Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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FEITOS & DESFEITAS >

A criminalização de um direito

Por Francisco Djacyr Silva de Souza em 30/05/2011 na edição 644

As greves pelo cumprimento da Lei do Piso Salarial Nacional tem sido comuns em todo Brasil, mas os governantes não querem pagar, o que realmente é uma desmoralização tanto para o governo federal, que sancionou a lei, quanto para o Supremo Tribunal Federal, que declarou a lei constitucional. O grande problema é que há pouca discussão a respeito do assunto e poucas ações no sentido de fazer com que a lei seja cumprida e valorizada na sua essência e na prática. A verdade é que ninguém quer nada com a educação e tudo que se diz sobre este problema é esquecido pela imprensa e pela a sociedade.

Em Fortaleza, como em quase todas as cidades do país, os professores deflagraram uma greve pelo cumprimento da Lei e a prefeitura finge que nada está acontecendo, não cumprindo, não negociando e não respeitando os professores, e colocando seus fiéis escudeiros vereadores da Câmara Municipal a criminalizarem um direito, forjando medo dos professores, como se estes fosse marginais e pessoas violentas, o que não é verdade e pode ser provado no movimento até agora pacífico e sem nenhum tipo de ação violenta.

Por outro lado, a grande imprensa procura de todos os modos desenvolver um processo de geração de manchetes que procuram denegrir a imagem dos professores e colocar neles a culpa pelo fracasso do sistema de ensino, o que na verdade não existe, pois a gestão da educação é completa de erros tanto na ação quanto na prática governamental. A situação da educação só será resolvida se nosso povo tomar nas mãos a luta pela qualidade, mas nossa imprensa continua a jogar contra, não dando oportunidade para que os manifestantes tenham direito de dizer o que pensam e mostrem a real situação do processo educacional da cidade, que certamente é de quase todos os municípios de nosso país.

Sem valorização e sem respeito

O jornal O Povo, de grande circulação em nossa cidade, noticia a greve de forma pontual, mas nunca procura ouvir as duas partes, mostrando que os professores são inábeis, não sabem negociar ou são intempestivos. Um articulista do jornal chamou a ocupação da Câmara Municipal pelos grevistas de “espetáculo degradante”, como se luta fosse a degradação dos seres humanos em seu sagrado direito de reivindicação. No mesmo artigo, o nobre jornalista disse que a greve não dava em nada e que os professores estavam dando maus exemplos aos seus alunos. Acho que se houvessem jornais, os grandes revolucionários estariam fadados ao esquecimento, se tivéssemos imprensa tão parcial como esta.

No outro jornal da cidade (Diário do Nordeste), um jornalista procura deliberadamente colocar a culpa do mau ensino na greve, mas sabemos que com greve ou sem greve o ensino público em Fortaleza é sinônimo de fracasso, pois não há interesse com a escola de trabalhadores e não há melhoria da autoestima de professores e alunos, que são vítimas de um processo de falta de reconhecimento e respeito aos cidadãos das classes menos abastadas, onde estão presentes os professores. A questão profunda da educação é sequer analisada e parece-nos que há um jogo de interesses no processo de análise do problema, que não procura verificar as condições precárias da educação – que não é feita por prédios, merenda escolar ou distribuição de fardamentos, e sim, por pessoas que devem ser formadas competentemente, ser bem pagas e valorizadas. Em Fortaleza, o serviço de saúde municipal tem vários casos de licença por depressão, alcoolismo, doenças de voz e psíquicas e os professores estão desanimados, sim, por uma profissão desgastante, sem valorização e sem respeito – até mesmo por parte de pessoas que só escrevem no jornal pelo fato de ter tido na vida algum professor que talvez eles nem lembrem.

Imprensa mais aberta

Em Fortaleza, os professores só bebem água e café se fizerem cota, há computadores mas não há uso porque muitos estão com defeito e a energia não comporta as máquinas, além dos programas serem incompatíveis com a realidade de todos os locais, o que não dá condições para a continuidade dos trabalhos em outros locais. Há escolas em que o banheiro dos homens só tem um assento sanitário, mas isso não é verificado pelos nobres jornalistas embora seja denunciado pelos professores. Além do mais, os casos de violência são abafados para que ninguém saiba que há violência. Em escolas onde há casos de violência declarada e notória, os professores não têm direito a gratificação como área de risco. Os professores da cidade, mesmo com direito a licença-prêmio, não têm seus requerimentos reconhecidos e respeitados. Claro que os nobres jornalistas que criminalizam os movimentos populares e estão a serviço da prefeitura – que tem hoje nossa prefeita como articulista de jornal (O Povo) – não vão mostrar a realidade e dirão que tudo está maravilhoso.

O fenômeno televisivo da professora Amanda Gurgel mostrou que o desrespeito aos professores só muda de endereço em nosso país, mas infelizmente em breve o esquecimento tomará conta deste fato e a educação continuará à bancarrota. Que pena que seja assim. Só lembrando: onde estão as universidades com seus cursos de mestrado e doutorado que não pesquisam o caos na educação?

Vejam reportagens que criminalizam nosso direito – aqui, aquie aqui.

Como podemos notar, há uma ação, não sei se deliberada ou por pura compreensão equivocada, do que é lutar pelos direitos que acaba denegrindo e desvalorizando a luta dos educadores. O que será que Amanda Gurgel estará fazendo agora, já que os holofotes da imprensa não mais a colocam em destaque? Só sei uma coisa: esta jovem professora tem dado uma bela contribuição para mostrar que a educação no Brasil é objeto de luxo e que nossos governantes e políticos atolados na corrupção e na troca de favores não compreenderam a importância da construção de educação de qualidade para a mudança social do país e nossa imprensa deveria ser mais aberta aos dilemas de educadores e dos que buscam a educação… Será pedir muito?

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