Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > GLAUCO (1957-2010)

A estupidez e o mau gosto

Por Leticia Nunes em 12/03/2010 na edição 580

O assassinato do cartunista Glauco Villas-Boas e de seu filho Raoni choca pela brutalidade e pela estupidez. No momento em que escrevo, as circunstâncias do crime ainda não são claras. Enquanto alguns sites de notícias relatam uma tentativa de assalto, outros já falam em homicídio. O principal suspeito, identificado na manhã de sexta-feira (12/3), seria conhecido da família, estaria drogado e teria discutido com o cartunista, que tentava demovê-lo da ideia de suicídio.


Nada disso importa muito no momento. O mal foi feito, não há volta. Agora é esperar pela aplicação da justiça e consolar a família.


O que não merece ficar sem registro é a matéria do Globo Online sobre o crime, publicada na mesma sexta (12). Nada errado com o artigo, de autoria de Cleide Carvalho e Anderson Hartmann. O problema foi a tirinha que usaram para ilustrar a reportagem. Nela, os dois personagem apontam armas um para o outro. Não sei se a escolha do desenho foi pura desatenção ou… não consigo pensar em um ‘ou’. É o cúmulo do mau gosto um veículo jornalístico ilustrar uma matéria sobre o brutal assassinato de um cartunista e de seu filho, a tiros, com uma tirinha sobre armas.


Pouco depois das 14h de sexta voltei à página do Globo Online. A tirinha havia sumido. No lugar, foi colocada uma foto de Glauco.










O paranaense Glauco Villas-Boas nasceu em 1957. Seus trabalhos começaram a ser publicados na Folha de S.Paulo na década de 1980. Seus excêntricos personagens, como Geraldão, Dona Marta e o Casal Neuras, ficaram famosos ao longo dos anos. O cartunista também foi redator do humorístico TV Pirata, na Rede Globo, e tocava em bandas de rock.


Em Tempo [acrescentado às 16h01] — Entre os seguidores do Observatório no twitter corre que essa foi a última tirinha publicada de Glauco. ‘Mas, mas… foi a última tirinha dele publicada. Ironia do destino, não do Globo.’ (@evaldonline)


***


Colegas do cartunista lamentam a morte de Glauco


Reproduzido do portal Estadao.com, do Estado de S.Paulo, 12/3/2010


A morte de Glauco Villas-Boas, cartunista desde a década de 70, marca o fim de uma carreira acompanhada por muitos, que durante décadas influenciou cartunistas, chargistas e ilustradores de todo o País.


O diretor de redação da Folha de S. Paulo, Otavio Frias Filho, lamentou na manhã desta sexta-feira, 12, a morte do cartunista:


‘Glauco foi um grande artista e um ser humano admirável. Sua obra ficará na memória das gerações que amaram seus desenhos e no traço dos muitos artistas jovens que sua imaginação influenciou. Era uma pessoa que tinha a doçura de uma criança e a serenidade de um sábio. Sua morte e a de seu filho Raoni são motivo de profunda tristeza, especialmente na Folha, casa profissional do cartunista há mais de três décadas’.


Descrito como irreverente e dono de um humor refinado e inabalável, Glauco criou personagens emblemáticos como ‘Geraldão’, um solteirão de 30 anos que ainda mora com a mãe, ‘Netão’, criado especialmente para a Internet, ‘Ficadinha’, uma adolescente dos dias de hoje, adepta das ‘ficadas’ e do sexo casual, entre tantos outros.


Os traços do desenhista são muito marcantes e autorais. O cartunista gaúcho Adão Iturrusgarai comenta que ‘é quase uma caligrafia, uma assinatura’, tamanha originalidade das ilustrações de Glauco.


Um dos trabalhos mais marcantes do cartunista foi o grupo Los Três Amigos. Criado em 1991 por Angeli, Laerte e Glauco, a tirinha narrava as aventuras de um trio de amigos no velho México. Os personagens eram caricaturas dos próprios autores e se chamavam Angel Villa, Laerton e Glauquito. Mais tarde, em 1994, surge um quarto amigo, inspirado no cartunista Adão Iturrusgarai.


Adão Iturrusgarai


O cartunista gaúcho, que mora há um ano e meio na Patagônia, comenta que não via Glauco há tempos, mas, durante o período em que esteve em São Paulo, de 1994 a 2000, relembra como eram os encontros dos ‘três amigos’. ‘O Glauco faltava muito nos nossos compromissos, mas os encontros eram muito densos. A imagem que tenho dele é muito forte’, conta.


Adão afirma que considera o trabalho uma grande inovação para o humor brasileiro; segundo ele, quando a ditadura já estava um pouco ultrapassada e os cartunistas ainda ‘estavam naquela de general’, o Glauco apareceu e quebrou essa tendência, tirando sarro.


‘Pessoalmente, ele era uma pessoa muito doce, muito engraçada’. Com personagens cubistas, de traços diferenciados, Glauco priorizou o humor e ensinou muitos outros cartunistas. Adão resume: ‘Ele foi um dos precursores do humor rock´n´roll gráfico brasileiro’

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