Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > OI NA TV

A cobertura do
Pan na berlinda

Por Karla Candeia em 11/07/2007 na edição 441

O Pan-Americano é o maior evento esportivo realizado no Brasil desde a Copa do Mundo de 1950. Serão 18 dias de competições, emoções e torcida. E também de cobertura intensa, para os jornalistas: 4.500 profissionais da mídia transmitirão o dia-a-dia deste evento de proporções olímpicas – custou R$ 3,5 bilhões ao cofres públicos – que chama a atenção do mundo para o Brasil e para o Rio de Janeiro. O programa Observatório da Imprensa na TV da última terça-feira (10/07) avaliou a cobertura da mídia até o momento e debateu as expectativas para o evento que inicia nesta sexta.


No editorial que abre o programa, Alberto Dines lembrou que, desde o anúncio, 5 anos atrás, de que os Jogos Pan-Americanos aconteceriam do Rio, poucos jornalistas se atreveram a questionar a ‘validade’ do alto investimento necessário para o evento. Dines também lembrou no editorial que a Radiobrás foi autorizada a transmitir todos os jogos do Pan. Para o apresentador do OI na TV, isto poderia ser um verdadeiro teste para a nova Rede Pública de TV, mas a Radiobrás perdeu a chance.


Participaram do debate no estúdio da TVE, no Rio de Janeiro, a chefe do serviço de imprensa do Pan-Americano, Carina Almeida; em São Paulo, o editor-chefe do jornal Lance, Luiz Fernando Gomes, e o gerente-geral de esportes do site UOL, Alexandre Gimenez; e, de Belo Horizonte, o coordenador de esportes da rádio Itatiaia, Junior Brasil.


O esporte brasileiro vai viver grandes momentos quando começarem os jogos Pan-Americanos. Durante as competições, a cidade do Rio de Janeiro vai ser a capital dos esportes na América. Serão 5.600 atletas de 42 países que disputarão mais de 2.000 medalhas. Os custos, porém, ficaram bem acima do previsto: foram gastos cerca de R$ 3,5 bilhões, provenientes dos governos federal, estadual e municipal. A desculpa para a despesa foi a de que tudo deveria ficar digno de uma Olimpíada, já de olho na candidatura para os jogos de 2016. São 16 locais de competição, com vista para os cartões postais da cidade.


Foram colocados a venda mais de 1,7 milhão de ingressos e quem não comprou pela internet teve de enfrentar filas quilométricas nos pontos de venda. A falta de organização foi criticada pela maioria dos jornais. A segurança foi outra grande preocupação da imprensa. Para garanti-la, foram convocados 18.000 homens, inclusive da Força de Segurança Nacional. O esquema foi posto à prova por jornalistas de O Globo, que conseguiram burlar a segurança e entraram na vila Pan-Americana – onde circulam 8.000 pessoas, entre atletas e técnicos. Apesar de todo o aparato montado, ficou claro que ainda há falhas a serem corrigidas.


‘Temos uma coisa sensacional, que é trabalhar em conjunto a editoria de esportes e a editoria Rio. Para nós há um personagem diferente, um competidor quase ou tão importante quanto todos os outros brasileiros que vão disputar o Pan, que é a cidade do Rio de Janeiro. Esta cobertura é única’, avaliou numa entrevista previamente gravada o editor de esportes do jornal O Globo, Antônio Nascimento.


Antes mesmo de começar a competição, houve um incidente diplomático: uma foto tirada flagrou uma brincadeira de mau gosto feita por um dos gerentes de imprensa do comitê olímpico norte-americano. O autor escreveu a frase ‘Bem-vindo ao Congo’ em um quadro de apresentações, em tom de ironia ao Brasil. A gafe rendeu um pedido de desculpa aos brasileiros e o brincalhão teve sua volta para casa antecipada.


Qualidade digital


Serão geradas imagens com qualidade digital. A responsável por isso será a emissora espanhola ISB (International Sports Broadcasting), direto do Riocentro. Canais abertos e por assinatura também investiram alto numa cobertura especial voltada para o Pan.


A cobertura do Pan-Americano vai atrair 4.500 profissionais de mídia das três Américas, além de países europeus e asiáticos. Eles terão à disposição um centro de imprensa com 3.500 metros quadrados, com 36 terminais de informações sobre os jogos e acesso a internet. ‘Teremos que aprender como lidar com evento desse porte’, contou em numa entrevista gravada o sub-editor de esportes da Folha de São Paulo, Fábio Seixas.


O diretor de esportes da TV Globo, Luiz Fernando Lima, contou que, entre operações internas e externas, a emissora terá mais 700 profissionais trabalhando na cobertura do Pan. Mas nem todas as emissoras têm o mesmo interesse que a TV Globo: ‘a Radiobrás não tem estrutura nem equipe para uma cobertura de transmissão de jogos’, explicou o diretor interino de jornalismo da Radiobrás, Eurico de Freitas Tavares. ‘Temos outro enfoque, que é o esporte pela visão do cidadão, a forma como isso está representado na vida dele’, completou.


Dines começou o programa apresentando a coordenadora da área de imprensa do Pan e do comitê olímpico brasileiro (COB), Carina Almeida, e em seguida perguntou o que haverá de novo nesta cobertura. Carina disse que haverá uma abrangência de cobertura ‘fantástica’ e continuou: ‘seremos muito vistos, muito assistidos, muito lidos, muito ouvidos’. Ela informou que além dos 42 países das Américas que fazem parte do evento, jornalistas do mundo inteiro pediram credenciais para cobrir o Pan. ‘Em termos de visibilidade, é um legado interessante’, observou.


Dines questionou se haverá abertura para novas mídias e Carina respondeu que sim, e que há dois aspectos interessantes neste sentido: houve um grande credenciamento para cobertura por parte da internet e uma abertura de mercado para os jornalistas no campo da organização o evento.


O apresentador do OI na TV avaliou que o Lance é um jornal multimídia: com edições diárias e regionais, internet, e dentro da net, em uma TV. ‘Como vocês farão essa divisão de trabalho?’, perguntou Dines ao editor do jornal, Luiz Fernando Gomes. Ele contou que de fato o Lance é uma empresa multimídia e que está apostando no diferencial da cobertura. ‘Estamos reproduzindo no Pan experiências que deram certo na última copa do mundo’, comentou, e entregou que, uma das táticas será trocar informações com jornalistas estrangeiros para obter mais notícias sobre os atletas estrangeiros que se destacarem. No site, a TV on line dará as informações em tempo real, ‘com o resultado das provas tão logo elas aconteçam’.


Em seguida, Dines perguntou se, em virtude dos jogos, a distribuição do Lance será estendida para outras cidades onde sua circulação ainda não é feita. ‘Temos três edições: no Rio, São Paulo e Belo Horizonte. O Lance atinge outras capitais, mas não com a mesma intensidade’ explicou Luiz Fernando. Para ele, a maneira de enfrentar a cobertura massiva da televisão ‘é ser relevante’ e levar ao leitor o que a TV não deu a ele nas 24 horas de cobertura, ‘é uma tarefa árdua, difícil, mas com os elementos de auxilio de jornais estrangeiros e mobilização fora da arena, procuraremos elementos que tornem o Lance relevante para o leitor’, esclareceu o jornalista.


Cobertura no rádio


A rádio Itatiaia é amais tradicional na cobertura esportiva no estado de Minas Gerais e uma das mais importantes nesse segmento do Brasil. Dines perguntou para Junior Brasil como ele avalia a cobertura do rádio numa época em que a novas mídias ganham cada vez mais espaço. O coordenador da rádio disse que ao contrário do que muitos falam, o rádio está muito presente na vida das pessoas por ser um meio barato e acessível. Para ele, no rádio há a mesma instantaneidade da internet, mas com um dinamismo a mais: ‘vamos estar com aquele cara que ganhou a medalha na mesma hora’. E garantiu: ‘ainda temos um espaço assegurado’.


Dines indagou para Alexandre Gimenez – que já cobriu algumas Copas do Mundo e trabalhou em jornais impressos como a Folha de São Paulo – se a internet poderá transmitir imagens simultâneas dos jogos. O gerente-geral de esportes do UOL contou que a internet não vai poder transmitir nenhuma imagem ao vivo e nem durante um prazo de até 6 horas após o final da competição, pois ‘isto está dentro das regras que o COB definiu para cobertura dos jogos Pan-Americanos’. Segundo Gimenez, a regra contraria o espírito da Lei Pelé, que determina que qualquer empresa jornalística pode captar e transmitir até 3% de qualquer evento esportivo. Para Gimenez, a postura do COB em relação à internet ainda é ‘retrógrada’. Ele reclamou que o UOL tentou comprar os direitos de transmissão dos jogos Pan-americanos para internet, mas o COB informou que esses direitos não seriam vendidos. Entretanto, os direitos teriam sido vendidos para empresas fora do Brasil: ‘o portal Terra comprou todos os direitos para todos os outros países da América Latina’, afirmou.


Alberto Dines comentou que a questão de direitos não faz parte do trabalho de Carina, mas pediu que ela fizesse alguns esclarecimentos sobre o assunto. Ela explicou que a questão está relacionada ao comitê organizador do Pan e não ao Comitê Olímpico Brasileiro. E que o problema passa por acordo selado com as emissoras de TV que transmitirão os jogos: são elas que não permitem que empresas de internet brasileiras transmitam os jogos no Brasil. Em relação às credenciais, ela explicou que nem mesmo nos jogos olímpicos foi concedida uma cota grande para a cobertura da internet.


Foco no futebol


No início do segundo bloco, Dines disse que o brasileiro é um aficionado por futebol e por vezes ignora outros esportes. ‘É possível quebrar esse tabu?’, perguntou o apresentador para Luiz Fernando Gomes. Ele respondeu que o esporte é muito focado na idolatria: ‘o tênis na era Guga ganhou um espaço na imprensa que numa havia tido’, explicou. O editor do Lance observou que os esportes solitários deixam o atleta em evidencia. Segundo ele, ‘o lado lúdico mobiliza e atrai’. Em relação à mídia, Gomes acredita que seu grande desafio é fazer uma cobertura que balanceie as informações esportivas que são técnicas e especializadas e as obvias, sabidas por todos. ‘É esse lado que iremos procurar para levar um interesse maior para esses esportes’, contou.


Dines indagou para Junior Brasil como é possível criar uma vibração numa corrida, num salto. ‘Como vocês vão enfrentar esse desafio narrativo?’. Junior disse que quem trabalha em rádio é muito criativo porque é o olho do ouvinte, ‘tem que descrever todos os detalhes’, e assegurou que ‘recursos existem’.


O apresentador quis saber de Gimenez como é possível divulgar os esportes chamados de poliesportivos e clássicos para que eles alcancem a mesma popularidade que o futebol. Gimenez avaliou que os recursos que estão disponíveis para os grandes esportes às vezes não chegam ‘na base’, ou seja, nos atletas. E informou dados do COB que diziam que quase metade do que é recebido pela entidade serve para custear sua própria burocracia. Segundo ele, é preciso mudar a filosofia de uso dos recursos.


Alberto Dines questionou Carina se o comitê olímpico brasileiro está mobilizado para valorizar e chamar a atenção da população para outros esportes, ‘para evitar essa concentração no futebol’. Ela disse que falaria do ponto de vista da comunicação, e que, neste aspecto, existem duas ações importantes que estão sendo feitas: o papel da mídia em mostrar outras mobilidades esportivas – ‘a imprensa tem o papel super importante de ajudar na democratização e acesso’ –; e a formação de uma redação dentro do Pan para cobrir todos os esportes, inclusive os menos conhecidos, e enviar essas informações para os veículos que não puderam vir ao evento.


Dines perguntou para Luiz Fernando: ‘O que o Lance está fazendo de especial para cobrir o evento?’. O jornalista respondeu que a cobertura envolverá tanto os profissionais do Rio quanto São Paulo, e conta com 30 pessoas trabalhando diretamente. Disse ainda que o foco é fazer uma cobertura com diferencial: com bastidores, análises e críticas.


Rádio na internet


O apresentador do OI na TV perguntou para Gimenez se o site UOL tem planos de fazer transmissões radiofônicas do evento, que poderia tornar a cobertura ainda mais rápida. O gerente de esportes do UOL contou que isso acontecerá e que o portal terá repórteres transmitindo flashes em textos, fotos, áudio e vídeo. ‘A idéia é levar para o internauta os vários tipos de mídia para ele poder consumir na hora em que ele achar melhor’, explicou. Ele contou ainda que outra novidade será a transmissão de vídeos enviados pelos próprios telespectadores.


Dines replicou e perguntou se depois do terceiro dia o internauta ainda terá ‘paciência’ para acompanhar o Pan ‘passo-a-passo’. Gimenez acha que terá, sim, e observou que o brasileiro tem um ‘afã’ pela competição esportiva e que, como os atletas brasileiros estarão sempre competindo, o interesse será alto. ‘Ninguém vai acabar enjoando’, analisou.


O apresentador indagou para Junior se é possível inflamar o país no Pan, da mesma forma que acontece na Copa do Mundo. Junior acredita que sim, e que não vai haver um apelo tão grande do futebol, já que a seleção está disputando outra competição e o time não estará completo.


No último bloco, os comentários finais dos convidados: Luiz Fernando avaliou que nos últimos dois anos se tem comentado que tipo de Pan o Brasil irá mostrar – ao estilo canadense, de grande sucesso, ou da República Dominicana, considerado um fracasso. Para ele a sorte está lançada e os fatos irão mostrar. Junior Brasil comentou que um forte concorrente do Pan será o campeonato brasileiro, que não será interrompido no período. E pediu ao governo que o esporte não se limite ao Pan porque o tripé ‘educação, saúde e esporte’ é importante para qualquer país. Alexandre Gimenez afirmou que é importante que a cobertura seja diversificada para o público e lembrou que o Pan não deve ser visto como uma prévia das Olimpíadas. Carina Almeida acha que os jogos Pan-Americanos serão mais uma grande oportunidade para a imprensa nacional cobrir uma competição importante e, para o publico, a oportunidade de consumir informações de todos os tipos.


 


***


O Pan e as oportunidades perdidas


Alberto Dines # editorial do programa Observatório da Imprensa na TV exibido em 10/7/2007


Bem-vindos ao Observatório da Imprensa,


Vai ser dada a largada: na sexta-feira começam os Jogos Pan-Americanos, o 15º Pan, a maior festa esportiva em território brasileiro desde a Copa de 1950, de triste memória.


A mídia está animadíssima, serão 18 dias muito quentes com competições, suspense, torcida, patriotismo, lágrimas e uma nova fornada de heróis, heroínas e celebridades. Toda festa esportiva é um espetáculo midiático. Neste caso, servirá para compensar a enxurrada de vexames que nos chegam do Senado ou via Polícia Federal.


O Rio foi escolhido como sede deste Pan há cinco anos. Neste intervalo, alguns jornalistas, poucos, na realidade, tiveram a ousadia de questionar a validade deste brutal esforço e dos enormes gastos diante do nosso elenco de prioridades. Hoje mesmo, no Globo, o jornalista Ali Kamel pergunta se estes R$ 3,5 bilhões gastos no Pan não poderiam ser melhor utilizados para minorar a situação do milhão de favelados do Rio de Janeiro. Agora é tarde.


Neste Pan há outra questão midiática completamente ignorada: a Radiobrás foi autorizada a transmitir todos os lances do Pan. Seria a primeira vez que um canal não comercial transmitiria uma grande festa desportiva. Belíssima oportunidade para testar a anunciada Rede Pública de TV e, infelizmente, desperdiçada.


Agora é tarde, melhor relaxar… E torcer.

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/07/2007 Gil Santa Fé

    Muita tecnologia a serviço do atraso. A TV Globo deixa a informação em segundo plano e age como torcedora fanática. É clara a intenção de criar mais uma vez um clima de ufanista, que é bom para os negócios(os anunciantes agradecem) e esconde as mazelas do dia a dia (os governantes agradecem). Quando vejo o jornalismo praticado no Brasil reflito: a tecnologia midiática é para criar boas imagens ou boas informações? Boas imagens não são sinônimos de boas informações. Isto vale para esportes em geral, futebol em particular, política e economia. Quando sairemos da imprensa torcedora? Quando deixaremos de ser torcida organizada pela midia e passaremos a ser cidadãos criticos usuários de boa informação?

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