, não é preciso ter um feeling muito apurado para perceber que há clima de filme-catástrofe pairando no ar. Tipo o épico enredo que intitula este artigo, em que as pessoas são pegas de surpresa ou quebram a cara por ceticismo, teimosia e até por deboche frente aos sinais do desastre que se avizinha. Em se tratando de ficção, ingredientes de resto indispensáveis para garantir o suspense, o nonsense que precede um clímax quase sempre com direito a final feliz. Já na vida real, a inobservância dos indícios e evidências de tragédias e infortúnios iminentes geralmente resultam em choro e ranger de dentes.

Embora a situação no país não chegue a ser catastrófica, ao menos no que tange as condições básicas de vida e liberdade – e ainda mais se comparadas as de muitas outras nações menos favorecidas –, os sinais de tempestade à vista não podem ser subestimados, sob pena de o barco adernar de vez. Ainda mais se for à tempestade perfeita que alguns preveem e parecem desejar, com a combinação e a renitência das adversidades que fazem do segundo mandato de Dilma Rousseff o pior início de governo da história.

Fazer como o avestruz e fingir que a crise não é tão feia quanto se pinta, como tem feito a presidente, ou atribuir à insatisfação reinante às velhas teorias conspiratórias, fomentadas pela grande mídia, como é costume da imprensa governista, mais do que dar sopa para o azar, mostra que a ficha dessa gente ainda não caiu. Que já não é possível engabelar o país com a conversa mole da campanha eleitoral, mesmo porque não há marqueteiro que conserte estragos oriundos de premissas administrativas, econômicas, políticas e, sobretudo, morais, mais esburacadas do que queijo suíço.

Ainda não se tocaram que a essa altura, pouco importa discutir o tamanho e as preferências partidárias do contingente de insatisfeitos, bem como o próprio teor das reinvindicações, quando nas ruas, nas redes sociais, em meio a panelaços e buzinaços, de todos os cantos e setores insurge o desejo de mudança e moralização, a revolta contra a corrupção e a promiscuidade que grassa no meio político. E indistintamente, que ninguém se iluda.

O voo da galinha

Nesse sentido, nada poderia ser mais emblemático que o bate-boca que culminou com o pedido de demissão de Cid Gomes do Ministério da Educação, semana passada no plenário da Câmara, ao reafirmar haver na Câmara de 300 a 400 achacadores para os quais “quanto pior, melhor”. Recado direito não só aos oposicionistas de ocasião, como o PMDB do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a quem apontou o dedo para dizer que preferia ser mal-educado do que achacador, como ao próprio partido oficial de oposição, o PSDB de Aécio Neves, que, vergonhosamente, vem fazendo loas ao novo mandachuva da casa. Baixaria que levou o apresentador do Jornal da Band, Ricardo Boechat, a sugerir ironicamente, num de seus indefectíveis pitacos, que os ilustres deputados deveriam promover tais contendas mais frequentemente, mas de preferência, armados.

O fato é que o brado retumbante que foi dado no último dia 15, na mobilização histórica que levou milhões às ruas nos quatro cantos do país, e que não obstante às tentativas de contextualizar, às apelações rasteiras e os reducionismos analíticos sem pé nem cabeça de uma desarvorada milícia petista, atingiu plenamente seus objetivos. Aliás, não só atingiu como superou as expectativas, com uma marcha ordeira, sem tutelagem político-partidária ou midiática, e tendo a avenida Paulista como o grande palco do verdadeiro ultimato dado ao combalido regime petista.

Os tímidos esforços no sentido de mudar o discurso, bem como de um relutante mea culpa, que marcaram as ultimamente seguidas aparições públicas da presidente Dilma, não parecem suficientes para reverter um cenário sombrio que se adensa, com os efeitos das draconianas medidas de ajuste da economia, e o cerco que se fecha sobre o PT com o avanço da Operação Lava Jato. Cerco que depois do detalhado depoimento do ex-gerente da Petrobras, Pedro Barusco, e da adesão a delação premiada do grupo Setal, firmado com o CADE, confirmando a existência de um longo e sistemático esquema de propinas, iniciado no governo FHC e institucionalizado na era Lula, reforçam a possibilidade de impugnação às campanhas eleitorais que conduziram Dilma a presidência.

Pièce de resistance e voo da galinha da guarda pretoriana petista, o aventado elo de corrupção com o governo tucano soa tão pueril quanto atribuir os manifestos e a insatisfação generalizada ao eleitorado tucano, ou mais ridículo ainda, a elite branca, a uma suposta vocação golpista da grande imprensa. Como se não houvesse motivos de sobra para aderir à campanha pelo impeachment, que bomba nas redes sociais : corrupção como nunca se viu, com a participação direta ou indireta do partido governista; incompetência e improbidade administrativa a torto e a direito ( o mais recente, o desvirtuamento do programa Mais Médicos denunciado em reportagem da Band, mascarado para favorecer o regime cubano), doações de campanha de origem ilícita, detalhadas nas investigações da Operação Lava Jato; sem falar no isolamento político e na aparentemente irreversível perda de respaldo popular.

A carta da manga

No apocalíptico enredo do diretor alemão Roland Emmerich, em que o mundo se recusa a ouvir os alertas sobre os efeitos do aquecimento global, e é surpreendido por uma súbita mudança climática, oriunda do gradual derretimento da calota polar que remeteu o planeta a uma nova era glacial, a grande sacada de um enredo pra lá de verossímel é a derradeira opção que restou ao imponente império norte-americano : uma evasão para o hemisfério sul, salvo da tragédia global. Viu-se então que só restou a grande nação norte-americana curvar-se diante dos historicamente discriminados vizinhos mexicanos, de quem, por sinal, havia se apropriado de cerca da metade de seu território na guerra expansionista do século 18, para um recomeço dentro dos princípios até então solenemente ignorados.

Guardada as devidas proporções, espectro semelhante paira sobre nosso país, com o virtual derretimento do prestígio do governo petista e a debacle iminente exigindo, a partir do reconhecimento da gravidade da situação, discernimento e humildade para buscar saídas que possam garantir a governabilidade. Não soluções emergenciais e paliativas, como as prometidas anteriormente e deixadas de lado tão logo o sufoco ameniza. Isolado por seu próprio partido e emparedada pelo principal aliado, que tem feito de tudo para sabotar e puxar o tapete, por mais absurdo que pareça, só resta a Dilma uma carta na manga : aliar-se a seu antigo e maior adversário.

Mais especificamente, buscar uma aliança com o pai do plano que, quer queiram ou não, foi responsável por uma estabilidade e gradativamente prosperidade das quais o PT acabou se beneficiando: o gran mor tucano Fernando Henrique Cardoso, que por sinal, já tem dado mostras de estar disposto a colaborar, até mesmo pela crescente ameaça de intervenção militar. Aproximação que para muitos pode parecer disparate, ser interpretado como uma capitulação ou confissão de incompetência, mas que por outro lado não deixaria de ser uma demonstração de altruísmo e humildade. E de repente, um golpe de mestre que viria não só reequilibrar o jogo político como acalmar a opinião pública, sem falar no verdadeiro nó na cabeça da imprensa em geral.

Obviamente, trata-se de um alternativa pra lá de improvável, quase impensável, e que pode ser motivo de chacota por parte de nossa laboriosa prole de representantes de um substrato cultural forrado de “ismos”, inerente ao secular atraso latino-americano : o nacionalismo, o populismo, o estatismo, o clientelismo, o peleguismo, e por aí afora. De fato, há resistências de toda ordem a superar, começando por uma provável sublevação do PT, um rompimento com o próprio Lula, muito embora isso já venha de certa forma acontecendo. Mas pior não será se submeter aos caprichos e artimanhas de um PMDB infestado dos achacadores mencionados pelo ex-ministro Cid Gomes? Muito pior não será levar as coisas em banho-maria, em meio a uma insatisfação generalizada que tende a fugir de controle?

Única escapatória

Afinal, não cola mais, como já disse acima, atribuir à imprensa e ao supostamente ressentido eleitorado tucano, o crescimento da campanha pelo impeachment. O governo petista está simplesmente colhendo o que plantou, e se algum coelho não for tirado da cartola, se não houver bom senso e desprendimento, a queda é apenas uma questão de tempo. Espontaneamente ou na marra, a julgar pela divulgação cada vez mais frequente nas redes sociais de material dando conta de uma possível mobilização das forças armadas para assumir o poder a qualquer momento.

Sabemos todos que a história é cíclica, que povos desmemoriados estão condenados a repetir sempre os mesmos erros, e realmente, é inegável que no bojo dos atuais acontecimentos estão os mesmos ingredientes de meio século atrás, quando imperava a corrupção, a promiscuidade política e uma insatisfação popular que praticamente exigiu a intervenção militar. Era a ditadura ou uma guinada ao socialismo fajuto que condenou Cuba ao isolamento e a estagnação. Opções sem dúvida precárias, por implicarem em autoritarismo, supressão de liberdade, direito de expressão, enfim, em abusos intoleráveis e inadmissíveis no estágio em que se encontra a humanidade.

O que deveria reforçar a disposição de encontrar saídas racionais e civilizadas para o eterno desafio da governabilidade. No curto prazo, no sufoco em que se encontra, a única escapatória para Dilma é refazer o seu núcleo de apoio, e se já não pode confiar nos aliados antigos, montar um governo de coalização, inclusive com nomes respeitados na própria sociedade civil, que viessem despolitizar a área governamental com uma lufada de civismo e profissionalismo. Dificuldades e objeções não faltarão, é claro, pois por mais paradoxal que pareça, não é fácil ter a mente aberta e infensa às ideias preconcebidas e preconceituosas que infestam o meio midiático.

Com o clima hostil e beligerante que campeia, caberia a imprensa o papel de mediar e intermediar as discussões, mas com o comprometimento de ordem meramente mercadológica e pecuniária que toma conta do setor, convém não esperar por apoio e incentivo ao desejável e indispensável pacto social que se impõem nesse momento. Críticas e vaticínios hostis não têm faltado, mas quando se trata de apresentar sugestões e propostas que possam viabilizar um grande pacto de governabilidade, necas de pitibiriba. E olhem que, contrariamente ao conhecido enunciado de Murphy, de onde menos de espera, às vezes se extraem lições interessantes, contribuições importantes.

Marco atemporal

Quem diria, por exemplo, que um general com fama de truculento e declarada aversão popular, que dizia preferir o cheiro de seus cavalos ao do povo, revelasse na breve e histórica entrevista dada a Folha de S.Paulo, as vésperas de substituir o colega Ernesto Geisel como o último presidente dos chamados anos de chumbo, uma visão e percepção da realidade do país, sob muitos aspectos, ainda hoje irrefutáveis. É i extremamente significativo constatar que a tensa entrevista de cerca de uma hora e meia, concedida em 1978 aos repórteres Getúlio Bittencourt e Haroldo Cerqueira Lima, da sucursal do jornal em Brasília, que consta no antigo livreto 20 textos que fizeram história, editado pela própria Folha – e entre os quais figura a resenha inaugural do “Jornal dos Jornais”, de Alberto Dines, precursora deste Observatório –, mantém-se como um marco atemporal de nosso jornalismo. Sobretudo, por mostrar pontos de vista surpreendentemente realistas e liberais em se tratando de um representante do regime que torturou e matou, indiscriminadamente e a revelia das leis, centenas, talvez milhares de brasileiros.

Figueiredo disse ser favorável a democracia, que o poder deve ser emanado do povo, mas que o seu exercício pleno é inexequível, por ser um sistema que não garante a escolha do melhor candidato. E exemplificou, citando a votação recorde obtida pelo jornalista Itaboraí Martins, nas eleições municipais de São Paulo em 1959, por conta do apelido de Cacareco inspirado num rinoceronte negro que era a principal atração do zoológico da Capital. O que hoje em dia continua acontecendo, com a consagração nas urnas de excrecências como Tiririca, Enéas, e outros menos votados. Votos de protesto, obviamente, mas que pela ótica do general evidenciam o despreparo de grande parte da eleição para tão importante tarefa.

Sob o mesmo raciocínio, lembrou que à época de seu pai, nos idos dos anos 1930, mesmo um candidato extremamente culto e respeitado como Rui Barbosa acabou perdendo as eleições presidenciais para o general Hermes da Fonseca. “Como pode votar bem pessoas que em muitos lugares não conhecem sequer noções de higiene?”, indaga, em certo trecho. ‘‘Aqui mesmo em Brasília outro dia, num quartel, eu encontrei um soldado que nunca havia escovado os dentes, e outro que nunca havia usado um banheiro. Por aí vocês me digam se o povo está preparado para eleger o presidente da República?”.

Para Figueiredo, o sistema ideal seria o que chamou de parlamentarismo branco, com eleições diretas para todos os cargos, menos o de presidente, que seria escolhido pelo parlamento. Um parlamento que teria poderes tanto para escolher como para destituir o presidente, minimizando assim o efeito de crises como as que o país tradicionalmente enfrenta.

Enfim, como na célebre peça de Luigi Pirandello, così è, se vi pare (assim é, se lhe parece).

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Ivan Berger é jornalista

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