Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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A democracia está chegando?

Por José Valmir Dantas de Andrade em 31/03/2009 na edição 531

Que o Brasil sempre foi uma aristocracia, isso é indubitável. É só darmos uma olhada para a nossa história para constatarmos. Mas antes de tudo vamos ver a definição de aristocracia feita por Montesquieu em L´Espirit des Lois (O Espírito das Leis), obra em que o filósofo expõe, como pensador político, o seu horror ao despotismo e a sua simpatia pela democracia. Segundo o barão de La Bréde, na aristocracia o soberano se encontra em mãos de um número certo de pessoas. São elas que estipulam as leis e as fazem executar. O resto do povo está, em relação a elas, simplesmente como numa monarquia os súditos estão com relação ao monarca. Neste sentido, o Brasil é um exemplo de aristocracia.

É fato eloqüente que a nossa aristocracia se vangloria de ter posto fim à monarquia, e não ter sido preciso fundar uma República democrática no sentido lato do termo. Aqui, o povo, durante os dois últimos séculos, acompanhou a nossa história de uma forma passiva, vendo as nossas elites fazerem leis para punir ladrões de galinhas e inocentar ladrões de colarinho branco. ‘O governo aristocrático possui, por si mesmo, uma certa força que a democracia não possui. Os nobres formam um corpo que, por sua prerrogativa e interesse particular, reprime o povo: basta que existam leis para que, a esse respeito, sejam executadas’ (Montesquieu: 62). Hoje, quando vem à tona uma acusação contra os nossos coronéis de olhos azuis, eles se quedam perplexos e indignados.

Serviçal da aristocracia

Justamente quando o nosso Estado, que nunca foi nação, começa a ganhar nuances de República, vem à tona o que nós já sabíamos. Partidos ligados à aristocracia brasileira são flagrados com a mão na massa, recebendo dinheiro de uma grande empreiteira – a Camargo Corrêa. Isso sempre aconteceu, mas, pelo fato de as pessoas que representam os partidos aristocráticos serem os mandatários do país, elas estipulavam as leis e as executavam – e não iam executar nada contra si mesmas. Há em nosso país, uma pergunta que não quer calar: como se coibirão os nobres? Visto que os que devem mandar executar as leis contra seus colegas sentem imediatamente que agem contra eles próprios.

Estima-se que são desviados 40 bilhões de reais por ano no Brasil só com obras superfaturadas. Este montante, se empregado na educação, iria fazer com que o Brasil tivesse uma melhora sensível na educação do seu povo. Certamente não teríamos os professores ganhando um dos piores, ou talvez o pior salário do mundo. Quem deveria tornar toda essa bandalheira pública seria a mídia, mas esta é, também, aristocrática.

A nossa mídia também sempre foi muito corporativista. Quem quiser comprovar isso, é só assistir ao filme A Próxima Vitima, do diretor João Batista de Andrade. Ali naquela película transparece o quanto a grande mídia é serviçal da aristocracia, neste país que alguém disse que era nosso. Uma das raras exceções nesta lista de lacaios da aristocracia é o Observatório da Imprensa. Este tem procurado fazer com que a mídia seja mais democrática, indo na contramão do que se convencionou chamar de a ‘grande imprensa’.

O poder nas mãos de parte do povo

O que mais nos chama a atenção é que o DEM, dono da mídia e da lei, ao invés de falar de seus projetos, lança uma campanha publicitária visando a atingir a imagem do presidente Lula, ao invés de falar de suas próprias práticas. Bom, acho que eles não se sentem bem à vontade para falarem das suas práticas; afinal, governaram o país por anos e anos e suas práticas sempre foram as de superfaturar obras e promover quebradeira ao país com as bênçãos dos entes federativos e da mídia, que por sinal eram eles mesmos. No auge do flagra eles alegam motivação política na operação ‘Castelo de Areia’, deixando claro que ainda tencionam fazer ‘tudo’, e ‘tudo’ ficar em sigilo e impune.

No último governo deles, com FHC, que é do PSDB, mas que foi extremamente submisso ao DEM, e que agora anda todo virulento, promoveu o apagão e promoveu um salto gigantesco na nossa dívida pública. Penso que o ‘sociólogo’ já esqueceu o rombo que causou à nação e agora está aparecendo em público para falar de política. Para encerramos, fica um lembrete ao DEM. Quando, numa República, o povo como um todo possui o poder soberano, trata-se de uma democracia. Quando o poder soberano está nas mãos de uma parte do povo, trata-se de uma aristocracia. O que vocês, do DEM, sempre defendem ardorosamente como sendo uma democracia, na verdade não passa de uma aristocracia.

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Filósofo e educador, Adustina, BA

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