Sábado, 20 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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A campanha presidencial já começou

Por Marcelo Salles em 17/03/2009 na edição 529

A campanha eleitoral para as eleições presidenciais de dezembro já está nas ruas da Bolívia. Melhor dizendo: já está nas televisões, rádios e jornais bolivianos. Mais uma vez os meios de comunicação de massa colocaram seus interesses empresariais à frente da prática jornalística e utilizaram um fato explosivo para incensar o nome de Victor Hugo Cárdenas, ex-vice-presidente da República, até então considerado ‘um cadáver político’ pelos analistas locais.


Não sei se virou notícia no Brasil, mas no dia 7 de março camponeses do povoado de Sancajahuira tomaram a casa de campo de Cárdenas, vice de Gonzalo Sánchez de Lozada. Nesta sexta-feira (13/3), tive a oportunidade de ir até Sancajahuira, distante uns 100 km de La Paz, e acompanhei a assembléia realizada pelos comunários que protagonizaram a ação.


Território livre


Assim que cheguei, por volta de 11 horas, o povo estava concentrado em frente à casa – repleta de pichações como ‘Do povo para o povo’ e cartazes explicando os motivos pelos quais Cárdenas foi expulso. Como a mídia daqui havia divulgado que os jornalistas estavam sendo expulsos a chicotadas e a pedradas, optei por chegar sem a credencial. Minha idéia era conversar com as pessoas, mostrar uns exemplares do Fazendo Media, da Caros Amigos e do Brasil de Fato, e explicar o tipo de jornalismo que faço. Não foi preciso.


Assim que me identificaram como jornalista (não me pergunte como), fui convidado a entrar na roda e a me aproximar. De longe, ouvia os comentários: ‘Periodista de Brasil’. Ao final ainda fui convidado para o almoço coletivo com alimentos típicos da região, como chuño, batata, mandioca, milho e um peixe parecido com sardinha. Uma recepção bem diferente da que eu esperava.


Diversos representantes de movimentos sociais discursaram, incluindo a CSUTCB e as Bartolinas, duas organizações da base de apoio do governo Evo Morales Ayma. Até a tia de Cárdenas se manifestou contra ele, acusando-o de trair suas origens. Durante as falas, fico sabendo que Cárdenas não teria cumprido com suas obrigações comunitárias, que não cumpriu com as promessas que fez para a comunidade quando vice-presidente, que apoiou a venda de empresas públicas, fez campanha pelo NÃO no último referendo e, por fim, que ele não seria o verdadeiro dono do terreno (os comunários mostraram documentos públicos a esse respeito). Alguém disse: ‘Não somos masistas (partido do Evo), mas apoiamos o processo de mudanças’.


Em seguida, o povo realizou um justiçamento comunitário simbólico, chicoteando um boneco do ex-vice e depois o enterrando do lado de fora da casa, que foi entregue neste dia à população da terceira idade da região. ‘Não vamos retroceder’, afirmam eles, que declararam toda a região de Omasuyos (onde está Sancajahuira) território livre de acordo com os artigos 190, 191 e 192, que dispõem sobre os direitos dos povos originários na Nova Constituição.


Cadáver redivivo


Diante das repercussões, a maioria dos analistas acredita que o governo Evo sai prejudicado, devido ao uso político feito pela direita e sua mídia. O efeito, sobretudo nas classes médias, será: ‘Minha casa poderá ser roubada’. Além disso, as corporações de mídia daqui tratam os camponeses como selvagens e dizem que eles são integrantes do MAS de Evo Morales. Por silogismo, o partido do presidente e seu governo passam a ser, também, selvagens. Este seria o primeiro grande desgaste de Evo para as eleições presidenciais de dezembro, segundo o sociólogo Eduardo Paz Rada, professor da Universidade Mayor de San Andrés.


Digo uso político porque quando entrei na espaçosa casa de dois andares, quatro quartos, dois banheiros, sala com 70m2, lareira e amplo jardim, pude ver que não havia instalação elétrica e nem água corrente. Além disso, a escada estava inacabada, ainda no cimento, e não havia parapeito nem outro tipo de apoio. Para mim ficou evidente que ninguém morava ali, mas segundo as imagens da televisão, parecia o contrário. Ao saber da decisão comunitária pela tomada da casa (o que foi divulgado amplamente), Cárdenas enxergou uma manobra inteligente.


Ele sabia que este governo não promoveria uma reintegração de posse violenta para não se igualar a Sánchez de Lozada (que hoje vive escondido em Miami, acusado de ordenar o assassinato de 67 pessoas em outubro de 2003), apesar de ministros terem declarado sua discordância com a ação dos comunários. Assim, Cárdenas mandou para lá sua esposa e filhos (ele mesmo não foi), que foram arrancados à força da casa. Com ferimentos leves, apareceram dando declarações dentro do hospital e debaixo das músicas especialmente selecionadas para completar o quadro de tristeza. O ex-vice aparecia na seqüência declarando que a culpa era do presidente Evo e seu governo. Pronto, aquele que era considerado um cadáver político agora já aparece entre os presidenciáveis da direita para as eleições de dezembro.

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Jornalista, correspondente da Caros Amigos em La Paz (Bolívia), editor do jornal Fazendo Media e integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

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