Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > DIVERSIDADE

Por uma crítica generalista ao mercado de comunicação brasileiro

Por Anderson David Gomes dos Santos em 24/03/2015 na edição 843

Uma das coisas comuns em momentos mais extremos de disputas políticas, como o atual, é a crítica a determinado meio de comunicação em específico. Nesta seara, a Rede Globo de Televisão acaba abarcando a maior delas – junto à Veja, esta com ainda mais clareza de posicionamento ideológico. Assim, mesmo para quem é envolvido em movimentos sociais por uma maior democratização da comunicação, muitas vezes o alvo é único e isso é um grande problema.

Primeiro porque se o problema fosse só uma emissora ou grupo comunicacional privado de âmbito nacional, talvez fosse bem mais fácil mudar a situação e criar uma regulação de mercado, algo que existe em outros países (caso dos Estados Unidos, para não restar dúvida quanto à diferença quanto ao que seria censura). Seria interesse dos próprios concorrentes que fossem criadas novas formas de regulamentação para facilitar a derrubada das barreiras de mercado da líder; além de termos, provavelmente, espaços com mais abertura para outras formas de discurso. O que, indubitavelmente, não ocorre – vide, por exemplo, as presenças de Raquel Sherazade e Danilo Gentili no SBT.

Sem falar do caso da Rede Record, que junto à emissora do Grupo Silvio Santos disputa a vice-liderança de audiência na TV aberta, mas mantém entre seus funcionários importantes blogueiros defensores de maior regulação midiática. O que não é um problema, já que enquanto trabalhadores (culturais ou intelectuais) seguimos necessitando vender a nossa força de trabalho para sobreviver. A grande questão é que o padrão tecno-estético da Record é uma cópia do que a líder utiliza, com pouca variação, de acordo com o momento, do conteúdo que é disposto. Assim, por exemplo, teremos críticas à CBF apenas quando à emissora não é permitido sequer disputar os direitos de transmissão de campeonatos como o Brasileiro e a Copa do Mundo Fifa.

Por sinal, a expansão do canal internacional do grupo pertencente a Edir Macedo é algo que merece estudos mais aprofundados, já que embalados pela presença da Igreja Universal do Reino de Deus, a Record tem maior participação em seu canal internacional em determinados países de língua portuguesa. Essa mistura entre religião com o entretenimento gerado por uma TV, dois espaços de disputa de demonstrações de ideologia, gera vários questionamentos do que poderia ser visto em caso de uma mudança no cenário local do mercado.

A “produtora nacional independente”

Outro ponto de importante destaque para este texto veio com a notícia de que a transmissão exclusiva de um jogo do Corinthians na Libertadores pela Fox Sports gerou a liderança de audiência na TV fechada – e seria a segunda maior audiência do dia se fosse na TV aberta (7,03% em São Paulo). Algumas notas e comentários em sites comemoravam o fato que representaria um possível fim do controle do Grupo Globo sobre um importante campeonato de futebol, cujo resultado de derrota teria ocorrido pela primeira vez – vindo da proibição por contrato de transmitir dois dos jogos do time paulista na primeira fase, que é, junto ao Flamengo, o que mais recebe por direitos de transmissão de suas partidas no Brasil.

Entretanto, isso se deu frente a um canal que atua na América Latina há mais de uma década, mas que é oriundo de um grupo transnacional, a NewsCorp, do australiano Rupert Murdoch. Quer dizer, há comemoração por um canal brasileiro ter perdido o controle de um torneio denominado “Libertadores da América” para um grupo internacional com fortes interesses em reproduzir programas enlatados para diferentes partes do mundo. Independentemente de o jogo passar às 20h e não às 22h15 – talvez também por conta da novela, mas para não concorrer com ela, já que a Rede Globo também lidera a audiência na TV fechada –, o controle só trocou de mãos, que seguem com o interesse do lucro.

Talvez a surpresa por este fato ter ocorrido no Brasil venha da força das barreiras de mercado estabelecidas pela Globo durante seus 50 anos de existência, marcantes no futebol brasileiro. Mesmo com traços discursivos que deixam seus interesses de classe mais aparentes, sob os interesses de uma concorrente de tamanho peso no mercado ficaria ainda mais difícil produzir conteúdos alternativos quanto ao que vem sendo disponibilizado. Afinal, qual o interesse de um grupo transnacional de abrir espaço para produções comunitárias ou de origem popular de outro país?

Entramos aqui numa possível contradição, pois é a partir da produção de conteúdo audiovisual nacional que o Grupo Globo passou a centrar forças após perder a disputa para as teles no serviço de acesso condicionado (TV fechada), a ponto de pedir para ser considerada “produtora nacional independente”. Dependendo do nível das disputas contras os gigantes bilionários de comunicação, uma das possibilidades do grupo para manter a legislação com barreiras para estas novas adversárias é a sua capacidade, indubitável, de produzir conteúdo nacional com qualidade tecno-estética.

Acesso, gerenciamento e financiamento

Nossa crítica vai aos dois sentidos. Na verdade, pensamos que a proposta mais próxima do ideal, tendo em vista as condições nos posta pelo sistema capitalista na sua atual fase, é a de lutar por mais espaços efetivamente públicos nos locais que utilizam um bem público, que é o espaço eletromagnético. E a luta aqui é muito maior, pois envolve concessões de TV que são basicamente Estaduais – com retransmissoras em nível municipal –; e as de rádio, cuja disputa por domínio é muito maior e até mais perigosa, por se espalhar em produções de conteúdos que seguem fundamentais para determinados municípios, pois só é aí é que se fala sobre si, gerando controles políticos em espaços menores de poder e de maior controle.

A culpa é da Globo, mas não só dela. Há toda a constituição de um sistema que envolve política, economia e a formação social brasileira que justifica a formação de um mercado com sua liderança e, especialmente, com discursos cuja classe é igual, independentemente de zapear pelos canais. Por isso, inclusive, que não podemos contar apenas com o controle remoto.

A luta por melhorias, portanto, também vai para além dela, envolve batalhas por projetos de regulação de mercado que evitem, no que for possível no capitalismo, a concentração de meios de produção e, para além disso, mais meios de comunicação com outros discursos – e nestes, diferentes formas de acesso, gerenciamento e financiamento.

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Anderson David Gomes dos Santos é professor da Universidade Federal de Alagoas, jornalista e mestre em Ciências da Comunicação

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