Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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FEITOS & DESFEITAS >

A ferramenta e o ofício

Por Alberto Dines em 29/06/2009 na edição 543

Jornais e revistas continuaram fixados durante o fim de semana no papel desempenhado pela mídia digital na convocação dos protestos populares contra a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, em Teerã.


A insistência em designar a inédita mobilização contra os aiatolás como ‘jornalismo participativo’ ou ‘jornalismo-cidadão’ soa exagerada. Há nestas designações uma velada insinuação de que o jornalismo do futuro prescindirá de jornalistas e que, portanto, a extinção da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo decidida pelo Supremo Tribunal Federal em 17 de junho foi acertada e premonitória.


O povo de Teerã está sendo convocado para divulgar os protestos através dos seus celulares e laptops e, quando acontecem, registrar a violenta repressão. A imprensa está censurada, rádios e TVs são estatais, a comunicação faz-se através dos recursos disponíveis – poderiam ser volantes distribuídos manualmente, por telefone convencional ou no grito.


A busca do sentido


Uma coisa é convocar a sociedade e divulgar palavras de ordem – neste ponto a mídia digital é imbatível –, outra coisa é reportar, narrar acontecimentos, fornecer os dados complementares, dar sentido às diferentes ocorrências e, sobretudo, checar as informações. Isto só pode ser feito por profissionais da informação, devidamente motivados e treinados não apenas para atender às premências do tempo como também aos princípios éticos que regem uma atividade crucial.


Mais uma vez confunde-se a ferramenta com o ofício. Os novos recursos tecnológicos isoladamente não constituem uma nova atividade, devem servir ao velho jornalismo que além de profissão é também missão, serviço público. E missões precisam ser devidamente explicadas, sistematizadas e reguladas para evitar abusos e distorções.


Com um celular na mão é possível flagrar um episódio. Para que este episódio seja somado a outros e faça algum sentido é preciso muito mais. O diploma não garante a qualidade da informação obtida pelo jornalista, mas o ajuda a aferrar-se a ela.

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