Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > IMPRENSA PARAENSE

A eleição já está na rua (e na tela)

Por Lúcio Flávio Pinto em 03/07/2007 na edição 440

Das assessorias de comunicação do governo do Estado e da prefeitura de Belém começaram a desabar, nas últimas semanas, cascatas de press releases. O governo foi o primeiro a desencadear essa ofensiva de matérias oficiais destinadas à imprensa. A prefeitura veio logo em seguida à publicação de uma nota na coluna ‘Tutti-qui’, de O Liberal. A nota parece ter funcionado como uma senha, ao elogiar as novas e surpreendentes virtudes de Duciomar Costa como marqueteiro, além de arquiteto (nenhuma linha, é claro, sobre o médico oculista de araque do passado). Seguiu-se imediatamente não só a onda de releases pela internet como a inflacionada e descabida sucessão de anúncios na imprensa, com destaque para o grupo Liberal, mas sem deixar de lado o grupo Barbalho.

Os dois movimentos indicam que já começou de fato a corrida à próxima disputa eleitoral. O ponto alto de mais essa maratona de votos será, certamente, o da capital. Nela, as duas máquinas públicas não dispõem, no momento, de nomes fortes. Apesar do seu enorme desgaste, porém, o prefeito-falso-médico é candidato à reeleição com possibilidades reais de vitória. Não pelo que fez até quase-ontem, pouco e, em regra, errado. Mas pelas evidentes obras eleitorais que está iniciando, tão diretamente eleitoreiras que precisam da colaboração e dos favores da imprensa para impressionar e render dividendos políticos.

Graças à falta de espinha dorsal editorial dos dois grupos que dominam a comunicação no Pará, os eventuais detentores das chaves dos cofres públicos passaram a acreditar que comprar a adesão de um deles (ou de ambos), à base de farta publicidade oficial, é suficiente (ou pelo menos necessário) para matar dois coelhos de uma só cajadada: transmitir sua propaganda ao público alcançado por essa mensagem (mais ampla através da televisão, o que dá grande poder ao grupo Liberal, em virtude de sua associação à Rede Globo) e incorporar a empresa jornalística ao projeto político, incrementando o efeito da aliança.

Varanda litorânea

A inanição do Estado em matéria de quadros políticos (ou de elite de um modo geral) torna eficaz essa fórmula. Projeta do zero ao 80 cidadãos que, antes desse conluio, eram eleitoralmente equivalentes a um poste, como Simão Jatene e Valéria Pires Franco, para citar os exemplos mais recentes dessa alquimia de manipulação da opinião pública. Amparadas por essa máquina de construção de imagem, montada com peças do aparato estatal, tais pessoas surgem já no topo da carreira política e seguem competindo pelos cargos mais altos menos por suas próprias virtudes do que pela falta de competidores qualificados, numa espécie de gravidade invertida (sobem, quando deviam cair). É tão medíocre o panorama das lideranças no Pará que esses ‘cases’ de propaganda conquistam amplo sucesso. Goebbels bateria palmas ao produto de uma imagem sufocando mil palavras.

A fórmula, evidentemente, está sujeita a imprevistos e acidentes. Também é possível que um produto inicialmente artificial acabe, no seu desenvolvimento, por adquirir conteúdo. A surpresa, felizmente, não foi abolida de todo: uma das razões da longevidade da democracia está na fecundidade do cotidiano dos homens. Mas a pergunta que se pode fazer em relação às perspectivas eleitorais de Belém no próximo ano é: há espaço para fenômenos surpreendentes na capital? Há pista para uma zebra trilhar? As duas máquinas e os dois grupos antitéticos de comunicação podem vir a ser atropelados por uma emergência política no cenário de uma cidade de paroxismos e de leniência?

Uma surpresa seria o desgastadíssimo alcaide recuperar sua força anterior. Poucos analistas apostam nessa hipótese, mas podem estar cometendo um erro primário ao descartá-la por completo. A prefeitura, se não substituiu as lacunas do governo do Estado e do grupo Yamada nas planilhas de propaganda do grupo Liberal, já está compensando parte do prejuízo. Pode vir a ser o candidato da ‘casa’ se continuar a fazer o seu dever viciado com a verba oficial do município.

Diga-se que a mídia estadual, muito reduzida, especialmente depois da suspensão do repasse mensal de 460 mil reais do ‘convênio’ da Funtelpa com a TV Liberal, não foi suprimida de todo. Tornou-se é mais discreta, assim como menos ostensiva se mostra ultimamente a má-vontade dos Maiorana para com os petistas do governo. Diria a meteorologia que o tempo nessa relação está estável, sujeito a chuvas e trovoadas? O cristal, que era vidro, pode ser remendado, ou espatifar-se de vez. Mas as alternativas ainda não são irremediáveis.

Enquanto põe para fora seus insuspeitados dotes de marqueteiro, inundando o chamado espaço midiático de mensagens, o prefeito deu partida a obras de fachada. Algumas são cosméticas e superficiais, mas pelo menos um delas causará profunda repercussão: o portal da Amazônia. Já em janeiro Duciomar pretende inaugurar o primeiro quilômetro do aterro que, ainda em 2008, antes da eleição, chegando a 2,4 quilômetros de extensão, abrirá para a baía do Guajará não uma janela, mas a maior de todas as varandas litorâneas da cidade. Belém, enfim, terá seu calçadão beira-rio, mesmo que mambembe, ainda que não ganhe o aval do BID, o banco interamericano.

Cidade junina

É uma obra esperta. Como encherá os olhos, induzirá o freqüentador do circo a não pensar no pão. Não será a concentração hiperinflacionada do benefício, que é o traço marcante do projeto urbanístico tucano made by Paulo Chaves Fernandes, nem será o empreendimento acanhado dos petistas. Combinando ambos os estilos, ainda que de forma parcial, terá – quem sabe – um efeito muito maior, à maneira do fogueteiro de Duciomar. E Belém talvez seja a cidade que mais dispara foguetes no mundo.

Para que sua grande obra adquira certa forma final em tempo de lhe proporcionar votos, o alcaide deixou de lado filigranas legais e técnicas. É assim que o muro tem avançado, a partir do Mangal das Garças, o limite pelo rio do desenho tucano filigranado, no rumo do campus da Universidade, pretendendo, nessa evolução, sofrer mutação até se transformar em um novo programa de macrodrenagem, com ponto de largada financeiro de 125 milhões de dólares.

Certamente, no local de chegada, os números terão crescido substancialmente, mas esse será outro momento do foguetório (e do fogueteiro). Belém, que também é uma cidade junina, que se prepare para a próxima fogueira – a simbólica e a literal.

IVC de volta

Foi surpreendentemente discreto o tão esperado anúncio, feito no domingo passado: o Diário do Pará se tornou o único jornal fiscalizado pelo IVC, a fonte de maior credibilidade no Brasil sobre a circulação da imprensa escrita. O registro foi feito numa nota de cinco linhas da coluna ‘Repórter Diário’, informando que a tiragem do jornal ‘está sendo auditada pelo instituto desde fevereiro deste ano’. O nome do IVC foi citado incorretamente pela coluna, como sendo ‘verificação de circulação’ e não de ‘verificador de circulação’, conforme foi batizado.

Como ‘comprovação de sua ampla circulação’, diz o jornal de Jader Barbalho, o Diário passou a circular com o selo do IVC. Mas essa ‘ampla circulação’ só estará atestada quando o instituto divulgar o seu primeiro relatório auditorial da empresa. Depois de vários anos de monopólio de O Liberal, que era o único do Pará e foi o primeiro da Amazônia a se filiar ao IVC, o relatório poderá documentar pela primeira vez, de forma segura, a inversão no mercado de jornal em Belém, com a queda do jornal dos Maiorana e a ascensão do Diário.

Depois que se desfiliou às pressas do IVC, exatamente na véspera de receber a auditagem do primeiro semestre de 2006, a primeira desde que o instituto constatou serem exageradamente falsas (para mais) as informações juradas do editor relativas à circulação do jornal no ano anterior, O Liberal contratou os serviços de auditoria da Ernest & Young. Mas nunca divulgou os resultados apurados, ao contrário da maciça propaganda que fazia quando contava com o IVC. Fato indicador, provavelmente, de que os resultados não autorizam – ou mesmo podem desmentir – a declaração que a folha dos Maiorana continua a apregoar: de que é o maior jornal do Norte e Nordeste do país. Isso, o IVC não deixa dúvida: não é verdade.

Não pegou

O Amazônia Jornal, o irmão mais novo de O Liberal, ao que parece, ainda não encontrou o seu caminho para a sobrevivência. Mudou de formato para parecer mais compacto e de fácil leitura. Ficou mais barato do que o concorrente Diário do Pará, custando apenas 75 centavos nos dias de semana e um real aos domingos. Abandonou sua sede própria e se acomodou na redação que era só de O Liberal, na suntuosa sede da Delta Publicidade, para ficar mais econômico. Mas o retorno desses investimentos não apareceu, ao menos em volume capaz de responder pela viabilidade do jornal.

Com um custo industrial maior, pela abundância de cores e pelo papel, a venda avulsa não conseguirá reequilibrar o orçamento se não for incrementada. A julgar pelas informações dos jornaleiros e donos de bancas, o crescimento da circulação do jornal depois das mudanças, realizadas no mês passado, não foi satisfatório e pode não estar se sustentando. Com a redução no preço de capa, não é só a empresa que fatura menos: os revendedores também passaram a ganhar abaixo de antes.

O projeto teve concepção de origem equivocada e não conseguiu corrigi-la desde então. Mas como é uma iniciativa exclusiva de Ronaldo e Romulo Maiorana Júnior, sem a participação das irmãs, excluídas do conselho editorial, ela é mantida por insistência dos seus idealizadores. Contra as evidências de que, pelo menos até agora, o Amazônia Jornal concorre mais com o irmão do que com o adversário.

Novo jornal?

O grupo Liberal e seu principal anunciante particular, o grupo Yamada, continuam rompidos, dois meses depois do desentendimento que levou os Maiorana a suspender a veiculação da propaganda da principal rede de varejo do Pará. Por causa da duração do litígio, começaram a surgir especulações em torno da intenção dos Yamada de montar seu próprio jornal diário, convencidos que estariam da impossibilidade de um novo entendimento com o grupo Liberal. Mas nenhuma informação concreta surgiu no meio dos boatos. O grande problema para uma empresa que vende para o grande público é a mídia televisiva. Nesse segmento o grupo Liberal domina por retransmitir a programação da Rede Globo, partilhando o primeiro lugar – ainda – disparado em relação às outras emissoras. Por isso os Yamada teriam tentado um entendimento direto com a Globo, esbarrando nas normas do contrato de afiliação da rede.

Como resolverão o impasse, retomando sua propaganda intensiva para o grande público sem se submeter às imposições dos Maiorana, que queriam interferir na sua programação de mídia, ainda é uma incógnita. Mas seria bom que o grupo Yamada aprofundasse o exame das alternativas e tentasse um ensaio nesse setor. O Pará sente a falta de uma opção num tabuleiro dividido entre duas corporações de comunicações agressivas, como os grupos Maiorana e Barbalho.

No passado, houve uma tentativa, apenas germinada, com Armando Carneiro, que chegou a dar uns passos tímidos para voltar a ter um jornal (sua experiência anterior fora o Jornal do Dia, que circulou entre 1961 e 1964). E outra com Jair Bernardino de Souza, que se expandia celeremente quando morreu. Depois de montar a melhor emissora de televisão de então, ele começava a implantar o seu jornal. O acidente que o vitimou interrompeu esse projeto. Mas o clima está propício a uma nova tentativa.

Crime em uníssono

Sempre disse aos meus alunos de jornalismo que, para serem bons repórteres, deviam começar cobrindo fatos policiais. Ninguém distribui press release sobre cadáver nem há assessores de imprensa num assassinato. O jornalista precisa ter capacidade de observação, poder de iniciativa, inventividade, atenção e outros atributos que combinam, com velocidade, instinto e inteligência, quando apura um crime. É do que precisará se quiser se tornar um repórter.

Continuo com a mesma convicção, mas vou ter que relativizá-la a partir de agora. Por incrível que possa parecer, o Diário do Pará e O Liberal reproduziram, nas suas edições do dia 23, um release que a polícia civil preparou sobre o fim do inquérito que apurou a morte dos irmãos Novelino. O texto saiu na íntegra. Só houve uma modificação: um ponto em seguida foi transformado em ponto parágrafo na reprodução do jornal dos Maiorana. Uma vez passada em frente a mensagem oficial, nenhuma das duas folhas se deu ao trabalho de mandar checar, ampliar o material ou dar-lhe continuidade.

Se minha memória não falha, esta é a primeira vez que a imprensa transforma em seu um texto oficial de encomenda sobre um fato policial, ainda mais com o impacto que teve o assassinato dos irmãos Ubiraci e Uraquitã Novelino. A polícia responsabilizou pelo crime o empresário Chico Ferreira, o radialista Luiz Araújo, o ex-fuzileiro naval José Marroquim e o ex-policial Sebastião Cárdias. Com as informações do inquérito, o juiz Fredison Capeline, decretou a prisão preventiva de todos os acusados. Mas eles não passarão pelo tribunal do júri, que decide sobre os crimes contra a vida, se for mantido o enquadramento da polícia nos delitos de latrocínio, ocultação de cadáver e formação de bando ou quadrilha. O crime de júri costuma ter um impacto maior do que o processamento em juízo singular.

Esse detalhe pode vir a ter relevância no encaminhamento desse assassinato, conforme a atuação dos advogados, do promotor e do juiz. Por isso, a conclusão do inquérito tem que ser bem debatida, antes do processamento da denúncia em juízo, por quem estiver interessado em prevenir a impunidade ou o esquecimento. Esse pode se tornar um caso exemplar para a opinião pública, se for até o fim, com todas as suas conseqüências. Mas parece que a imprensa do Pará se desinteressou desse desfecho.

Post-Scriptum

A matéria já estava pronta quando, no dia 25, a promotora Lúcia Rosa da Silva Bueno, discordando da conclusão do delegado Sérvulo Matos, presidente do inquérito, determinou a redistribuição do processo para uma das varas privativas do Tribunal do Júri. Entendeu que o enquadramento correto é no crime de homicídio e não no de latrocínio. Sua posição foi contestada pelo advogado da família Novelino, Antônio Neto. Para ele, os assassinos só mataram os irmãos para se apossar dos cheques. Se eles tivessem ido ao encontro de Chico Ferreira sem os cheques, não teriam sido mortos.

É verdade. Mas a eliminação dos irmãos não foi circunstancial, nem um mero detalhe. Suas mortes eram consideradas indispensáveis pelos que planejaram a trama, executadas com grande violência. Não apenas para haver a morte como para a ocultação do cadáver, num procedimento demorado, detalhado e torpe. Logo, independentemente de uma discussão técnica sobre a questão, o enquadramento no crime de homicídio parece mais compatível com a dimensão do fato do que o latrocínio.

A próxima decisão será do juiz para o qual forem distribuídos os autos: se aceitará ou não sua competência para funcionar no feito. Com definição positiva, a expectativa é de que rapidamente os denunciados sejam submetidos a julgamento.

Registre-se, por fim, que os dois jornais diários de Belém voltaram a usar um press resease policial, mas desta vez reescreveram o texto e fizeram apuração por conta própria, ainda que rápida e pálida, em contraste com a torrente de matérias publicadas durante a investigação.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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