Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

FEITOS & DESFEITAS > CRISE E ACACIANISMO

A corrosão do sentido

Por Muniz Sodré em 11/10/2005 na edição 350

Ao cabo de qualquer viagem em avião da TAM, ouve-se invariavelmente o agradecimento da comissária: ‘Nós sabemos que a escolha da companhia aérea é uma decisão do cliente’. A frase é uma pérola de redundância: óbvio que a opção pelo dito ‘jeito TAM de voar’ é uma decisão de quem compra o bilhete, seja pessoa física ou jurídica. O saber autoproclamado como algo particular (‘nós sabemos…’) pertence na verdade ao senso comum. Sua evidência prescinde de enunciação.

Por que então falar do mesmo sobre o mesmo, insistir nisso que os lógicos definem como tautologia ou que os literatos chamam de acacianismo? Possivelmente, para dizer uma outra coisa que, se fosse diretamente explicitada, perderia impacto retórico. O ‘nós sabemos’ é, no limite, uma fórmula vazia, análoga ao ‘eu te amo’ dos namorados, que já têm o amor mútuo como pressuposto do estar-juntos, mas repetem a fórmula estereotipada, com vistas a uma outra coisa, a sedução. A publicidade usa e abusa de recursos retóricos dessa ordem. O ‘nós sabemos’ da companhia aérea é uma estratégia publicitária.

‘Só apreciamos o nada’

Tudo isso vem a propósito do balanço que se começa a fazer desses meses inteiros de noticiário sobre a corrupção nas altas esferas do poder. Há três tipos de ‘nós sabemos’ no cipoal dos escândalos. O primeiro tipo é o da população (a ‘choldra’, de que fala o colunista Elio Gaspari), que sabe, por intuição ou sensibilidade, da realidade da corrupção em Brasília. O segundo pertence aos parlamentares encarregados da apuração dos fatos, que efetivamente ‘sabem’, mas parecem imobilizados pelo excesso de saber ou atemorizados pelo que ainda se venha a descobrir. O terceiro tipo é o do grande público de jornal e televisão que, cansado de tanta evidência, já não mais consegue discriminar os acontecimentos. Tudo tende a igualar-se no caldeirão dos escândalos.

De fato, na primeira semana de outubro, a imprensa escrita parecia convergir para o consenso no sentido de que as CPIs estão ‘perdendo o foco’, na medida em que ampliam as investigações. O paradoxo é evidente: aumentar o campo das informações equivale a diminuir o foco, isto é, a perder a orientação quanto à realidade dos fatos. Daí, a ausência, até agora, de relatórios ou de provas definitivas, traduzida na afirmação presidencial – em tom estranhamente triunfalista – de que os investigadores estão com dificuldades para comprovar as denúncias.

Em outras palavras, quanto mais ‘nós sabemos’ da existência da corrupção, menor é a incidência desse suposto saber sobre a vida real, já que as informações e as palavras parecem girar tautologicamente ao redor de si mesmas, sem que daí advenha qualquer grande mudança no real-histórico da política nacional. A cassação de uns quantos deputados deixa intacta a verdade da corrupção, porque esta se coloca além de toda retórica. Como diz o romancista francês Michel Houellebeq, ‘é extremamente raro que um fato verdadeiro seja diretamente explorável’ (Folha de S. Paulo, caderno ‘Mais!’, 2/10/2005), já que ‘só apreciamos o nada’.

Revitalização do discurso

O resultado é uma profusão de enunciados vazios, na medida em que têm função puramente retórica, publicitária. Assim, quando o ministro da Justiça diz que ‘caixa-dois é coisa de bandido’ está tão desvinculado da realidade quanto a formulação comercial do ‘nós sabemos’, uma vez que nada de institucionalmente concreto acompanha a frase. O sentido de um discurso inclui sempre a orientação real-histórica dos enunciados, sem a qual a linguagem é forçada a ‘apreciar o nada’ ou até mesmo negar o óbvio, como faz o governo ao confundir a realidade da corrupção com a retórica do denuncismo.

Submersos em palavras e fórmulas vazias, os parlamentares continuam tentando fazer algum sentido, encontrar alguma seriedade no que fazem. É uma luta aparentemente inglória. Foi assim que os membros da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovaram na quarta-feira (5/10) dois projetos de lei que instituem dias distintos no Brasil para comemorar uma milenar prática indiana: 18 de fevereiro, Dia Nacional do Yôga; 22 de setembro, Dia Nacional da Ioga. Ora, qualquer beócio sabe que yôga e ioga são formas diversas de pronunciar a mesma palavra. O desconhecimento de tal banalidade e, mais, o banal ocupando o tempo devido à gravidade da crise política são índices de uma preocupante inanição institucional. Estamos começando a nos dar conta, na verdade ‘nós sabemos’ que a corrupção vai além da dimensão política e econômica e acaba corroendo o sentido do que se diz e se faz.

O desafio presente para um jornalismo socialmente responsável é guardar as devidas distâncias do imaginário publicitário-eleitoreiro e promover a revitalização do discurso público por meio de uma colagem estrita com o fato social.

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Jornalista, escritor, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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