Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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FEITOS & DESFEITAS > INFORMAÇÃO & CENSURA

A grande muralha

Por Jota Alcides em 12/05/2015 na edição 850

Quando o assunto é a China, o governo brasileiro atual é só louvores e aplausos, até justificados, pelo seu notável e invejável desempenho econômico. Afinal, a China é a segunda maior economia do mundo, superada apenas pelos Estados Unidos, e a nação com maior crescimento econômico dos últimos 25 anos, média anual de 10%, conforme o Fundo Monetário Internacional. Somente neste 2015 é que está sendo esperado um PIB chinês estável menor devendo ficar nos 7% de 2014, mesmo assim acima da média mundial.

Embora aliado do regime comunista castrista de Cuba, o governo do PT tem uma clara tendência pelo modelo comunista da China onde a economia deixou, em 1978, de ser planificada, centralizada e fechada, como era na extinta União Soviética, e passou para uma economia mista, economia de mercado, com empresas privadas e fortes empresas estatais. Mas, é abertura econômica de um lado e fechadura política de outro.

Por isso, quando a questão é política na China, o governo brasileiro se esquiva alegando que não comenta assuntos internos de outro país. É a hipocrisia que usa para tentar enganar os brasileiros sobre a terrível ditadura comunista chinesa. Aproveita-se do fato de que a China fica do outro lado do mundo e nem os chineses sabem o que acontece na China porque tudo é controlado pelo Partido Comunista Chinês. E a face mais visível dessa ditadura é a violenta censura aos meios de comunicação nacionais e internacionais. Tudo o que se lê ou que se vê na China é produzido ou controlado pelo governo. O que realmente interessa ao povo não chega ao conhecimento do povo.

Tudo censurado

Relato de uma brasileira que mora na China, Cristine Marote, dá uma ideia da censura comunista chinesa: o governo barra não apenas críticas políticas, mas também temas relacionados com religião, sexo, drogas e homosexualismo; das prisões de jornalistas anuais no mundo, a maior parte acontece na China; o governo controla a internet através do chamado “escudo dourado”, um firewall, sistema de segurança que bloqueia sites considerados “perigosos”; o governo usa mais milhares de computadores e de censores para analisar o conteúdo de textos, vídeos e áudios; manifestações no Tibete por independência são bloqueadas; Facebook, YouTube e Twitter são censurados; na China não há transmissões de televisão ao vivo e as coberturas supostamente em tempo real têm um delay (atraso) de 30 segundos, tempo suficiente para os censores cortarem ou mudarem a imagem, caso algo inesperado aconteça. “Quando ligamos a rádio Jovem Pan para ouvir a transmissão das corridas de Fórmula 1 e a TV aqui em casa para assistir a corrida, percebemos isso com clareza. É até bem interessante, pois sabemos com 30 segundos de antecedência o que veremos na telinha da TV. E o mesmo acontece com os noticiários da BBC, CNN e outras emissoras a que se tem acesso na China”, diz Cristine Marote.

Quanto aos jornais, são todos controlados pelo Partido Comunista Chinês. Entre 100 maiores jornais do mundo em circulação, 15 são chineses e os cinco maiores atingem 9 milhões de exemplares. O principal, o Diário do Povo, com 3 milhões de exemplares (pouco para uma população de 1,3 bilhão de habitantes), é um jornal do governo, pelo governo e para o governo, não tem nada de povo. Desde 1949 é o órgão oficial do Partido Comunista Chinês e só divulga o que é importante para o partido manter o controle e o poder.

Durante a chamada Revolução Cultural Chinesa, ampla e profunda campanha político-ideológica promovida de 1966 a 1976, na República Popular da China, pelo então líder do Partido Comunista Chinês, Mao Tse-tung, para neutralizar a crescente oposição que lhe faziam alguns setores menos radicais do partido, o Diário do Povo era praticamente a única fonte de informação para chineses e estrangeiros na China. Atualmente, o Diário do Povo online tem também edições em inglês, russo, espanhol, japonês, árabe, alemão e coreano. Tudo censurado.

Uma muralha intransponível

Censura é ainda mais forte na internet. São 450 milhões de internautas chineses. Dá uma trabalheira danada ao governo fiscalizar e bloquear sites para essa multidão que fica navegando o tempo todo. Mas ele mantém um verdadeiro exército armado e combativo fazendo censura policialesca firme e rigorosa: mais de 600 mil computadores e cerca de 30 mil censores para analisar o conteúdo de textos, vídeos e áudios, até propagandas são censuradas. O Partido Comunista Chinês teme que o livre compartilhamento de informações gere instabilidade social, afete a segurança nacional e tumultue a vida na China, ameaçando-lhe o poder mantido ditatorialmente, na linha dura ortodoxa do marxismo-leninismo, desde 1949. Portanto, comunistas falando em democracia é hipocrisia.

Daí, o símbolo milienar da China, a Grande Muralha, com seus mais de oito mil quilômetros, maior estrutura arquitetônica de defesa do mundo, construída a partir de 220 a.C, simboliza também a enorme barreira que é o Partido Comunista Chinês para a liberdade de expressão, para os direitos humanos e para a democracia na China. É o maior partido político do planeta com 83 milhões de militantes comunistas formando uma grande e intransponível muralha que encobre e esconde do mundo pressões, perseguições, prisões, opressões, condenações, violações políticas, torturas, sangue e mortes sob o signo da foice e do martelo. Como diria Mao Tse-tung, “um regime separado só pode ser criado e mantido pela força das armas”.

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Jota Alcides é jornalista e escritor

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