Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > DANÇA DA PIZZA

A deputada que ofendeu as mulheres

Por Ligia Martins de Almeida em 03/04/2006 na edição 375

‘A mídia quis me vilipendiar, ao me mostrar como a dançarina da pizza ou a sacerdotisa da imoralidade. Vinte segundos apagaram mais de 30 anos de vida política. Posso ser gorda, não pinto os meus cabelos brancos, sou do PT. Se seguisse o padrão de beleza da propaganda, teria sido diferente. Caso eu fosse um homem, teria sido irrelevante.’ [Angela Guadagnin (PT-SP), O Estado de S.Paulo, 29/3/2006]

A mídia apenas mostrou o último (espera-se) ato feminino nas CPIs, e que vai deixar sua marca: uma deputada, integrante da comissão encarregada de zelar pelo decoro e pela ética parlamentar, dançando no plenário da Câmara Federal ao ouvir a decisão de que um colega não iria ser cassado. Fosse um homem dançando – ou mesmo uma deputada mais bonitinha – a mídia, justiça seja feita, daria o mesmo tratamento.

E, como se não bastasse a dança, vieram as explicações:

‘Que me perdoe quem encarou como deboche. Foi um ato humano, diante da situação de um amigo. Eu sou humana, agi espontaneamente com o coração. Em nenhum momento quis gozar ou tripudiar’. (O Estado de S.Paulo, 25/3/2006)

A deputada Angela Guadagnin é a mais acabada comprovação do ditado popular que afirma que o falar é de prata e o silêncio, de ouro. Cada vez que vai à tribuna ou à imprensa para se explicar com relação à dança no plenário da Câmara, mais complica a sua imagem. Tivesse ficado quieta, depois de dizer que agiu espontaneamente, voltaria a ser tratada como mais um parlamentar petista. E o episódio acabaria apenas enriquecendo o folclore do Congresso Nacional, em vez de merecer – como está acontecendo – análises sobre o comportamento emocional e descontrolado das mulheres.

A coisa complicou quando ela envolveu a mídia, acusando-a de ser injusta e preconceituosa. A mídia pode até merecer esses adjetivos. Mas não nesse caso. A deputada errou, ficou com medo de perder o cargo (mas, por razões técnicas, continua integrando a Comissão de Ética) e se defendeu acusando os outros.

Assuntos ignorados

Se a mídia quisesse – como diz a deputada – destruir uma carreira política de 30 anos, poderia ter mostrado não apenas que ela dançou, mas que, com essa atitude, foi contra o regulamento do Conselho de Ética, que define no seu artigo 5º a tão falada quebra de decoro parlamentar: ‘perturbar a ordem das sessões da Câmara ou das reuniões da comissão (artigo 5º, parágrafo 1) e ‘praticar atos que infrinjam as regras de boa conduta nas dependências da Casa’ (artigo 5º, parágrafo 2).

Talvez a queixa maior da deputada seja porque virou notícia no momento menos oportuno. A mídia não deu a menor importância – essa deve ser a maior queixa da deputada – quando ela propôs transformar o dia 31 de outubro no Dia do Saci, quando instituiu o Dia do Fisioterapeuta ou quando propôs a proibição do uso de animais em espetáculos circenses. A mídia também não tomou conhecimento de seu projeto proibindo a distribuição e recomendação, pelo SUS, de métodos anticoncepcionais emergenciais, como a pílula do dia seguinte.

De todos os seus projetos, esse referente à pílula do dia seguinte deveria ter merecido maior atenção da mídia, pois é assunto que interessa às mulheres, principalmente às mulheres pobres que dependem do SUS, e para quem a pílula do dia seguinte pode representar a diferença entre ter mais um filho indesejado, com todas as suas consequências tanto para a mãe como para a criança.

Assuntos femininos que são sistematicamente ignorados pela mídia. Mas nesse caso a deputada não reclamou, não se sentiu discriminada, nem lembrou que está fora dos padrões de beleza da publicidade.

Mero registro

Ignorada pela mídia durante o governo Fernando Henrique, quando se especializou em tentar levar adiante as investigações sobre o Sivam e qualquer outro assunto que o PT considerasse corrupção no PSDB, a deputada Angela teve como tarefa, durante as CPIs, tentar adiar o julgamento dos colegas. Apesar dos adiamentos, teve que aceitar a cassação (ou a renúncia) de alguns deles. Talvez por isso tenha comemorado de forma tão intensa – e pouco decorosa – sua vitória da semana passada.

Se, do ponto de vista parlamentar, o comportamento da deputada é indecoroso, sua atitude foi indecente com relação às mulheres. E disso a mídia não falou. Usar a sua condição de mulher como desculpa é até compreensível quando se trata de pessoas como a esposa de Marcos Valério, que, com suas lágrimas e aspecto frágil, conseguiu interromper o depoimento no qual sua defesa era ‘sou do lar’. Mas uma deputada do PT, que se orgulha dos 30 anos de vida política, não poderia usar como defesa o fato de não seguir o modelo de beleza da propaganda.

Depois de tentar se desculpar usando a emotividade como argumento, apelar para a condição de mulher – especialmente da mulher que não é jovem, não é magra e não é bonita – é ofender as mulheres bonitas e que prezam a ética. Ela feriu o decoro parlamentar, ofendeu os parlamentares e, como se não bastasse, tentou levar todas as mulheres junto com ela.

E a mídia, condescendente, limitou-se a registrar a dança em fotos e imagens. Não se defendeu nem reagiu como poderia, expondo detalhes da atividade política dessa senhora que mostra, em sua longa carreira, ter conseguido vencer os obstáculos impostos por sua condição feminina.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 20/03/2007 Osny Freitas de Oliveira

    Gostaria, se possível, para embasar um trabalho da Faculdade, todos os dados e informações possíveis sobre o assunto acima.

    Obrigado,

    Osny

  2. Comentou em 10/04/2006 Roberto Beltrão

    AINDA ESTAMOS NUMA DEMOCRACIA?
    Foi apenas um gesto espontâneo e sò teve todo esse impacto na mídia porque ela é do PT e a imprensa marcou o pt para bater sem piedade, mesmo sobre um fato tão sem importância. será que ainda estamos numa democracia? quando li as reportagens sobre esse fato, de repente pensei, estamos voltando ao regime militar ou é só implicância da mídia com alguém do PT?

  3. Comentou em 06/04/2006 Paulo de Tarso Neves Junior

    Do blog do Josias:
    ‘A cena do corpo roliço levantando-se do assento, balançando-se entre as poltronas, rumo à coreografia final no corredor do plenário chocou a opinião pública.

    Difícil saber agora o que é mais repugnante, se a “alegria” do “gesto espontâneo” ou a tristeza do pedido de desculpas urdido em premeditada compunção. Se o eleitor tiver amor próprio, a companheira Guadagnin deve ser cassada nas urnas. Mas não há de ser nada. Com um pequeno regime, a virtual ex-deputada poderá candidatar-se ao posto de rainha de escola de samba.’

    Comentário do blog do Josias:

    [de olho no lance] [Brasilia, DF, Brazil]
    O comportamento inaceitável da deputada pistoleira, gorda e corrupta mostra bem o seu nível rasteiro de caráter. Ela deu uma bofetada na cara do eleitor e uma banana para a cidadania. Foi o mesmo que erguer o dedo do meio para o povo, que não deve aceitar esse ‘pedido de desculpas’ de jeito nenhum !!!! CAI FORA DANÇARINA, QUEM VAI DANÇAR É VC!

    Do Blog do Tas:

    A deputada Ângela ‘Redonda Como uma Pizza’ Guadagnin (PT-SP) devia sair do Conselho de Ética e passar a ouvir conselhos de dieta.

    Disse que é contra a cassação de todos os acusados petistas. Acha que alguns deviam receber penas alternativas. Qual seria a pena alternativa para o professor Luizinho? Escrever cem vezes na lousa ‘eu não sacarei mais 20 mil reais do valerioduto’? E a pena do Dirceu? Passar um mês em Cuba ouvindo os dircusos do Fidel? E João Paulo, pagar a conta de TV à cabo de toda a população de Santo André?

    Ela também foi contra a cassação do Sandro Mabel. Lutou tanto, encheu tanto o saco com pedido de vistas nos processos, que conseguiu absolvê-lo. Mas aí o motivo é óbvio. Mabel é dono de uma fábrica de biscoitos.

    Rebola, Brasil!

    Comentário do blog do Tas

    [Roberto Sampaio] [São Paulo]
    Só porque a natureza foi assim tão cruel com ela, vem agora a anta da Agela, pra cima de nós, querer se vingar? Isso não é mulher, é um sapo com conjuntivite! (como diria a Nazareno, personagem do Chico Anysio que tinha uma mulher dessas em casa). Entre ela e o biscoito, sou mil vezes o biscoito, que tem menos gordura e menos produtos tóxicos.

    Esses foram apenas dois exemplos que deveriam ofender a autora dos artigos. Eu poderia dar mais exemplos do lixo que apareceu na imprensa e na Internet sobre essa dança sempre ligado ao fato da deputada ser gorda. Quando jornalistas usam esse adjetivo para desqualificar uma pessoa é sinal que chegamos ao fundo do poço.

    Se eu fosse mulher eu me preocuparia em combater outro tipo de imoralidade muito mais séria que está entranhada na sociedade, tanto nos homens quanto nas mulheres: o preconceito contra as pessoas que não seguem o padrão imposto pela sociedade do espetáculo e que atinge invariavelmente as mulheres.

    Pra variar, estamos sempre ‘indignados’ pelos motivos errados.

  4. Comentou em 06/04/2006 Maria Izabel Ladeira Silva

    O fato da deputada petista ter ficado toda ‘chica chica boom chic’ no plenário da Câmara não me ofende, nem de longe. O que me ofende é o pedantismo e a arrogância da senhora quando se coloca como porta- voz ‘das mulheres’, neste seu artigo carregado de ódio e veneno. Ou quando cita o artigo 5º do Regimento da Câmara, como se esta norma fosse aplicada com isenção e imparcialidade.
    Fale por si mesma,sra. jornalista, diga o que te ofende, e não o que ofende ‘as mulheres’. Não envolva o universo feminino neste seu panfleto pois ninguém te passou procuração para isso.
    O que ofende mesmo a minha inteligencia é a dimensão que este fato alcançou, como se fosse um grande atentado ao ‘pudor’ e à ética. Se um dia, qualquer deputada,de qualquer partido, resolver ir ao plenário vestida de Carmen Miranda, com a baiana e todos os balangandans,para comemorar suas alegrias, tem todo o meu apoio, minha estima e admiração. Nestes tempos tão sisudos, de caça predatória ao Partido dos Trabalhadores, tudo pode virar ofensa pública. Deus me livre!

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