Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

FEITOS & DESFEITAS > PRIMEIRA PÁGINA

“Jornalismo não é arte, é trabalho coletivo”

Por Leonardo Lichote em 18/10/2011 na edição 664
Reproduzido do Globo.com, 11/10/2011; intertítulos do OI

As cenas iniciais do documentário Primeira página: Por dentro do New York Times, de Andrew Rossi, são apocalípticas: uma sequência de reportagens de telejornais anunciando a falência de vários jornais impressos tradicionais. Mas após a exibição do filme e do debate realizado no auditório do Globo na noite de terça-feira (11/10) pela série “Encontro O Globo especial Festival do Rio”, o tom até que ficou foi mais otimista – não só de crença na sobrevivência dessas companhias e no tipo de jornalismo que produzem, como da necessidade de sua existência, como salientou Pedro Doria, editor-executivo de Plataformas Digitais do Globo e um dos debatedores da mesa (ao lado do colunista Merval Pereira e do repórter especial Chico Otávio), com mediação do repórter especial Mauro Ventura: “Você só mantém uma democracia com a população informada. E só vai ter população informada se tiver jornalismo como é feito por essas empresas tradicionais, com gente dedicada a levantar notícias. Essa é nossa missão, manter esse troço vivo”, disse Dória, que minutos antes descrevera a dinâmica que sustenta seu argumento: “Jornalismo não é arte, não é trabalho de gênios. É trabalho coletivo. Um repórter tem uma dica, seus colegas dão colaborações na mesma hora, tem o diálogo com o editor, `O caminho é esse mesmo?´… Por isso que, no fim das contas, você não tem furo saindo de blog.”

O documentário – que acompanha os bastidores da produção do New York Times exatamente num período em que os jornais americanos enfrentavam a maior crise de sua história, entre 2009 e 2010 – também afirma a importância do jornalismo tradicional. Ele faz isso em sua edição – o Prêmio Pulitzer para o New York Times na reta final tem esse caráter de redenção e anúncio de dias melhores – e na voz de personagens como o impagável David Carr, repórter do jornal que o defende com unhas, dentes e implacável deboche contra quem afirma que a companhia estaria próxima de seu fim.

“Assange quer desmoralizar as democracias ocidentais”

Como diz Bill Keller, ex-editor-executivo do New York Times, no filme, “as notícias sobre a morte do jornalismo eram um pouco exageradas”. Os debatedores concordaram que os prognósticos sombrios têm que ser avaliados com cuidado. “Estive num seminário sobre novas mídias e (o jornalista americano) Bob Woodward disse: `Não mudou nada. O fundamental ainda é o repórter e a fonte.´ Ou seja, é o olho no olho, o repórter ter boas fontes e saber contar a história que tem”, disse Merval Pereira.

Apresentado por Mauro Ventura como um dos representantes por excelência do “jornalismo olho no olho”, Chico Otávio defendeu a necessidade de se estar na rua para encontrar a notícia, um comportamento que apareceria com mais força em empresas de comunicação tradicionais: “Acho superpositivo o surgimento dos blogueiros, mas quando estou na rua nunca esbarro com nenhum deles. Porque o trabalho deles é muito concentrado no computador. Hoje ninguém mais escreve uma informação importante no e-mail, muito menos fala no telefone. Você tem que ir atrás e isso tem custos. Poucas redações podem bancar esse processo, que é longo, caro.”

O WikiLeaks, tratado no filme, também foi tema da conversa. O site de Julian Assange seria jornalismo ou apenas uma fonte? “Para mim é fonte”, cravou Chico Otávio “porque eu jamais publicaria aquele material deles in natura. Usaria como base para um trabalho de investigação.” Merval foi mais longe: “Eu diria que eles não são jornalistas, são ativistas. O que Assange quer é desmoralizar as democracias ocidentais, que ele vê como um câncer a ser extirpado.”

“A mentalidade jurássica do jornalista do papel”

A necessidade da adaptação da mentalidade do velho jornalista “do papel” para as novas mídias também foi discutida. Merval lembrou que foi uma confusão no Globo quando ele, então diretor de redação, defendeu que o furo deveria ir para a internet e não ser guardado para a edição impressa do dia seguinte: “Trabalha-se num ciclo de 24h que não existe mais para hard news. O lugar da hard news é a internet. O jornal é o espaço para o comentário, o aprofundamento, a reportagem exclusiva.”

Doria lembrou que isso implica na própria reestruturação da redação: “Há 15 anos, um jornal fazia só um jornal. Hoje faz site, tem que distribuir as notícias para celular e o tablet está entrando. Em vez de termos várias redações produzindo para cada um desses meios, temos uma redação única pensando e produzindo tudo. É a integração. Temos que olhar meios digitais mais tradicionais como a web, onde já sabemos como fazer, e olhar coisas mais novas, como o tablet, onde fazemos laboratório mesmo, experimentamos enquanto observamos o que os outros estão experimentando.”

Chico Otávio ilustrou essa nova relação com a notícia ao fazer uma autocrítica, lembrando um episódio no qual perdeu um furo para o Jornal Nacional por ter decidido segurar a informação que tinha até o dia seguinte, para a edição impressa. “Se tivesse publicado o que tinha na internet, teria dado a história sozinho. Mas tinha a mentalidade jurássica de jornalista do papel. Hoje não faria isso.”

***

[Leonardo Lichote é jornalista do Globo]

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