Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > ESCOLA EM DEBATE

A educação vista pelos alunos

Por Francisco Djacyr Silva de Souza em 15/03/2011 na edição 633

Na última edição do Observatório da Imprensa, o professor Gabriel Perissé fez uma oportuna reflexão sobre o que se pensa sobre educação no Brasil, onde várias análises foram apresentadas e discutidas, o que faz com entendamos que há, sim, a necessidade urgente de debater a educação nacional e que a mídia tem interesse em discutir e analisar criticamente a situação em que se encontra.

Na linha de análise proposta por Perissé, vemos que o quadro de desmotivação de educadores e o pouco interesse da sociedade pela educação faz ser urgente e necessária uma ação nacional em todos os sentidos em prol da educação de qualidade. No cerne da questão, entra em cena a comunicação, que poderia ser mais ativa em termos de mostrar todas as faces da educação e promover urgentemente oportunidades de colocar na nossa sociedade o debate constante sobre o processo educativo. No entanto, ainda vemos que a preferência de nossa mídia pelo eros e tanathos desvia o sentido da comunicação e acaba emburrecendo nosso povo.

No momento atual, há muitas discussões sobre o processo educacional brasileiro onde propostas são feitas, reflexões são apresentadas e pouco se faz na essência para melhorar a situação em que se apresenta nosso processo educacional. A grande pergunta do momento é a seguinte: para onde anda a educação brasileira? A resposta está na necessidade de avaliar o processo educacional não apenas com as provas que têm a ver com a alocação de recursos, mas com uma discussão no meio de quem procura a escola, pois os jovens precisam ser ouvidos no sentido de saber o porquê de tantos problemas e de tantas falhas. A escola precisa ser debatida pela comunidade escolar e precisa ser reformada diante do que pensam seus usuários e os que nela trabalham.

‘A pessoa só consegue o que quer respeitando’

Em atividade da disciplina de Geografia desenvolvida na Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Professora Antonieta Cals no dia 18 de fevereiro de 2011, onde a grande discussão era a Terceira Revolução Industrial que hoje necessita de mão-de-obra qualificada e que só é possível com uma excelente educação de massa do primário ao universitário, surge o questionamento: para onde vai a educação brasileira? Em meio à discussão, foi solicitado aos alunos que escrevessem sobre esta visão futurista do processo educacional brasileiro. As principais respostas foram as seguintes:

‘Para onde vai, não se sabe ao certo, o que está estampado na cara de quem ver é que a cada dia aumenta o número de analfabetos, diminui o número de profissionais formados, aumenta a ignorância, a pobreza, o número de traficantes nas ruas e é nessa hora que perguntamos onde estão aquelas promessas de mais aprendizados nas escolas públicas. Onde está aquela promessa de um bom emprego? São meras promessas…’ (Tatiane Nogueira)

‘A educação hoje em dia não está muito valorizada por conta dos alunos ou de alguns professores. Nós, alunos, precisamos focar no ensino médio e fundamental. A gente tem que ingressar nos estudos que só assim conseguimos arranjar um emprego qualificado e bom. A educação também não é investida em nada, mas os políticos só pensam em gastar dinheiro em besteira. Alguns alunos só vão para a escola para bagunçar e fingir de aprender. A educação brasileira hoje precisa de mais autoridade e investimento’ (Monalisa Matos)

‘A educação brasileira está sendo jogada no lixo, os políticos não estão nem aí para a educação. Em vez deles investir o dinheiro na educação de crianças e jovens, eles pensam em fazer mais festas, prédios e aí eu me pergunto: onde fica a educação? Fica em último lugar. Eles deviam se conscientizar e usar todo esse dinheiro que eles usam em festa em educação’ (Aline Kellen)

‘A educação brasileira é muito desprezada, mas só em entrar em escola não quer dizer que tem educação, mas a educação vem principalmente de casa. Respeito pelos outros, ser educado é estudar, trabalhar, ser cidadão. A educação é que nem um vírus, de um passa para outro e assim vai. Se não houver educação, o nosso país nunca irá pra frente. Emprego é bom, mas tem que ter educação e respeito pelos outros. A pessoa só consegue o que quer respeitando e com educação para com o próximo’ (Emerson Silva)

‘Para onde vai a educação brasileira? Eu não sei para onde vai a educação da maioria do brasileiro. Eu acho que o governo não investe na educação e também os pais, e a educação vai embora por causa dos políticos e um pouco de culpa dos pais que não dar autoridade aos filhos. Todas as pessoas precisam ter uma educação para o Brasil ir para a frente’ (Josivaldo Lima)

‘A educação brasileira hoje não está sendo valorizada, as autoridades não fazem nada por ela, por melhorias, por mudanças. A educação está indo, sabe que nem sei pra onde… pros lugares piores que existir, não se investe na educação e olha que a educação é a base de tudo, sem ela não se constrói nada na vida. As autoridades não ligam para educação, mas tantas pessoas queriam apenas ter uma educação de qualidade e que possa ter uma profissão. Cabe as autoridades olhar mais para essas pequenas coisas que mudam um montão na vida. Queremos educação de qualidade, não essa droga de bela educação que eles tanto falam e não mudam a vida de ninguém’ (Natali Pereira)

‘A educação brasileira vai para o lixo. Eles não ligam muito para a educação. Eles gastam dinheiro com armamentos para guerras. As crianças que querem aprender não têm educação hoje em dia. A principal maneira de acabar com os crimes que ocorrem é investir na educação. Muitas crianças nascem aprendendo coisas feias e não tem alguém para ensinar e tentar ajudar e por isso a educação vai para o lixo e ninguém toma uma providência para acabar com isso’ (Francisco Alri)

A opressão provocada pela ignorância

Para efeito de análise, vemos que há nesses relatos um quê de desesperança, desmotivação e compreensão de que não há qualidade na educação e que há responsabilidades que devem ser cobradas à classe política e aos pais. Isso mostra que há necessidade de reforma das políticas públicas em educação e motivação da sociedade em exigir educação de qualidade em todos os sentidos. Desse modo, é urgente que nossos meios de comunicação procurem investir na discussão forte sobre o processo educacional, levando a discussão para todos os lares e propondo a criação de mecanismos de luta que vão desde a valorização dos educadores até a criação de novas técnicas pedagógicas que levem aos jovens autoestima e um maior envolvimento no desfilar da escola como elemento de motivação para crescimento individual e coletivo.

A discussão sobre a qualidade da educação deve ser pauta de todos os processos de comunicação e deve fazer parte de uma ação que vise melhorar o nível cultural dos cidadãos de maneira geral. É preciso que haja um desenvolvimento ativo de geração de processos de educação informal utilizando a comunicação como elemento de erradicação da pobreza cultural de nosso povo.

É oportuno sugerir que nossos meios de comunicação e publicidade tenham na educação ponto de pauta permanente, escutando pessoas, principalmente as mais afetadas pela sua falta, e promovendo de forma urgente campanhas contra a violência na escola e contra o estilo governamental que maltrata e humilha educadores de todo o país. A pergunta final é: por que nossos políticos merecem tanto e nossos professores não merecem nada? A decisão por uma educação de qualidade não deve ser só do governo, mas do povo. Se nossa mídia começar a se comprometer com o fim da opressão provocada pela ignorância, certamente a educação deixará de ser retórica de campanha e será uma prática permanente dentro do processo de exigência popular para um país e um mundo melhor e repleto de dignidade.

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Professor e vice-presidente da Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará

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