Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > BRUNA SURFISTINHA

A hipocrisia que lota os cinemas

Por Mariana Freitas Gomes de Oliveira em 08/03/2011 na edição 632

O filme Bruna Surfistinha mal estreou e já se tornou o longa da temporada. Muito bafafá girou em torno da menina de classe média que abandonou a família para se tornar prostituta. Ainda não vi o filme, mas para onde olho vejo a repercussão dessa história, muito bem contada no livro O Doce Veneno do Escorpião, lançado em 2005, que li vorazmente. Na época, com 16 anos de idade, não percebi quão poderosa era a história que tinha nas mãos. Hoje percebo. Mas me entristeço em ver a hipocrisia da sociedade, que lota os cinemas do país em busca da prostituta, mas ainda possui as opiniões mais conservadoras possíveis. É o falso moralismo.

Ontem mesmo, estava zapeando os canais de televisão e parei no Programa do Ratinho, que é exibido pelo SBT. Infelizmente, parei justamente na cena em que uma mulher dizia, indignada: ‘Soube que algumas mulheres procuram prostitutas para saber como agradar o marido. Eu acho isso ridículo! Mulher de verdade não precisa de prostituta nenhuma para isso, pelo amor de Deus, né gente, estamos no século 21!’ Logo descobri que a mulher em questão é Samantha Moraes, a esposa traída do atual marido de Raquel Pacheco – nome verdadeiro de Bruna. Ela descobriu o caso dos dois pelo famoso blog que a prostituta mantinha e em que divulgava suas noites com os clientes, dando nota a seus desempenhos.

Samantha pegou barca na fama da mulher que lhe roubou o marido e lançou o livro Depois do Escorpião, que também será adaptado para as telonas. Pelo menos foi isso que disse em sua conversa com o Ratinho, logo após ele mostrar um vídeo em que uma mulher encontra o marido com a amante na cama, tudo da forma mais sensacionalista e perversa. O apresentador parava as imagens e perguntava à plateia (formada por mulheres normais, senhoras e jovens que passariam desapercebidas em uma multidão) o que aconteceria em seguida. O que aconteceu, e foi registrado por algum programa de TV gringo, foi que a mulher matou seu marido com um tiro. Aí a câmera dá uma tremida, como se o cinegrafista dissesse um palavrão e o vídeo acaba.

Arte expondo a vida real

Nesse momento percebi qual era o papel daquela mulher ali: colocar as prostitutas em seu devido lugar. Como a própria Samantha disse, e o Ratinho arrematou, mulher ir atrás de puta para receber conselhos é uma baita de uma ‘inversão de valores’. Na hora eu pensei: será mesmo? Para mim, há tantos valores invertidos que não poderia listá-los – e a culpa não é das pobres das prostitutas. Se estamos em pleno século 21, como ainda existe violência contra a mulher em tantos lares brasileiros? Como ainda existe fome, frio, sede e armas de fogo? E o problema são as mulheres indo pedir conselhos às prostitutas com a vontade de agradar os maridos. Talvez, numa visão bem maldosa da coisa, se Samantha tivesse feito o que tanto critica, ainda tivesse o marido.

Mas, acima da vontade de quebrar a televisão, das ironias que pensei e das revoltas que senti, lembrei-me de uma exposição artística realizada durante o Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação do ano passado – o famoso Enecom, que foi em João Pessoa. A Associação das Profissionais do Sexo do Estado da Paraíba (Apros-PB) tinha exposto painéis lindíssimos que mostravam a dor e o sofrimento dessas ‘Marias-ninguém’. Era a arte expondo a vida real.

Inversão de valores

Lembrei também do documentário Candelária – Aquela que Conduz a Luz, que mostrava a história da dirigente da Associação Sergipana de Prostitutas e sua luta pela dignidade e cidadania das profissionais do sexo. Ela tem um trabalho belíssimo de conscientização sobre as doenças sexualmente transmissíveis, os direitos e deveres dessas mulheres. De quebra, possui uma história de vida de cortar o coração dos desavisados. O documentário, exibido pela TV Cultura, me mostrou as profissionais do sexo com um olhar humano, muito mais do que qualquer Bruna Surfistinha faria. Isso porque algumas das mulheres entrevistadas falam claramente que fazem o que fazem porque gostam, e eu, na minha ignorância, imaginei que aquilo não existia. Mas existe. Porém, a maioria esmagadora das profissionais do sexo precisam sobreviver, cuidar dos filhos, comer, vestir e a prostituição foi a saída para não morrer de fome.0

Raquel Pacheco teve escolha ao ir para mundo da prostituição, mas a maioria das mulheres não tem. Ela também teve sorte ao encontrar um homem que a tirasse dessa vida. Outra fortuna rara entre as putas de verdade. Podem acusá-la de tudo, mas é preciso discutir de verdade a prostituição, a prostituição infantil, a violência contra a mulher e seus direitos. Nada do falso moralismo e ‘inversão de valores’ propagados por Ratinho e seus convidados, que só fazem deseducar a população e alienar ainda mais as maiores vítimas dessa sociedade. É preciso olhar na cara das pessoas, independente de sua profissão, e respeitá-las como seres humanos, com sangue correndo nas veias, dor, sofrimento e lágrimas nos olhos. O documentário sobre a Candelária não foi exibido em centenas de salas de cinema pelo país, e isso, sim, é uma inversão de valores.

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Jornalista, Cuiabá, MT

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