Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > COBERTURA DA COPA

A hipocrisia da auto-afirmação

Por Marcela Marcos em 06/07/2010 na edição 597

O discurso mais proferido, variando apenas de intensidade, durante a Copa do Mundo é chamar de ‘alienados’ aqueles que se esquecem dos problemas do país durante o torneio mundial de futebol.

Em certa medida, as pessoas que o dizem têm razão: é evidente que não se deve deixar para segundo plano os acontecimentos no cenário político, por exemplo, principalmente em se tratando de um ano eleitoral. Porém, o que preocupa nessa tentativa retórica das pessoas (não é preciso de muito para constatar que o termo ‘alienado’ invade o vocabulário popular em época de Copa) é o fato de a maioria delas não saber em que consiste ser um alienado.

O substantivo ‘alienação’ provém do latim alienatio, cujo significado se aproxima dos termos ‘venda’ e ‘loucura’. Quando ouço as pessoas misturam numa mesma frase a palavra ‘alienação’ com política, economia e outros assuntos de interesse geral, entendo que elas queiram dizer que o sujeito é alienado quando não tem devido conhecimento sobre tais assuntos ou, pior, quando os descarta, dando prioridade à Copa do Mundo, nos casos mais atuais.

Valor histórico e pluralidade de sentidos

Mas, partindo das raízes da palavra, alguém que se entretém com as partidas de futebol em Joanesburgo como válvula de escape, tão-somente, para os inúmeros – e já conhecidos – problemas que assolam o país seria… louco? É, no mínimo, curioso pensar assim. Acrescentaria que não é isso o que os patronos do discurso querem dizer porque simplesmente não sabem exatamente o que a palavra de que se valem quer dizer.

O filósofo alemão Karl Marx, cujo pensamento influenciou diversas áreas do conhecimento, anexou ‘alienação’ ao vocabulário moderno, versando sobre o termo quando falava da alienação no trabalho, no sentido de que este escravizava o homem, ao contrário de outro filósofo, Hegel, contemporâneo de Marx, que via na alienação trabalhista características positivas, das quais emanava a essência humana.

Minha intenção aqui não é fazer um paralelo sociológico entre as significações que ilustres pensadores imprimiam ao termo que está ‘na boca do povo’; é, na verdade, mostrar que uma só palavra carrega tanto valor histórico e uma pluralidade de sentidos que parece totalmente descontextualizado e até anacrônico citá-la para falar da… Copa (principalmente quando o argumento parte de pessoas que parecem querer se auto-afirmar ‘intelectualmente’ a partir dele).

Um discurso não tão brilhante

Mais do que citar talvez de maneira equivocada, as pessoas poderiam pensar que a Copa do Mundo tem o poder de divertir dos mais sisudos aos entusiastas de futebol; e aproveitar a ‘onda’ do torneio, especialmente quando é a seleção brasileira que está competindo nele, não é uma maneira de camuflar ‘os problemas da nação’. Antes disso, pode bem ser um grito de ‘basta!’, algo como dizer que a coisa está tão caótica que tem sido preferível se desligar do caos e direcionar a atenção para o futebol, o tal campo de ‘inutilidades’.

Inútil, mesmo, é assinar um jornal, revista ou acessar sites de jornalismo digital diariamente como forma de se sentir mais brasileiro mantendo-se a par dos fatos, quando na realidade se está passando por eles passivamente, nada fazendo senão reproduzindo-os nas redes sociais ou simplesmente comentando nas ruas, no trabalho, nos salões de beleza.

Gostaria de saber o que Machado de Assis diria sobre esse bombardeio de citações da palavra de que tanto gostava; ele, que escreveu O Alienista direcionando o foco do público e da crítica para a loucura humana. Talvez um dos maiores escritores da nossa literatura soubesse proferir o termo tão falado hoje em dia de maneira correta. Talvez Machado soubesse que a loucura e o patriotismo – que, segundo os ‘discursores’, só se exerce de quatro em quatro anos, quando ocorre a Copa do Mundo – misturados não resultam num discurso tão brilhante assim. Pensando melhor, talvez Machado até concordasse com o patriotismo falseado: o fato é que ele seria menos hipócrita e mais brasileiro.

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Estudante de Jornalismo e analista de mídias sociais, São Paulo, SP

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