Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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FEITOS & DESFEITAS >

A atualidade de Sob fogo cerrado

Por Graciliano Rocha em 23/05/2006 na edição 382

Sob fogo cerrado (Under Fire, 1983, EUA) trata da relação entre o jornalismo e o poder. É um filme inquietante porque, mais de 20 anos depois, continua oferecendo lições para a atualidade. Dirigido por Roger Spottiswoode, o filme traz Nick Nolte, Gene Hackman e Joanna Cassidy – três jornalistas encurralados num conflito armado na Nicarágua e num triângulo amoroso. Poderia ser um filme sobre a revolução sandinista de 1979, poderia ser sobre a coragem e o destemor de repórteres que aceitam pôr em risco a própria vida em troca de notícias e imagens. É claro que estes aspectos existem, mas eles não são tão importantes quanto as definições sutis da natureza do trabalho jornalístico em zonas de conflito.

Por que razão algumas pessoas deixam a segurança de seus lares para fazer carreira e fama para cobrir guerras em confins de mundo dos quais a maioria da população nunca ouviu falar? O trio composto por Russel Price (Nolte), Claire Stryder (Cassidy) e Alex Grazier (Hackman) faz parte de um seleto clube de voyeurs interessados naqueles pedaços do planeta onde a loucura deixa suas marcas mais aparentes. A tranqüilidade e a calma não lhes parecem tão apetitosas quanto guerrilhas no Chade ou as ruas de poeirentas cidades nicaragüenses em ruínas.

É meio cínico afirmar que a motivação destes correspondentes de guerra seja informar devidamente um público que pode esquecer de um genocídio tão rapidamente quanto ouve falar dele enquanto toma seu café da manhã. Massacre de civis, rosquinhas, os resultados do esporte, mais café. Sabem disso, não são ingênuos. O que os move é o próprio jogo, é a possibilidade de serem testemunhas da história. A tristeza é o jogo, o tumulto e o excesso são a essência, a sobrevivência é a regra.

Deixam isso claro em diversas passagens, como na cena em que Grazier lembra que ninguém em Nova York sabe onde fica o Chade, ou na primeira conversa de Grazier e Price com uma tradutora em Manágua. Com alguma dose de realismo sarcástico, a mulher observa que eles sentem algum prazer em observar a desordem no país alheio. ‘É claro que você se sente honrado cobrindo isso que nós chamamos de guerra’, alfineta ela, dirigindo-se a Price.

Fraude deliberada

O nome desse jogo é poder. O ponto alto do debate em Sob fogo cerrado é justamente a quebra deste cordão sanitário que isola confortavelmente o ‘observador objetivo dos fatos’ dos interesses de quem é a notícia. Seja por convicção pessoal ou para tirar alguma vantagem, o jornalista às vezes é exposto a situações em que deixa de ser o repórter para ser a própria notícia. Price e Stryder são postos à prova algumas vezes. E sucumbem, tomam partido. A primeira cena que revela isso é a do assassinato de um revolucionário sandinista por um franco-atirador mercenário. Price esquece a câmera e agarra rapidamente o fuzil do defunto e começa a correr na direção de onde saíram os disparos. Corre, pára e, depois de passado o tumulto, dá a entender que alguma coisa estava errada, que tinha consciência de que tomara partido.

A mais dramática quebra de seu mandato de correspondente independente no conflito se dá na seqüência, quando conseguem finalmente chegar ao quartel-geral dos sandinistas no norte do país para uma entrevista com Rafael, o líder revolucionário. Não haveria entrevista alguma, pois o entrevistado fora morto numa emboscada das forças oficiais dias antes. ‘Precisamos de uma foto que prove que ele está vivo porque disso depende o futuro do país’, propõe um dos comandantes rebeldes. Price se recusa a princípio, mas durante o diálogo seguinte com Stryder, o mais importante do filme, questiona a sua própria condição. É o fim da ambigüidade.

Na manhã seguinte, o defunto aparece quase sorridente ao lado de dois comandantes revolucionários que exibem as manchetes dos jornais sobre sua morte. A foto corre o mundo e tem um impacto fortíssimo no conflito. A Casa Branca, que relutava em mandar US$ 25 milhões em armas para a ditadura de Anastacio Somoza por não ter certeza das chances de vitória do regime, decidiu deixar o ditador com a broca na mão. Internamente, a ressurreição promovida pela foto de Price teve o efeito de elevar o moral das tropas sandinistas na ofensiva final que resultaria na deposição de Somoza.

Ora, o jornalismo tem o poder de mudar o curso da história? Talvez sim, talvez não, talvez o resultado final fosse o mesmo. Independente disso, é importante não esquecer o que a foto realmente foi no contexto: uma fraude deliberada para favorecer um dos lados. Fico pensando se uma proposta similar tivesse sido apresentada aos dois correspondentes pelo asqueroso assessor de relações públicas de Somoza. Certamente não teriam aceitado, com vasto arsenal de justificativas de ordem moral. Price também foi útil ao regime de Somoza. As dicas de um espião francês o levariam a grandes furos de reportagem nas zonas controladas pelos guerrilheiros. O jornalista ficou desolado ao descobrir que sua fonte montara um esquema para copiar suas fotos e repassá-las ao serviço de inteligência do governo, que as usaria para identificar líderes rebeldes e exterminá-los.

Utilidade, não charme

Filmes como Sob fogo cerrado oferecem a tentação do juízo de valor sobre as atitudes dos personagens. A foto fraudulenta foi simplesmente jogo sujo ou foi uma contingência em nome de uma causa maior (ajudar o povo a se livrar de uma ditadura sangrenta)? O preço das informações do espião francês a serviço de Somoza foi aceitável? Os jornalistas têm o direito de enganar os outros em nome de suas convicções? E as questões vão se sucedendo.

Vou deixar o julgamento moral para o leitor e me ater a algumas constatações. Uma notícia ou uma foto não-publicadas não têm impacto, poderiam nunca ter acontecido. Assim, o jornalista é aliado da ambição do poder. É cortejado, bajulado e respeitado, tem chaves de portas que não se abrem a cidadãos comuns. Pode escrever matéria sobre a guerra da Nicarágua e logo em seguida desfrutar um bom scotch na piscina do cinco estrelas em que está hospedado. Às vezes alguns podem se inebriar com o trânsito fácil por vários estilos de vida e supor erroneamente que isso deriva de seu encanto pessoal.

Mas é a sua utilidade ao poder, e não o seu charme, que lhe rende privilégios. Na maioria, são homens e mulheres realistas que não se deixam iludir pelo jogo. Usam as suas fontes tanto quanto são usados por elas para manterem a marcha implacável dessa engrenagem gigantesca de informação e desinformação que é o jornalismo diário. Uma engrenagem que não é o poder propriamente dito, mas que faz parte dele. Como todo grande filme, Sob fogo cerrado é atemporal.

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Jornalista, Campo Grande, MS

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