Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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FEITOS & DESFEITAS >

A herança do educador

Por Deonisio da Silva em 28/06/2011 na edição 648

Se formos duros como eles, diremos aos que classificam de maldita a herança de FHC: malditos são os herdeiros, não a herança. Paulo Renato Souza (economista e professor universitário, ex-reitor da Unicamp), que substituiu Murílio Hingel (professor e diretor de escolas do ensino médio) no comando do ministério da Educação, deixou-nos, como o antecessor, uma boa herança no MEC.

A mudança representou a passagem do governo Itamar Franco rumo a FHC. O legado de Paulo Renato Souza no MEC foi marcado por iniciativas até hoje endossadas por seus sucessores que, entretanto, não gostam de admitir isso. Ele certamente teve do que se arrepender. Por exemplo: abandonou as universidades federais, ensejando seu sucateamento, não apenas material. Mas obteve conquistas admiráveis.

Ninguém quis esperar que o governo Collor sangrasse até o fim. Seu governo teve quatro ministros da Educação e José Goldenberg pouco pôde fazer, depois de Carlos Alberto Chiarelli e José Luitgard Moura de Figueiredo, este último sucedido por Eraldo Tinoco Melo, que ficou um mês e pouco no cargo.

Se dessem a Collor em 1992 a mesma chance que deram ao presidente Lula em 2005, quando eclodiu o mensalão, provavelmente ele teria recomposto seu governo e, como Lula, teria feito outras alianças, com o fim de garantir a governabilidade – como dizem os oligarcas da política no Brasil que, aliás, são quase sempre os mesmos. Murílio Hingel também teve pouco tempo no governo interino de Itamar Franco, mas deixou marcas indeléveis, sobretudo no trato ético da coisa pública.

Pelo telefone

Paulo Renato Souza foi sucedido no governo Lula por Cristovam Buarque (engenheiro, economista, professor, ex-reitor da UNB e escritor), por sua vez sucedido por Tarso Genro (advogado, ex-prefeito de Porto Alegre, hoje governador do Rio Grande do Sul), de quem tive a honra de ter sido colega em memoráveis projetos nas décadas de 1970 e 80.

Paulo Renato serviu aos dois governos Fernando Henrique Cardoso. E era em tudo diferente dos antecessores e dos sucessores. José Goldemberg é um scholar. Murílio Hingel é professor do ensino médio e como tal presidiu ao MEC . Ao ex-reitor da USP coubera a outra metade do mandato. Paulo Renato Souza fez a diferença que se queria, mudando a educação no Brasil. Mas não fez tudo o que era preciso.

De Cristovam Buarque a lembrança mais interessante que guardo é do dia em que o ministro da Justiça Fernando Lyra (que servia ao presidente Tancredo Neves, já moribundo num hospital, enquanto choviam pressões sobre José Sarney) acabou com a censura no Brasil. Naquele dia (talvez 15 de abril de 1985), saímos do ato cerimonial realizado no Teatro Casa Grande, no Rio, para jantar com Cristovam Buarque. Junto a Rubem Fonseca e a mim estava ninguém menos do que Roberta Close. Ela soube que a censura ia terminar e foi comemorar.

Um dia Cristovam Buarque foi humilhado, não pela ditadura militar que tanto combatera, mas pelo presidente que ajudara a eleger, que o demitiu do MEC por telefone.

Que dizer de Fernando Haddad, o atual ministro da Educação? Tomara que ele possa completar no governo Dilma a obra iniciada no governo Itamar, que prosseguiu nos governos FHC e Lula.

***

[Deonísio da Silva é escritor, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, professor, pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa)]

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