Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > IMPRENSA & SOCIEDADE

A elite, o traficante, o bazar e a tragédia nacional

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 15/04/2008 na edição 481

É deliciosa e picante a matéria ‘De traficante para vips‘, de Ricardo Lísias, na CartaCapital nº 491. Ao contrário da Rede Globo, que deu a impressão de que todos tiveram acesso ao bazar do traficante Juan Carlos Abadia, o autor conseguiu fazer o registro fiel de uma cena típica da mediocridade brasileira.

Não fiquei nem um pouco surpreso ao saber que houve discriminação socioeconômica na venda dos produtos do megatraficante milionário. Na verdade, a matéria da CartaCapital me fez lembrar de um texto provocador que escrevi há algum tempo acerca da história de nossa elite bestial.

Peço licença ao Ricardo Lísias para transformar seu texto num capítulo desta mesma história minha à qual farei um adendo necessário. A elite brasileira não é só bestial; é estupidamente sem auto-estima. Afinal, detalhe esquecido por Lísias, Abadia vivia junto à fina flor da elite paulista. Seu modesto palácio embelezava um condomínio de altíssimo padrão.

Enquanto estava solto, o endinheirado criminoso deve ter provocado muita inveja aos seus condôminos. Isto explicaria a fúria mitológica que certamente pode ter levado alguns deles a adquirir os produtos do traficante.

Como progredir?

Karl Marx disse que as tragédias históricas às vezes se repetem como farsas. O episódio do bazar dos produtos do Abadia ilustra bem a tese do alemão. Mas como estamos no Brasil e vivemos num presente que nunca se torna passado ou num passado que vive impedindo a concretização do futuro, foi a farsa que se transformou em tragédia.

No século 16, os indígenas comiam os portugueses que lhes caíam nas mãos acreditando que adquiririam suas virtudes. Pobres indígenas! Foram vítimas de um auto-engano. No máximo, adquiriram os defeitos lusitanos (língua, religião, vestuário, repressão sexual, crença no retorno de Dom Sebastião etc.). Seus descendentes agora adquirem os produtos do traficante para se tornarem tão ricos e bem-sucedidos quanto ele.

Os fatos enunciados no texto ‘De traficante para vips’ provam que estamos diante de uma tragédia monumental. Como pode um país progredir com uma elite que se rebaixa ao ponto de comprar os produtos de um criminoso?

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Advogado, Osasco, SP

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