Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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FEITOS & DESFEITAS >

A crônica de uma emissora corajosa

Por Veran Matic em 17/10/2006 na edição 335

Quando fundei a Rádio B92 com meus sócios, em 1989, na Sérvia, eu tinha 27 anos. Antes disso havia trabalhado em revistas para jovens e estudantes, e em programas de rádio que faziam oposição ao sistema político e social comunista. Insisti, durante algum tempo, que minha idade deveria ser o limite máximo para todos os jornalistas e outros integrantes da equipe, porque era uma garantia de que não tinham se formado nas publicações ou nas faculdades de jornalismo controladas pelo governo comunista de Slobodan Milosevic.

Montamos, assim, a redação mais jovem do país com uma equipe extremamente homogênea que se manteve coesa até nos momentos mais difíceis – principalmente quando fomos proibidos por quatro vezes de ir para o ar; em duas delas nos foi tirado tudo que tínhamos, até as nossas instalações e equipamentos.

Desde o início, fui o editor-responsável pela programação e pelas ações relacionadas com os programas. Percebi imediatamente que não podíamos ser apenas uma transmissora de rádio inserida no ambiente totalitário da época. Nossa equipe da rádio era formada por diversos representantes de grupos ativistas de direitos humanos, ambientais, alternativos, grupos de mulheres, e tínhamos como base a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU.

Nos transformamos numa espécie de Rádio do Movimento que não apenas informava, mas criava eventos para informar, e ficamos mais fortes e poderosos do que se fossemos uma mera transmissora. Usamos todas as plataformas possíveis para disseminar nossas idéias. Quando uma revista literária para jovens foi proibida, por exemplo, empregamos toda a equipe, incluindo os colaboradores que eram os escritores mais prolíficos e criativos do país para denunciar isso.

‘Anéis’ protetores

Como o rock era marginalizado pela música kitsch e folclórica favorável ao governo, a B92 lançou o CD Rádio Utopia. Ele foi produzido em Londres e todas as cópias foram trazidas ilegalmente para nosso país. Como em qualquer outra estação de rádio, 70% da nossa programação era composta de música e fazíamos todo o possível para usá-la de modo a nos ajudar a informar e educar os ouvintes – e também para incentivá-los a se rebelarem contra o governo autoritário.

Quando os noticiários da Rádio B92 foram proibidos, em 9 de março de 1991, estávamos enviando nossas mensagens para os ouvintes através das letras progressistas das canções que tocávamos. Os policiais que entraram em nosso estúdio falavam pouco inglês e por isso não entendiam muita coisa. Então, não prestavam muita atenção à música e ordenaram que não transmitíssemos qualquer notícia.

Considerando que todas as instituições culturais já tinham sido usurpadas pelo governo, nós encontramos e reformamos um edifício abandonado que havia abrigado o Centro Cultural Judeu, antes de Segunda Guerra Mundial. Com o aval da comunidade judia de Belgrado, criamos um centro cultural alternativo chamado Cinema Rex. Na ocasião, este era um dos raros locais onde artistas jovens da Sérvia e de todas as antigas repúblicas iugoslavas podiam se apresentar ou exibir seus trabalhos. O Cinema Rex também era um local importante para debates políticos, apresentações, promoções e mesas-redondas.

Como não podíamos obter a licença para ter uma estação de televisão (também não tínhamos para a estação de rádio), a B92 montou sua emissora de TV com a produção de documentários e filmes vencedores de diversos prêmios, apresentados em cinemas e distribuídos em fitas de vídeo. Desta forma, ampliamos a nossa influência e criamos uma equipe que mais tarde lançou a TV B92 clandestina, apesar de todas as dificuldades, mas como o objetivo definido de ajudar na derrubada do governo de Milosevic.

Na verdade, estávamos construindo ‘anéis’ protetores para nossa estação de rádio. Estes ‘anéis’ eram grandes obstáculos para a intenção do governo em desmantelar a Rádio B92, que estava se transformando num centro cultural que nos permitia agir através de ações e campanhas culturais para neutralizar o efeito das proibições do governo em nossa emissora.

Humor contra a ditadura

Todo governo autocrático é sombrio, triste e rígido. Por isso, uma das armas mais poderosas em nossa programação da rádio era o humor e atuações criativas. Sempre que o governo reagia, acabava expondo ao público o seu caráter antidemocrático e a sua estupidez absoluta. Nós, ao contrário, conquistávamos audiência com as nossas sátiras políticas e o que costumava ficar escondido nos bastidores, de repente se tornava público e aberto.

Estávamos também envolvidos em apresentações e ações públicas sérias e humorísticas. Quando os impostos sobre alimentos para bebês aumentaram afetando não só as crianças como os jovens pais, por exemplo, convidamos esses pais a irem à frente do palácio presidencial oferecer os seus bebês ao presidente Milosevic. Tudo isso aconteceu durante os piores anos das guerras na Croácia e na Bósnia-Herzegovina. Os pais vieram com seus bebês mostrando que estavam ‘conscientes da situação’, mas se recusaram a ir até o presidente. Mesmo assim, essa ação recebeu uma grande divulgação na mídia. O resultado foi a redução efetiva dos impostos e a prova de que este era um dos modos mais eficientes para combater o governo.

Também reunimos as melhores bandas sérvias de rock para gravar um hino rock antiguerra. Quando o concerto foi proibido, colocamos uma banda de rock tocando nosso hino repetidamente em cima de um caminhão que circulou durante horas pelo centro de Belgrado, antes da polícia nos perseguir pelas ruas.

Quando as primeiras barricadas foram erguidas em Sarajevo, na vizinha Bósnia-Herzegovina, no começo da guerra, a Rádio B92 lançou a campanha ‘Primeiras barricadas de Belgrado contra barricadas’. Depois que a comunidade internacional impôs sanções e isolamento à Sérvia, ameaçando aumentar o empobrecimento do país, a B92 organizou uma reunião de ‘Sérvios gordos’ para desafiar o impacto das sanções internacionais.

Distribuição por satélite

A Rádio B92 foi proibida de ir ao ar diversas vezes. Na primeira, em 1991, inventamos um conceito que nos permitiria fazer a nossa voz ser ouvida, não importando o que o governo tentasse fazer para impedir. Propusemos uma estratégia e planos de contingência para este propósito. O governo só poderia nos silenciar se nos matasse. Em qualquer outra situação, responderíamos através de modos alternativos para atingir nossa audiência ou por atividades clandestinas.

Quando fomos proibidos pela segunda vez, em 1996, a B92 já tinha se transformado no primeiro serviço provedor de internet (ISP, na sigla em inglês) do país e, assim, usamos a rede para superar a proibição. Conseguimos os transmissores da BBC, da Rádio Europa Livre e da Voz da América. Nosso sinal de rádio foi transmitido via internet e esses transmissores de ondas curtas levavam nossos programas para todo o país. Nossa área de cobertura acabou sendo maior do que antes da proibição, por mais insensato que possa parecer.

O governo, provavelmente, não pôde oferecer uma explicação mais absurda ao público para a ausência da Rádio B92 do que a que ofereceu. Supostamente, esta não era uma proibição, mas água de chuva que penetrou nos cabos de transmissão de FM. Até hoje, ‘água em cabos’ é uma expressão, que na Sérvia, se tornou sinônimo da repressão do governo contra as mídias eletrônicas. O que o governo conseguiu foi aumentar o número de manifestantes nas ruas de Belgrado em protesto contra a proibição da B92.

Depois da proibição, decidimos ampliar a influência da B92 no país inteiro. Em seis meses, conseguimos organizar a distribuição por satélite de nossa programação para locutores de rádio locais que formaram a Associação das Mídias Eletrônicas Independentes (ANEM). Fui presidente da Associação durante os dez anos seguintes. A B92 estava enviando seu sinal para Londres, via internet, onde seria ligado ao satélite e transmitido para estações locais, que o retransmitiam. Assim, as mais de 30 emissoras de rádio que retransmitiam a programação de notícias da B92 se tornavam focos de resistência locais em todo o país.

Transmissores reconstruídos

Foi assim que criamos Rede das Redes. A Associação se tornou uma própria rede de rádio que ajudou a estabelecer redes paralelas de outras atividades da B92, como projetos, centros culturais alternativos e mesas-redondas. Por um lado, estávamos criando novas formas de mídia e moldando seus conteúdos, enquanto do outro lado estávamos montando plataformas de mídia e canais para comunicação direcionados para distribuir o conteúdo em suas diversas formas para um território muito maior.

Esta rede foi criada discretamente e evoluiu gradualmente como uma entidade que reflete as necessidades e os desejos das comunidades locais. Esta era a chave para o sucesso e para sua sobrevivência. Quando se tornou forte o bastante para ser auto-sustentável, era muito tarde para o governo fazer qualquer coisa. Qualquer tentativa por parte do governo para destruí-la somente fortaleceria a rede graças à solidariedade e força coletiva de seus integrantes.

Logo no início, criamos uma equipe de apoio jurídico que apoiou a Rádio B92 em todos os momentos. Essa equipe estava formando departamentos jurídicos em todas as cidades onde tínhamos uma estação de rádio membro da ANEM. Todo locutor de rádio local que fosse ameaçado era defendido da mesma maneira que a B92, aproveitando a vantagem da publicidade recebida no país e no exterior. Isto fortaleceu a rede e seus membros comprometidos com nossos objetivos comuns.

O governo proibiu a B92 pela terceira vez quando foi lançada a campanha de bombardeio da Otan, em 1999. Eu fui preso e esses foram, indubitavelmente, nossos momentos mais difíceis. Mas, apesar de a B92 ter ficado fora do ar durante meses, a rede se manteve viva, porque as estações a ela vinculadas assumiram o papel da matriz – a Rádio B92.

Depois de sua quarta proibição, em 2000, a B92 conseguiu continuar transmitindo sua programação de diferentes formas – por transmissores de ondas curtas, locutores de FM locais em todo o país, pela internet e via satélite – mas também montamos um poderoso círculo de transmissores em todo o país para alcançar o público localizado em áreas onde a B92 não poderia ser sintonizada antes. O governo explodia nossos transmissores, e nós os reconstruíamos garantindo que teríamos uma segurança melhor desta vez – e continuamos transmitindo até depois que o governo foi derrubado em manifestações pacíficas no dia 5 de outubro de 2000.

******

Jornalista, fundador da Rádio B92, a primeira emissora independente da Sérvia. Veio ao Brasil para participar evento ‘Antídoto – Seminário Internacional de Ações em Zonas de Conflito’, promovido pelo Itaú Cultural e o Grupo Cultural AfroReggae, em São Paulo (17 a 20/10/2006)

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