Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & TRAGÉDIAS

Drama e informação

Por Gabriel Bocorny Guidotti em 31/03/2015 na edição 844

É duro afirmar isso, mas as tragédias favorecem o jornalismo. Fazem a informação circular, deixam as pessoas interessadas. Na última semana, um acidente aéreo despertou a atenção da mídia mundial. 150 pessoas mortas – 150 histórias encerradas precocemente. O acontecimento choca por sua magnitude, isto é, está muito próximo de nossa realidade. Afinal, quem pega um avião esperando que aquele seja o voo derradeiro da vida?

Inequivocamente, o jornalismo que noticia tragédias já contribuiu para evitar uma série de outros sinistros. A pressão feita pelos veículos de imprensa obriga as empresas a revisar seus protocolos de segurança, aperfeiçoando os serviços. Em 1912, o bombardeio de críticas foi tão grande sobre o naufrágio do Titanic que a comunidade internacional precisou conceber remodelações drásticas: criaram leis inovadoras para garantir uma travessia segura. Ainda assim, a White Star Line, responsável pelo transatlântico, não passou impune: naufragou tão fundo quanto seu maior titã.

Um desastre é imprevisível, embora a investigação posterior mostre que em muitas ocorrências faltou zelo e responsabilidade. O jornalismo assina sua credencial nestes meandros. Elucida as causas, as consequências. Busca histórias inacreditáveis de pessoas, por exemplo, que de última hora não embarcaram no avião caído. Dá espaço, inclusive, para o pastor da igreja X que sonhou com o drama meses antes. As pautas são profusas quando o assunto altera a ordem natural da vida.

Responsabilidade social de informar

Acima de tudo, o jornalista, dentro de seu trabalho de cobrança e apuração, ajuda a construir uma realidade mais transparente para todos. Desnuda os casos onde o dinheiro reinou mais alto que o próprio bem-estar da sociedade. Incute, na mente da audiência, as mazelas do mundo, os dramas individuais de cada um. O bom jornalismo aguça o interesse e a curiosidade, estimulando a reflexão.

No caso do avião alemão, é de se pensar como a vida é efêmera. Pessoas devotas reforçam sua fé, agradecendo por cada dia neste planeta histriônico. Essa consciência só é despertada pela notícia que chega de diferentes veículos e meios de comunicação. Logo, informação é pressuposto basilar de uma sociedade esclarecida, ciente dos perigos e das armadilhas que se impõem ali do lado de fora.

Um acidente pode acontecer com qualquer indivíduo. Essa cruel realidade se apresenta na medida em que surgem os nomes das vítimas. Pessoas comuns, como qualquer outra. A tristeza dos familiares é perenizada em milhares de flashes fotográficos. A biografia dos mortos se valoriza. Busca-se saber quem eram, como viviam, que opiniões nutriam a respeito do mundo. Perscrutam-se os motivos e, a analisar os últimos dois anos, o porquê de tantas tragédias aéreas estarem acontecendo.

Os desastres constituem um tipo de conteúdo lacrimo-edificante pelo qual os veículos não podem se abster de comentar. O público está pensando nisso, está vivendo isso. O público está indignado com a possibilidade de sabotagem na queda do avião da Germanwings. Assim sendo, cumpre ao jornalismo um acompanhamento próximo a fim de alimentar o julgamento das pessoas. A favor da informação e sem sensacionalismo, como a ética manda.

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Gabriel Bocorny Guidotti é bacharel em Direito e estudante de Jornalismo

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