Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > LIBERDADE DE EXPRESSÃO

A identidade de ‘um idiota loquaz’

Por Ricardo de Barros Bonchristiani Ferreira em 06/02/2007 na edição 419

É digna de admiração a disposição de algumas pessoas em propalar opiniões negativas, desconfiança barata, questionamentos vazios e criticismo mecânico quando se trata de pessoas públicas. Tudo bem. Indubitavelmente, a classe política brasileira é ninho de elementos assombrosos e de alta insignificância humana. Mas, generalizar ainda é grotesco. Nem todos em cargos públicos representativos merecem o mesmo veredicto.

Criticar por criticar é algo que pode ser equiparado ao ataque de histeria de Rambo na segunda edição da película, vomitando balas para todos os lados em um escritório do exército. Puro descontrole emocional sem resultados. Como substrato dessa verborragia está a Internet. Ela é o território livre das opiniões. Todas. E, navegando por aí, deparei com um artigo publicado por um ‘economista e mestre em Administração de Empresas’ no site Mídia Sem Máscara.

O polígono das secas

O artigo foi escrito para pulverizar a imagem do ex-governador de São Paulo Cláudio Lembo. O ‘mestre’, usando trechos de uma entrevista, enxovalha os comentários de Lembo. Até aí, é apenas um exercício de liberdade de expressão e democracia. Mas o autor logo descamba para uma argumentação canhestra, sem base e desequilibrada.

Para praticar a vocação de ir contra, o economista acaba dizendo o seguinte: ‘O Nordeste de hoje está extremamente urbanizado e essa história de ‘sitiozinho’ é coisa idílica que não existe mais.’ Afirmação, no mínimo, questionável.

Com a exceção de algumas capitais nordestinas que exploram o turismo (muitas vezes sexual) além de Feira de Santana, Campina Grande, Petrolina e Canindé de São Francisco, onde reside alguma significação econômica e industrial, segundo o IBGE, mais da metade do território nordestino é formado pelo chamado polígono das secas.

‘Você não é nada’

São 950.000 km2 de área de clima semi-árido e caatingas. O solo é raso e a evaporação da água é crítica. Estamos todos cansados de ver reportagens televisivas sobre essa região e, óbvio, lá estão os donos de duas ou três vacas semimortas, secas, num ‘sitiozinho’ vivendo no meio do inferno na Terra, à base de farinha e água marrom, vítimas da corja de políticos desumanos e desprovidos de travesseiro.

Nessa vastidão desértica, onde crianças se alimentam de dois em dois dias, não há nada de idílico, muito menos de industrializado, como disse o desavisado ‘mestre’. Depois de uma observação alienada como essa, o autor continuou: ‘Desigualdade de renda não é explicação para nada, muito menos para violência.’

Ora, desigualdade de renda explica, sim, muita coisa e, principalmente, a violência. Não me refiro a todas as violências, mas aquela em que um jovem favelado que nunca teve um tênis ou carro, rouba e mata sem dó. A opressão da vida em grandes bolsões de miséria em contraste com nobres centros financeiros separados por poucos metros provoca amargura em muita gente. Essa população é ainda massacrada pela mídia e a sociedade, que diz: ‘Você não tem nada = Você não é nada.’

Defesa apaixonada

Em alguns, essa amargura cresce tanto que vira ódio, e, somado a um revólver, vira crime. Isso não é novidade para ninguém. Desigualdade de renda gera violência. Talvez nosso autor precise sair um pouco dos círculos acadêmicos e ocas teorizações para ir pegar um ônibus no Jardim Miriam às 22h com um par de tênis Nike – que custa mil reais – e assim testar os bons modos da desigualdade social.

E ele não pára: ‘(…) As Alphavilles que fazem de São Paulo a potência que é são fonte do maior bem, essas ilhas de prosperidade, não de mal algum. Isso é coisa de invejoso.’ O pobre do Lembo, apenas para ilustrar a grande diferença de renda existente em São Paulo, usou do recurso comparativo e mencionou a renda per capita de Alphaville comparando-a com a de municípios de baixa renda. Essa mera disposição de dados, sem qualquer tipo de nocividade, gerou uma postura defensiva do nosso articulista, que tomou as dores do condomínio de luxo e fez uma defesa apaixonada do local, com ares de especulador imobiliário.

Emaranhado de palavras

Engraçado notar também que uma paranóia persecutória achou espaço para crescer na mente do autor ao dizer: ‘…que o cipoal de leis contraditórias, que obriga a prender tanta gente, tem origem maquinada para instalar o caos’. Nesse ponto ele quer que, como ele, Lembo tenha uma visão dantesca do Legislativo, crendo que, deliberadamente, as leis são feitas ‘para instalar o caos’. Soa como o roteiro de um filme onde um super-herói deverá surgir para ‘defender a humanidade’. Visão deveras ingênua em relação à redação de leis numa instituição pilar do Estado, além de flertar com a esquerda ultra-radical que ele tanto demoniza, ao imaginar que há um ‘gênio do mal’ por trás de todas as mazelas sociais buscando instalar o caos, inclusive por meio das leis defasadas.

Depois de um desfile de argumentações tão rasas, simplistas e fantasiosas, o articulista prosseguiu com um petardo lisérgico: ‘A justificação do malfeito criminal pela suposta concentração de renda pregada pela esquerda está na raiz da quebra da moralidade das pessoas.’ Confesso que me esforcei para entender o que diz essa frase, mas está além dos meus limites intelectuais. Fica o desafio para os leitores compreenderem exatamente o que diz essa afirmação, que mais parece um emaranhado de palavras conectadas a esmo, perdendo significado totalmente.

Mais respeito

A risível fragilidade dos argumentos contra Lembo foi percebida pelo colunista do Mídia Sem Máscara e, por isso mesmo, apelou. O título do texto é ‘Um idiota loquaz’. E ele se refere a Lembo como idiota diversas vezes, algo no mínimo desrespeitoso. Assim, fica claro que se trata de uma crítica negativa, já que seu raciocínio não está embasado em nada e poderia não causar o efeito desejado, que é chocar.

Lembo pode não ser o perfil adequado para governador de São Paulo, mas também não pode ser responsabilizado pelo infeliz momento em que precisou assumir a liderança transitória no estado. E, se lá esteve, certamente havia méritos para isso.

Lembo é formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela USP, doutor em Direito pelo Mackenzie, professor titular de Direito Constitucional e reitor da mesma universidade. Na prefeitura de São Paulo, exerceu os cargos de secretário dos Negócios Extraordinários (1974-1979), secretário dos Negócios Jurídicos (1986-1989), secretário de Planejamento (1993) e também de prefeito em vários períodos.

Na esfera federal, foi chefe de gabinete do ministro da Educação, ministro de Estado interino da Educação e assessor do vice-presidente da República. Poucos brasileiros têm currículos semelhantes, mas, principalmente por nunca ter sido participante em esquemas de corrupção apesar de tantos anos de vida pública, Lembo merece mais respeito.

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Jornalista, São Paulo, SP

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