Terça-feira, 25 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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FEITOS & DESFEITAS >

A espiral do silêncio

Por Tiago Eloy Zaidan em 16/06/2015 na edição 855

Segundo Cândido Teobaldo de Souza Andrade, em Curso de Relações Públicas: relações com os diferentes públicos, embora o público, em sua formação, admita a controvérsia, a oportunidade de discussão e a abundância de informações, dentre outras características, abriga também a seguinte faceta: a “procura de uma atitude comum”. E aqui, começamos a entrar em uma das premissas do corpo teórico apresentado pela cientista política alemã Elisabeth Noelle Neumann a partir dos anos 1970, e que viria a ser chamado de Espiral do Silêncio.

Se um sujeito percebe que a sua atitude diante de uma controvérsia social é minoritária, tende a omitir sua opinião e, nos casos mais extremos, até mesmo a mudar de atitude, como forma de facilitar a sua integração à comunidade ou grupo. Em última instância, fala mais alto a relutância do desgaste que a defesa de uma opinião minoritária acarretará, e o consequente medo de um potencial isolamento social.

Por outro lado, ao perceber-se em maioria, um sujeito que compartilha da opinião dominante tende a sentir-se mais disposto a expressá-la, ampliando o burburinho das atitudes percebidas como majoritárias. A consequência do fenômeno é o reforço das opiniões percebidas como majoritárias, ao passo em que as alternativas tornam-se cada vez mais distantes, fadadas ao limbo dos temores do insulamento social.

Posts inflamados

A espiral do silêncio também é passível de ser verificado em comunidades ou grupos específicos, como no interior de uma classe profissional, por exemplo. Um caso recente envolveu a comunidade médica no Brasil, por ocasião do advento do Mais Médicos. O programa, regulado pela Lei Federal 12.871, foi criado sob a justificativa de suprir a demanda emergencial de profissionais de medicina em regiões onde estes são escassos. Dentro do país a distribuição dos médicos não é uniforme. Segundo levantamento divulgado pelo portal UOL (Entenda a vinda de médicos estrangeiros para o Brasil, de 26 de agosto de 2013), no Distrito Federal são 3,46 médicos para cada mil habitantes, enquanto no Maranhão, por exemplo, a marca é de 0,58. O programa oferece R$ 10 mil aos profissionais interessados em atuar na rede pública, com prioridade para: 1º médicos formados em instituições brasileiras, inclusive aposentados; 2ª médicos brasileiros formados em instituições estrangeiras; e, por último, 3º médicos estrangeiros com habilitação para o exercício de medicina no exterior (Lei 12.871, Art. 13, §1º).

Parte perceptível da classe médica manifestou-se radicalmente contra o programa, com destaque para o posicionamento de profissionais experientes, dos setores públicos e privados, líderes de opinião no seio da classe, além de representantes do conselho profissional. Algumas das manifestações ganharam grande repercussão, como aquela que inspirou a matéria Cubanos são chamados de ‘escravos’ por médicos brasileiros no CE (Folha de S. Paulo, em 26 de agosto de 2013).

Nesse contexto, manifestar-se a favor do programa seria colocar-se ao lado da opinião claramente percebida como minoritária dentro da comunidade profissional. Isso, a despeito do Mais Médicos, eventualmente, apresentar-se como uma oportunidade de trabalho para o jovem médico. Luís Mauro Sá Martino, na obra Teoria da Comunicação: ideias, conceitos e métodos, frisa que “evidentemente há sempre um apoio residual à opinião minoritária. Essa sobrevivência, no entanto, pode significar um imenso peso para quem não compartilha a opinião geral”.

O clímax da controvérsia em torno do programa foi noticiado no site Último Segundo, do portal IG (Comunidade médica prega holocausto no Nordeste em campanha contra Dilma na Web, de 9 de outubro de 2014). Em uma comunidade no Facebook, usuários declarados médicos defendiam, em meio a xingamentos a nordestinos, castrações químicas e um holocausto no Nordeste – reduto eleitoral da candidata a reeleição Dilma Rouseff. Na comunidade, a ameaça de isolamento prevista pela espiral do silêncio tornou-se explícita “(…) com ameaças de expulsão do grupo caso o usuário se manifeste contra os ideais da página”, revelou a jornalista Carolina Garcia.

Contudo, neste caso, aparentemente, houve resistência por parte da atitude minoritária, pois – ainda segundo a matéria, as manifestações foram denunciadas pelo tumblr ‘Médicos Indelicados’, o qual reunia os posts mais inflamados e os comentava com ironia. Felizmente houve dissonância. A multiplicidade de atitudes dos públicos frente às controvérsias é inerente a uma sociedade democrática plena.

***

Tiago Eloy Zaidan é mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco e professor universitário.

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