Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1021
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FEITOS & DESFEITAS >

A fome por pimenta marrom

27/10/2009 na edição 561

Caro ombudsman da Folha de S.Paulo,

Que lixo jornalístico é esse?

Se há candidatos ao concurso de gari que ‘alegam’ ter graduação completa, mestrado ou doutorado, isto não quer dizer que tenham realmente. Mas parece que a vontade de fazer títulos estapafúrdios e sensacionalistas atropelou novamente o dever crítico da imprensa. A despeito da manchete, não há nenhuma entrevista com candidato mestre ou doutor no artigo.

Se há alunos de graduação candidatos a gari, o que se confirma nos depoimentos na matéria, então a manchete deveria ser ‘Alunos de faculdade se candidatam a gari’… o que já é bem forte… Mas a fome por pimenta marrom é muito grande por parte do colega jornalista que escreveu a infeliz manchete.

Esta manchete de nenhuma forma parece ser um incentivo à educação de pós-graduação, além de ser de um mau gosto jornalístico digno de quem deveria ter suas matérias jogadas no lixo da redação, e não colocadas na primeira página do Folha On-Line.

Luciano Medina Martins

Jornalista, Porto Alegre, RS

Comentários preconceituosos

Abaixo, transcrição da matéria cujo título é um verdadeiro lixo jornalístico.

‘Concurso para garis atrai 22 mestres e 45 doutores no Rio

da Folha de S.Paulo, no Rio

Com inscrições abertas desde o dia 7, o concurso público para a seleção de 1.400 garis para a cidade do Rio já atraiu 45 candidatos com doutorado, 22 com mestrado, 1.026 com nível superior completo e 3.180 com superior incompleto, segundo a Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana).

Para participar do concurso, basta ter concluído a quarta série do ensino fundamental. As inscrições terminam amanhã.

Somados, os candidatos que já passaram pelos bancos de universidades representam quase 4% dos 109.193 inscritos até anteontem. Os anos de estudo a mais, porém, não devem colocá-los em vantagem na disputa – a seleção é feita por meio de testes físicos, como barra, flexão abdominal e corrida.

Aqueles que forem contratados trabalharão 44 horas por semana e receberão salário de R$ 486,10 mensais, tíquete alimentação de R$ 237,90, vale-transporte e plano de saúde. A remuneração poderá ser acrescida ainda de um adicional por insalubridade.

Aluno do segundo período de história da Estácio de Sá, no Rio, Luiz Carlos da Silva, 23, disse ter ouvido muitos comentários preconceituosos dos colegas quando contou que disputaria uma vaga de gari.

‘Para quem não tem escolaridade’

`Disseram que eu era maluco, que eu ia ficar fedendo a lixo… Mas a faculdade hoje não garante emprego nem estabilidade para ninguém. Eu quero segurança´, diz ele, que, no entanto, planeja continuar estudando para no futuro trocar o trabalho de gari pelo de professor de escola pública.

`Meu sonho é dar aula, é o que eu gosto de fazer´, afirma o estudante de História.

Já Ronaldo Carlos da Silva, 42, ex-aluno do curso de letras da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), vê no concurso de gari a chance de reorganizar a vida, após um ano de desemprego. Se for bem-sucedido, pretende voltar à sala de aula, que teve de abandonar quando ainda estava no terceiro período do curso – sem trabalho fixo, tinha dificuldades até para pagar o transporte para ir à universidade. Insatisfeito com a faculdade de letras, porém, quer cursar direito. `Vou fazer um curso preparatório´, planeja.

Também desempregada, Thaiane do Prado Gomes, 21, estranhou ao ouvir que iria disputar vagas com pessoas com curso superior e até mestrado e doutorado. `Isto aqui é para quem não tem escolaridade. Para os outros tem mais oportunidade. Eu mesma, que completei o segundo grau, fiquei na dúvida se devia me inscrever.´’

******

Jornalista, Porto Alegre, RS

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