Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > CANAL ARTE

A exceção franco-alemã na mesmice da TV

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 19/08/2008 na edição 499

No mundo da mídia eletrônica francesa, ainda em grande parte dominada pelos canais da TV estatal (France Télévisions), a audiência dita cada vez mais as regras de programação, faz e desfaz diretores e adapta os programas à resposta do público telespectador.


É verdade que essa ditadura do ibope é menos presente nas TVs públicas (a maioria dos canais abertos) que nas privadas. A televisão privada, uma relativa novidade no panorama audiovisual francês, data de 1987, quando o canal TF1 foi privatizado e se tornou líder de audiência, liderando também a corrida a uma programação uniformizada e americanizada.


Nesse panorama audiovisual, onde as TVs públicas ainda são o refúgio de programas de qualidade, um canal de televisão pode se dar ao luxo de existir com uma programação exclusivamente voltada para a cultura, a ficção de alto nível e a informação de alta qualidade. Numa Europa cada vez menos ao abrigo das regras do audiovisual mundial, Arte é o canal franco-alemão destinado a quem quer fugir da mediocridade que domina a telinha. Um refúgio da inteligência, da cultura e do bom gosto.


‘Vocação cultural européia’


Que outro canal pode se dar ao luxo de dedicar duas horas de seu horário nobre a um documentário sobre Jeanne Moreau, que comemorou este ano 60 anos de carreira? O documentário foi seguido de Jules et Jim, de François Truffault, no qual Jeanne Moreau dá um show de charme e de talento. Que outro canal dedicou uma importante parte de sua programação ao centenário de Simone de Beauvoir? Qual outro financia e divulga documentários de alto nível sobre assuntos tão variados quanto a introdução do lacanismo na China?


Foi Arte, mais uma vez, que levou ao ar no mês de julho o documentário, Oeudipe en Chine, premiado com o Prêmio Minkowska 2008 no 30° Festival Internacional Video Psy, dado pela Association Françoise et Eugène Minkowski. Esse formidável documentário de Baudouin Koenig mostra como está sendo implantada na China a psicanálise lacaniana, através do psicanalista Huo Datong, que já foi chamado de ‘Freud chinês’ e que fala de seu trabalho como formador de outros psicanalistas na universidade de Chengdu.


Fruto da vontade política dos governos francês e alemão (François Mitterrand e Helmut Kohl) do fim da década de 80, o canal cultural Arte, cujo nome é uma sigla de ‘Associação relativa às televisões européias’, foi inaugurado em 1991 como uma televisão binacional com duas entidades: Arte France e Arte Deutschland TV GmbH. Arte é definida como um canal franco-alemão ‘de serviço público com vocação cultural européia’. Essa vocação é responsável pela associação entre o canal franco-alemão e outras sociedades de televisão européias, como a BBC inglesa, a RAI italiana ou a TVE espanhola.


Vulgaridade universal


É bem verdade que os níveis de audiência de Arte só podem ser suficientes numa televisão sustentada por governos ricos, como o francês e o alemão, dispostos a fazer uma TV de qualidade com ‘exclusão de qualquer intervenção pública, inclusive de autoridades independentes encarregadas da regulação do audiovisual do país-sede’, como prevê o artigo 1° do Tratado binacional que criou o canal.


A audiência de Arte na França gira em torno de 4%, e na Alemanha, em torno de 0,5%, o que mostra que o ibope não pode ser o mais importante para quem quer apostar no alto nível da programação.


Esses níveis raquíticos de audiência mostram também que na TV, quando se oferecem programas de alto nível, o grande público ainda prefere migrar para os canais que servem as baboseiras de programas de auditório comandados por celebridades de uma vulgaridade universal.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/08/2008 Patricia Valino

    Aí vem a pergunta: se os canais de TV são concessões públicas, devem fazer o que a maioria quer, não?
    Acho que a experiência da TV Arte pode produzir coisas interessantes, mas a longo prazo. Porque em uma primeira abordagem, este tipo de iniciativa costuma apresentar programas didáticos e chatos, que se parecem muito com aulas longas e cansativas de escola… E ninguém liga a TV para estudar, isso é fato. Nem tanto para um lado, nem tanto para outro: eu espero que um dia, produtores de conteúdo dito ‘de qualidade’ admitam que a tv de entretenimento tem como sua maior virtude o saber atrair o público. E que com essa percepção, possam desenvolver uma apresentação melhor para seu produto final, mais atrativa, sem ser imbecilizante ou limitada. É difícil? Com certeza. Impossível? Certamente que não.

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