Domingo, 13 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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FEITOS & DESFEITAS >

A Bahia de paz…

Por Emerson Leandro Silva em 22/09/2009 na edição 556

A televisão estava ligada. Eram dezenove horas mais ou menos. No telejornal, a notícia impactante de que uma seqüência de módulos e delegacias da policia baiana tinham sido incendiados ou parcialmente danificados. Atraído pelas ondas sonoras do aparelho, aumento o volume do som e fico mais concentrado na notícia. Concluo: O Estado é letárgico e os marginais são inburocratizados e eficientes. Busquei, como feito de praxe, encontrar no telejornal alguma acusação direcionada ao órgão que é responsável pela segurança pública em nossa capital. Espantosamente nada encontrei.

Há alguns meses, bastou existir um indício de que traficantes impuseram um toque de recolher em Castelo Branco (bairro de Salvador com grandes índices de violência) para que o secretário de Segurança Pública do Estado fosse colocado na berlinda. Quando vi a TV Bahia (afiliada da Globo e herança imponente do nosso oprobioso senador baiano, Antônio Carlos Magalhães), pensei: Meu Deus, que bom! Mesmo que por razões escusas, a TV está cobrando, de forma incisiva, a responsabilidade do Estado nesta questão!

Vendo agora a publicização desta nova modalidade de ataques a módulos policiais e percebendo que nenhuma autoridade foi chamada de forma incisiva até o momento, nem ao menos para um breve bate-papo, senti que minhas esperanças estavam indo por água abaixo. Estranhei que a referida emissora não cumprisse novamente seu papel de denúncia e rigor cívico no trato da notícia. Isso me conduziu a um questionamento… Por que será? Em meu ensino médio, sempre fui acusado de amante da teoria da conspiração e talvez de fato seja um seguidor desta vertente filosófica. Porque o primeiro pensamento que me ocorreu foi que o motivo para que as coisas fossem tão pouco veiculadas na mídia se devia à proximidade do jogo da seleção brasileira e por conta da pretensão baiana de sediar a copa de 2014. Mesmo correndo o risco de ser tratado pelo leitor como um louco, se é que este teve paciência de chegar até aqui, quero tentar expor mais incisivamente minhas inquietações…

‘Acordo de cavalheiros’

É do conhecimento de todos que a Bahia será uma das sedes da copa de 2014. Que o Partido dos Trabalhadores historicamente, em nosso estado, sempre teve o DEM, ex- PFL, como a prova cabal da existência do demônio. (ao menos seus integrantes pareciam acreditar nisso). Até aí, tudo bem. O atual governo petista tem uma responsabilidade enorme nas mãos. Precisava, como em quase tudo em sua trajetória, tentar fazer mais e melhor. Mas num estado onde facilmente, durante muitos anos, poderia ser chamado de ACM ao invés de Bahia, isso não seria uma tarefa fácil. É este impasse que possibilita o aparecimento do fantasma da governabilidade pragmática (leia-se: processo onde se faz o que for possível para que suas propostas, leis, diretrizes etc., sejam posta em prática) da qual a política de aliança é uma das táticas mais utilizadas.

Sabendo dessa conjuntura histórico-política, não é no mínimo plausível que se sinta estranheza quando se está diante de um quadro totalmente divergente do comum? Os repórteres não mais perguntam afirmativamente coisas do tipo: ‘Secretário, o que a Secretária de Segurança Pública tem feito para conter os atos de atrocidades ocorridos nas últimas semanas contra a população carente de Salvador?’ Ao invés disso, fazem pequenas matérias onde posam em primeiro plano os supostos responsáveis dos atentados, sendo transferidos para uma prisão de segurança máxima de outro estado. Culminando com os discursos enfáticos das autoridades que dizem coisas do tipo:

‘Estamos nos empenhando ao máximo para garantir que o crime organizado seja ostensivamente combatido!’

Pronto, fim da matéria. Mas, por mais tentadoras que possam parecer essas colocações, o que pode estar ocorrendo é um puro e simples ‘acordo de cavalheiros’ entre estado e TV. Me ajude que eu te ajudo! No fim, como diria minha avó, dois carneiros de chifre grande não bebem na mesma cumbuca. A não ser que esta seja uma cumbuca política.

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Estudante de Comunicação Social e Ciências Sociais, Camaçari, BA

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