Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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A hora e a vez do set-top box

Por Larissa Grau em 19/06/2007 na edição 438

Na pressa movida por interesses políticos e comerciais, o país se precipitou em adotar o modelo digital japonês que, no final de todas as contas, não vai causar em um curto espaço de tempo nenhuma revolução no conteúdo e na forma de assistir à televisão. Quando o então ministro das Comunicações era o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ), houve um esboço de uma discussão sobre a possibilidade de desenvolver um sistema digital que fosse genuinamente tupiniquim. Uma solução controversa, se levarmos em conta a aventura frustrada de nosso sistema de cor (Pal-M), único no mundo, que foi uma bravata nacionalista dos governos militares. No mundo dos zeros e uns, há certas evoluções que são inevitáveis, embora um Estado interventor tenha ferramentas suficientes para atrasar um processo que, sozinho, talvez, caminhasse a passos mais seguros e largos.

Uma ação política realmente importante seria a de pensar, e porventura alterar, o marco regulatório da radiodifusão no país. Atitude fundamental para concretizar a idéia de um novo modelo de TV, voltada não só para o entretenimento, mas, junto com ele, de interesse público e social brasileiro.

Neste país de proporções continentais, uma TV digital e interativa pode ser a solução para integrar uma grande parcela de brasileiros ao exercício pleno da cidadania. Afinal, o objetivo é transformar cada aparelho de TV em uma porta de entrada para a rede mundial de computadores e, através dela, abrir toda uma sorte de possibilidades. Se levarmos em consideração que cerca de 90% dos lares brasileiros já possuem pelo menos um aparelho, estaríamos falando, realmente, em uma inclusão social e digital. Afinal, segundo dados do próprio governo brasileiro, menos de 8% de nossos conterrâneos têm acesso à internet e na área rural o índice é ainda mais assustador, menor que 0,02%. E então, eis que surge a questão do tal do set-top box.

Comercialização do conversor

Para quem não sabe, o set-top box é um dispositivo que habilita televisores analógicos a receberem e decodificarem o sinal digital broadcast. Enfim, é uma caixa de conversão. Quem não possuir uma TV digital adequada ao sistema binário de informação, terá que adquirir um desses aparelhinhos para continuar a usufruir a nossa programação televisiva.

A primeira proposta do governo brasileiro era possibilitar a criação de um conversor de baixo custo, de forma a que todas as pessoas, independente de classe social, pudessem adquiri-lo. Aliás, um parêntese: é para a classe menos favorecida que ele se dirige já que, provavelmente, a pequena parcela da população brasileira mais privilegiada optará por uma TV digital, e não pela ‘caixinha’. Então, o desafio do governo transformou-se na capacidade de produção desses dispositivos por um preço acessível.

À edição de abril da revista Info, o ministro das Comunicações Hélio Costa disse que a comercialização do aparelho conversor deveria começar neste mês de junho a um preço médio e final para o consumidor de 100 reais.

Entretanto, segundo matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo na última semana (11/06), não só a transmissão do sinal digital poderá ser mais uma vez adiada como ‘é grande a possibilidade de não haver equipamento para o telespectador sintonizá-la’. A Eletros (associação de fabricantes de produtos eletrônicos), responsável pela fabricação do dispositivo, afirmou não poder precisar a data em que os set-top boxes chegarão às lojas. Os protótipos estariam em desenvolvimento, necessitando ainda de muitos testes antes que cheguem ao mercado para as transmissões. E, surpresa: a estimativa do preço final também foi alterada e está longe dos 100 reais propostos pelo ministro.

Batendo à porta da China

De acordo com a repórter do IDG News Daniela Moreira, o Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo estima em 500 reais o custo final do aparelho, podendo ter variações entre ‘300 e 700 reais até a data do funcionamento da TV digital no país’ (ver aqui). E esse produto somente permitirá uma interatividade limitada.

Novamente segundo Daniel Castro, da Folha de S.Paulo, ‘o governo federal está ameaçando abrir a importação de decodificadores de TV digital da China, caso as indústrias brasileiras não consigam cumprir o prazo’ para produzir o aparelho. Insiste ainda no preço final, agora de 100 dólares. As empresas do pool, por outro lado, argumentam que ajudaria se o governo contribuísse com ‘benefícios tributários, que poderiam reduzir os custos em até 36%’.

Para quem sonhava com um sistema tecnológico digital genuinamente brasileiro, é triste terminar essa história batendo à porta da China para conseguir o acesso aos tais aparelhinhos que de barato não têm nada. Talvez valha a pena começar a pensar em um crediário para adquirir uma TV digital de tela plana. Pode ser que compense financeiramente e que ainda dê menos dores de cabeça.

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Estudante de jornalismo da Universidade Fumec, Belo Horizonte MG

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