Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > MÍDIA RADIOFÔNICA

A idade de ouro do rádio

Por Ethevaldo Siqueira em 22/10/2010 na edição 612

A era de ouro do rádio brasileiro vai dos anos 1930 ao final dos anos 1950. Nesse período, a radiodifusão no Brasil é feita com muito idealismo, paixão e participação na vida brasileira.


O rádio trouxe grandes benefícios culturais, sociais e políticos ao País. Fortaleceu o sentido de nação e consolidou a própria língua portuguesa falada no Brasil, dando-lhe mais homogeneidade na pronúncia, sem lhe destruir as peculiaridades regionais.


Apesar das numerosas dificuldades econômicas enfrentadas pela maioria das emissoras de rádio, naquele período, a comunicação radiofônica cobriu todo o vasto território nacional, contribuindo significativamente para a integração cultural, a formação e uma nova consciência democrática e para o amadurecimento político.


Foi nessas três décadas – dos anos 1930, 1940 e 1950 –que surgiram no Brasil comunicadores como Roquete-Pinto, Cesar Ladeira, Almirante, Ary Barroso, Ademar Casé, Renato Murce, Saint-Clair Lopes, Eneas Machado de Assis, Carlos Schermann, Paulo Machado de Carvalho, Fernando Tude de Souza, Roberto Cancelier, Roberto Marinho, Edgar Proença, Vitoriano Borges, Alvaro Freire, Carlos Lacombe, Carlos Prado Mendonça, Gagliano Neto ou Cândido Fontoura.


Alguns dos mais famosos compositores, humoristas e cantores de nossa música popular começaram naquele rádio heroico dos anos 1930 e criaram um novo mundo para a comunicação no Brasil: Noel Rosa, Francisco Alves, Lamartine Babo, Orestes Barbosa, Grande Otelo, Celso Guimarães, Paulo Gracindo, Radamés Gnatalli e Mario Lago.


A música, a informação, o entretenimento, a cultura geral, o sentimento nacional e a própria unidade linguística do Brasil devem muito a esses homens e tantos outros.


As grandes emissoras


Emissoras pioneiras como as que se multiplicaram no final da década de 1920 ou durante os anos 1930 consolidaram o papel que estava reservado à radiodifusão no País. O rádio-jornalismo, os programas humorísticos e musicais, as primeiras novelas e as transmissões esportivas (algumas delas feitas, a princípio, com arrojo, pelos pioneiros, numa época em que as condições técnicas das comunicações nacionais eram as mais precárias possíveis) deram à radiodifusão sonora uma posição de destaque crescente na vida brasileira até seu auge no final dos anos 1940 e primeiros da década dos 1950. Entre outras emissoras desse período áureo, as que mais se destacaram foram a Rádio Bandeirantes (São Paulo), Rádio Record (São Paulo), Rádio Tupi (de São Paulo), Rádio Mairink Veiga (Rio de Janeiro), Rádio Tamoio, Rádio Jornal do Comércio de Recife. O maior sucesso dos anos 1940 e 1950, no entanto, foi, de longe, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro


Nesse período áureo do rádio brasileiro, nossos pais ou avós se entusiasmavam com a velocidade da informação dos jornais falados de longa duração e grande audiência, como o Grande Jornal Falado Tupi, de Corifeu de Azevedo Marques, na Rádio Tupi de São Paulo. Ou com a qualidade de programas da Rádio Nacional do Rio, como Calouros em Desfile, de Ary Barroso. Ou Nada Além de Dois Minutos, Um milhão de melodias, Papel Carbono, da versão pioneira e radiofônica de O Direito de Nascer.


Em minha infância, me deliciava ao ouvir Francisco Alves cantando aos domingos, ao meio-dia. A locutora anunciava com pompa e emoção: ‘Quando os ponteiros se encontram na metade do dia, os ouvintes da Rádio Nacional se encontram com o Rei da voz’…


Com sua voz poderosa e inconfundível, Francisco Alves lançava, então, o jovem compositor gaúcho, Lupicínio Rodrigues, autor consagrado de Quem Há de dizer, Esses Moços, Nervos de Aço e tantos outros sucessos. Orlando Silva (o Cantor das Multidões), Sílvio Caldas, Carlos Galhardo, Vicente Celestino, Ciro Monteiro, Carmen Miranda, Cândido das Neves, Augusto Calheiros, Nelson Gonçalves, Dircinha e Linda Batista, os conjuntos (de Anjos e Demônios, bandos, duplas e trios, Os Oito Batutas (com Pinxinguinha), dos nacionalistas aos Quitantinhas Serenaders, Carmélia Alves, Ivon Cury, Hervê Cordovil, Marcelo Tupinambá e muitos outros enriquecem dia a dia a música popular.


Transistor dá nova vida


Mesmo com a chegada da televisão, o rádio se reinventa, renasce como transístor, ganha as ruas, os estádios, os automóveis, o campo e o sertão. A mobilidade traz uma nova vida ao rádio.


Mas, para cumprir sua missão, o rádio brasileiro tem muitas vezes pago um preço bastante elevado. Criticado pelos abusos de alguns radialistas, mas frequentemente injustiçado nos julgamentos oficiais, o rádio brasileiro chega ao século 21 com mais de 3 mil emissoras, emissoras espalhadas por todos os Estados e Territórios.


Em pequenas empresas deficitárias ou sem qualquer rentabilidade para os investimentos exigidos pela radiodifusão, lançando-se com pertinácia e idealismo à causa pública com extrema dedicação, o homem de rádio – especialmente no interior do País – não pode ser esquecido em qualquer avaliação crítica do progresso nacional.


A face boêmia


Paulo Machado de Carvalho, em entrevisa que concedeu, para o Estadão (edição de 5 de maio de 1974), relembrava um pouco de seus 44 anos de atividade no rádio, até então, no rádio paulista. Aliás, a primeira emissora paulista nasceu em 1924. Era a Rádio Educadora Paulista, cujo presidente e fundador era Frederico Steidel. Ainda naquele ano, foi criada no Recife e Rádio Clube de Pernanmbuco.


As gerações mais novas talvez não saibam ou não se lembrem de que Paulo Machado de Carvalho foi o Marechal da Vitória, ao dirigir a delegação brasileira e seleção brasileira de futebol, cujo técnico era Vicente Feola, aquela equipe extraordinária que ganhou, pela primeira vez, na Copa de Mundo, da Suécia, em 1958.


Paulo Machado de Carvalho relembrou-nos o começo de seu trabalho profissional como radialista e radiodifusor: ‘Quando compramos a Radio Record, em 1931, por 25 contos de réis, a emissora era dirigida por boêmios. Dentro de um piano, que não tocava uma nota sequer, havia centenas de tampinhas de cerveja, impedindo o movimento das cordas. Microfones de carvão eram acionados aos berros. A parte técnica, com todos os seus equipamentos, tinha um espaço de 4 metros quadrados para a gente trabalhar.’


Um dos episódios mais interessantes ocorridos em 1932 é narrado por Paulo Machado de Carvalho: ‘Uma dia, pela primeira vez na história do rádio do País, um grupo de estudantes invadiu a emissora para transmitir uma mensagem subversiva: o pedido de adesão popular à Revolução de 1932, que havia iniciado praticamente em maio. Surge nesta época um dos maiores locutores que o Brasil já conheceu: César Ladeira. Seu boletim, das duas às quatro horas da manhã, diariamente, terminava com um apelo revolucionário dirigido a Getúlio Vargas: Que renuncie o ditador.’


A 30 de maio de 1932, nascia a Rádio Cruzeiro do Sul, (chamada depois, Rádio Piratininga), fundada por Alberto Byington Jr., e que foi fechada em 1974, simplesmente por criticar o governo militar. O Ministério das Comunicações simplesmente não lhe renovou a concessão. Fundada a 30 de maio, a Piratininga formou verdadeiros profissionais do rádio, que se tornaram nomes nacionais, como Emílio Carlos, Fauze Carlos e Blota Júnior. Nessa emissora, também trabalhou Cesar Ladeira.


Instrumentalização política


O rádio brasileiro tem sido utilizado exaustivamente como instrumento de ação política, quer por partidos, quer pelo governo ao longo dos últimos 87 anos. Em 1935, era criada a Hora do Brasil, programa de uma hora de duração que ia ao ar de segunda-feira a sábado das 20 às 21 horas, com noticiário oficial distribuído pelo famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda, depois do golpe de Estado de 1937. Mesmo após a queda de Vargas, em 1945, o programa sobreviveu, passou a chamar-se A Voz do Brasil, sofreu diversas mudanças, mas não morreu.


Redemocratizado o País em 1945, já com o nome de A Voz do Brasil, e, de lá para cá, com o golpe militar de 1964, entra governo, sai governo, com a queda da ditadura, o programa continua, sempre transmitido em rede obrigatória, hoje com mais de 3 mil emissoras em cadeia divulgando o noticiário chapa branca. Antes de mais nada, estamos diante de um imenso desperdício de energia elétrica.


A Voz do Brasil que ainda ouvimos em 2010 é estatal, irritante, anacrônica, jurássica e inútil, sobrevive como o mais antigo lixo autoritário do rádio brasileiro. Programa de rádio típico dos regimes autoritários, irritante e anacrônico. O programa se perpetuou não apenas por interesse dos presidentes e de políticos oriundos dos grotões distantes, que passaram a utilizá-lo como canal de comunicação com suas bases. É o rádio que já foi usado como o ‘Alô, mamãe’ – de parlamentares do baixo clero, seus defensores mais ferrenhos.


Antigamente se dizia que a maior utilidade da Voz do Brasil era levar informações ao habitante da Amazônia, que só conseguia ouvir emissoras estrangeiras. Então, por que não restringir a obrigatoriedade do programa àquela região? E hoje por que não aproveitar as emissoras federais e estaduais e, em especial, a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), criada por Lula?


O rádio popular


Mas a popularidade do rádio atingiu seu ponto máximo nos anos 50. Os programas de auditório evoluíram e foram responsáveis pela maior parcela desse prestígio. O primeiro deles de grande audiência foi produzido e dirigido por Casé (Ademar Casé), ‘sob o alto patrocínio’ de um purgante do laborátorio Queiroz.


Casé apresentou e contribuiu para a popularidade de artistas como Carmen Miranda, Mario Reis, Francisco Alves, Lamartine Babo, Almirante e Noel Rosa, entre tantos outros. Um jovem maestro foi ‘lançado’ por Casé : Eleazar de Carvalho. O programa tinha uma variedade incrível (ficção, teatro, radiofonização de histórias reais ou contos policiais; dramatização de episódios históricos, humorismo, canto, paródias etc).


E reuniu gente excepcional, como Orestes Barbosa, Luís Peixoto, Henrique Pongetti e Paulo Roberto. Chegou até a realizar o Teatro Imaginário, que, mais do que a novela, era a ópera do rádio, com sonorização de palmas, clima de teatro, vozes e tudo mais que lembrasse uma noite no Municipal.


Foi no rádio que nasceram algumas figuras populares da televisão brasileira (o que explica a fórmula de sucesso e alguns vícios, como o de ‘fazer rádio com imagem na TV’): Abelardo Chacrinha Barbosa, Flavio Cavalcanti (lançado também por Casé), Silvio Santos, Hebe Camargo, J. Silvestre e outros.

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