Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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A escola e a lavagem cerebral institucionalizada

Por Emanuelle Najjar em 18/08/2009 na edição 551

Não é de hoje que educadores dizem que para promover uma revolução a educação é o caminho. À primeira vista, pode parecer papo de político em plena campanha ou de estudantes de pedagogia, mas após uma reflexão, vê-se que é um fato. Afinal, revoluções sérias têm de ser pensadas a longo prazo.

Foi isso que aconteceu na Venezuela. O presidente-todo-poderoso Hugo Chávez resolveu estender a sua revolução para as escolas. A nova base do currículo escolar terá como base a doutrina bolivariana, inventada por Chávez. Ensino religioso está excluído. A formação dos professores será de responsabilidade exclusiva do Estado. Apenas ele poderá formar e contratar professores, é também fixa cotas para alunos escolhidos do governo.

A mesma lei prevê o fechamento de órgãos de imprensa acusados de serem prejudiciais à saúde mental da população. Aliás, medida bastante conveniente. Afinal, qual será a interpretação daquilo que causa problemas à saúde mental da população? Claro que isso não foi esclarecido, embora já saibamos do que se trata. Não é difícil imaginar aquilo que incomoda um presidente cujo governo cerceia os meios de comunicação.

Recentemente, o governo venezuelano rescindiu a concessão de 34 emissoras [32 de rádio e duas de TV] em todo o país por ‘morte do titular, vencimento da concessão, falta de renovação da permissão ou declaração de improcedência de uso’. Essa decisão ainda pode afetar as licenças de cerca de 240 emissoras de rádio e 45 canais de televisão.

‘Violações da lei de telecomunicações’

As atitudes do governo Chávez, especialmente as que dizem respeito à imprensa, causaram alarme da Unesco.

‘Estou profundamente preocupado com a diminuição do número de meios de expressão através dos quais os cidadãos podem exercer o seu direito de receber informações de várias fontes’, disse em uma declaração o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência, Cultura e Comunicação (Unesco), Kochiro Matsura.

‘O povo venezuelano tem o direito de receber informação e análise dos eventos relacionados a ele, a partir de diferentes pontos de vista’, acrescentou, após a controversa decisão de Hugo Chávez, que afeta de 32 rádios e duas televisões, ‘por alegadas violações da lei de telecomunicações no país’ (leia na íntegra).

Criança birrenta

E agora, o que parece ser um dos maiores golpes na liberdade. A doutrinação começará cedo. Não dizem que é em casa e na escola que se formam os cidadãos do futuro? Não é na infância que se formam valores, critérios, saberes, personalidade? Alguém tinha de pensar nisso. Foi o que Hugo Chávez fez. Uma revolução bem feita, bem implantada. Pensaram em tudo.

Infelizmente, a inteligência também pode ser usada para o mal. Livre arbítrio. Valor muito conhecido, mas nem sempre respeitado. Escolha própria, opinião própria. Coisas que podem ser muito perigosas no mundo de hoje. Aliás, em qualquer época e lugar onde a sede de poder seja grande. Onde os governos têm rostos, nuances e diretrizes tão claras que até mesmo um alienado seria capaz de notar.

O domínio sobre todos tem que ser completo. A lavagem cerebral deve ser geral. E, no caso venezuelano, tão claro que beira o ridículo, a piada. E o problema da piada é não ser levada a sério o quanto ela merece. Pelo menos é desse modo que o governo brasileiro parece encarar um governo tão claramente antidemocrático.

Imaginem o futuro. Ele será aquilo que se permite. Brasil: continue encarando Chávez como uma criança birrenta e protegendo seus atos. Depois não reclame do que está por vir.

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Jornalista, criadora do blog Limão em Limonada, São José do Barreiro, SP

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