Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

FEITOS & DESFEITAS > LULA E A MÍDIA

A azia do presidente

Por Deonisio da Silva em 13/01/2009 na edição 520

Gostei da entrevista do presidente Lula, concedida ao jornalista Mario Sergio Conti, da revista piauí (ver íntegra aqui). Aprecio a conversa clara, a menor distância entre dois pontos, diferentemente do que ensina a geometria, que diz ser a reta. Ou dizia, nos meus tempos de péssimo aluno das ciências exatas, para mim um ramo das ciências ocultas, como as feitiçarias.

O presidente foi claro, não temeu se expor e respondeu a tudo o que lhe foi perguntado. Naturalmente, cada um de nós tem outras perguntas a fazer a Lula, desdobrando-as de acordo com as respostas, mas isso é uma utopia, ainda que o modelo de entrevista do programa Roda Viva seja o que mais se aproxima do que se espera de um entrevistado.

Como quadro de referência, veja-se o vídeo Resumo da Ópera, disponível no site da Gazeta Mercantil, em que o jornalista Augusto Nunes lembra uma conversa ocorrida em maio ou junho de 1968 entre a condessa Pereira Carneiro, dona do Jornal do Brasil, e o então presidente Costa e Silva.

O ditador, que assinaria o famigerado AI-5, em dezembro daquele ano, sepultando de vez as liberdades e lançando o país num abismo do qual somente sairia em meados década de 1980, visitou o JB para queixar-se do tratamento hostil que seu governo recebia. A proprietária do jornal ponderou que as críticas eram construtivas. Então a autoridade máxima do governo militar esclareceu: crítica construtiva era pouco, ele queria elogio.

Sobre mensalão

As relações entre a imprensa e o poder estão na ordem do dia por conta de uma revista cultural. Este é mais um ponto positivo da fala presidencial, que permite que os leitores avaliem o quanto o Brasil mudou. Augusto Nunes é taxativo na conclusão: ‘O Brasil mudou muito nesses quarenta anos; os presidentes, não. Todo presidente quer elogio’.

Gostaria de discordar de sua conclusão, mas estamos longe de um governante que aceite os fundamentos da democracia norte-americana proposta pelos fundadores, que deixam claro a função da imprensa como denunciadora e fiscalizadora dos atos públicos.

Contudo, em outros pontos o Brasil mudou, sim, nesses quarenta anos. Em primeiro lugar, vivemos numa democracia, com todos os percalços que esse regime tem. Grandes problemas do país, já seculares, ainda não foram resolvidos, mas podemos escrever sobre todos eles em todos os lugares, em jornais, em revistas, na internet etc. E falar sobre qualquer deles no rádio e na televisão.

A entrevista do presidente estava disponível na internet antes mesmo que a revista impressa chegasse ao leitor. A mídia eletrônica foi rápida e vários blogues destacaram trechos mais significativos.

Disse Lula: ‘Não há hipótese de um presidente da República ser desinformado sobre as coisas mais importantes que acontecem no Brasil’.

Neste caso, o presidente não pode mais alegar que desconhece este ou aquele assunto, como o mensalão – que, aliás, complicou a mídia internacional quando precisou registrá-lo, ainda que o espanhol tenha adaptado logo para ‘mensalón’.

Disse Lula: ‘No caso do mensalão, eu espero que a Justiça desvende esse mistério. (…) O acusador é cassado porque não provou a acusação e, ainda assim, o Zé Dirceu é cassado’.

Todas as notícias

Sim, de fato, foi assim, mas o mensalão está no Supremo Tribunal Federal, onde a denúncia foi aceita num relato muito bem fundamentado do ministro Joaquim Barbosa. Não se pode ignorar isso.

O presidente deu um puxão de orelhas em José Dirceu, ainda que indiretamente: ‘Eu acho uma loucura alguém [José Dirceu] que exerce um cargo político ficar uma semana, totalmente desnudado, diante de um jornalista, porque podem acontecer coisas muito agradáveis e podem acontecer coisas desagradáveis’.

Podem mesmo, o presidente está certíssimo, e a imprensa deve dar todas as notícias, dêem ou não azia nos governantes. Se a imprensa só desse as ‘aziáticas’, o presidente poderia reclamar, mas não tem sido assim.

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Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de Cultura e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século); www.deonisio.com.br

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