Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > PENSAMENTO ÚNICO

A ideologia em nome da ‘reportagem’

Por Luiz Gonzaga Motta em 09/05/2006 na edição 337

Cientistas políticos têm chamado a atenção para o risco do ‘pensamento único’ que se instala com o processo de globalização: o mercado prevalece como fator único de regulação das sociedades. Elemento soberano de organização da sociedade, tudo o que contraria o mercado passa a ser sistematicamente desqualificado como retrocesso, retrógrado, atrasado, fora de moda.

Um dos setores mais arraigados a este pensamento único é o jornalismo liberal que se pratica entre nós, que não cede espaços ao pluralismo de idéias nem para alternativas políticas ou econômicas – ainda que os jornalistas se autoproclamem cinicamente porta-vozes do pensamento pluralista da sociedade. Tudo que não se submete ao pensamento único é sistematicamente desclassificado. Há freqüentes demonstrações dessa submissão. Mas, é bom apontar exemplos concretos dos exageros na esperança que o nosso jornalismo venha a ser menos subserviente algum dia.

A edição nº 415 da revista Época (1/5/2006) publicou uma reportagem de três páginas com o título ‘Os populistas’, assinada pelo repórter Guilherme Evelin (págs. 50-52). A diagramação, os títulos e subtítulos, as fotos utilizadas e o texto revelam, entretanto, que não se trata de uma reportagem, e sim de um artigo de opinião, quase um editorial camuflado em reportagem.

O subtítulo já revela descaradamente a tendenciosidade do texto. Diz que ‘o avanço da esquerda na América Latina fez ressurgir uma perspectiva sombria: o populismo’. Anuncia, desde logo, uma posição ideológica e preconceituosa do autor da matéria: esquerda igual a populismo, direita não.

O jornalista posiciona-se politicamente desde o início do texto. Considera que a seqüência de eleições de líderes da esquerda no continente é uma ameaça, um retrocesso, um atraso. Menospreza os processos eleitorais democráticos como se tivesse o direito de desqualificar os eleitos, revelando uma arrogância autoritária, um julgamento acima e além da livre escolha das sociedades que elegeram esses líderes em processos democráticos.

Guilherme Evelin descreve o populismo como caracterizado pelo personalismo e autoritarismo e aponta o presidente venezuelano como o ‘arquétipo do neopopulismo latino-americano’ que tem ‘desapreço pelas instituições’ e atração pelo autoritarismo. Ora, o julgamento é impróprio. Hugo Chávez pode ser antipático e presunçoso, mas submeteu-se a todos os processos eleitorais democráticos e quase foi derrubado por um golpe militar autoritário. É um presidente legitimamente eleito.

Opinião disfarçada

Assim como Chávez, todos os outros presidentes apontados como populistas na reportagem – e, portanto, autoritários – foram democraticamente eleitos: Lula (Brasil), Taberé Vazquez (Uruguai), Evo Morales (Bolívia), Néstor Kirchner (Argentina) e Michele Bachelet (Chile). Isso demonstra que a população da América Latina está buscando alternativas políticas e econômicas ao mainstream. Podem ser bem-sucedidos ou não. Mas isso é uma outra questão. Cabe à imprensa respeitar as decisões da população, ser menos arrogante e menos ideológica.

O autor da ‘reportagem’ procura disfarçar seu preconceito ideológico com os governantes da esquerda latino-americana apontando Jean-Marie Le Pen, líder da extrema direita francesa, como populista também. Procura dar um lustro histórico ao fenômeno do populismo latino-americano para concluir, citando o historiador Boris Fausto, que o neopopulismo se assenta nas massas marginalizadas urbanas.

Mas,a tese principal da ‘reportagem’ é demonstrar que Lula é um líder neopopulista. Para isso, faz um enorme esforço discursivo pinçando frases isoladas de cientistas políticos que legitimam seus argumentos. O autor do texto tinha uma tese e queria comprová-la.

Isso não é reportagem, é opinião legítima. Mas, nesse caso, não é ético camuflá-la de reportagem. Nesta época da submissão do político ao marketing, podemos demonstrar que qualquer líder atual é populista pinçando frases e situações particulares. Não seria populismo, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso montado em jegue, com chapéu de couro na cabeça? Eu poderia juntar uma série de situações semelhantes ou frases isoladas e demonstrar que FHC é igualmente populista.

A ‘reportagem’ em questão é, na verdade, uma opinião radical disfarçada em jornalismo. Fotos de Hugo Chávez ostentando um chapéu mexicano e de Olanta Humala (candidato à presidência no Peru) em vestes indígenas adornam a matéria, conotando uma identificação negativa entre seus trajes e suas tendências ‘populistas’.

Fora de moda

Um ridículo quadro chamado ‘Teste do populismo’, bem ao nível de revistas tipo Capricho, apresenta uma escala de 0 a 12 que classifica os presidentes ‘esquerdistas’ pelo grau de populismo. Naturalmente os presidentes do México e da Colômbia, por exemplo, que não são de ‘esquerda’, são poupados do vexame. Francamente, merecemos melhor jornalismo político.

A ‘reportagem’ diz abertamente: a eleição dos líderes da ‘esquerda’ representa ‘uma volta ao estigma do populismo’, ‘representa um retrocesso no fortalecimento das instituições’, ‘pode diminuir a disposição dos investidores em trazer capital para a região’. Para Guilherme Evelin, ou é isso ou é atraso. Pior: ele embarca no racicíonio autoritário: quando surgem líderes populistas, diz citando um cientista político, setores importantes não se sentem representados. Quer dizer, os ‘importantes’ derrotados no sistema eleitoral democrático têm o direito de voltar, mesmo que tenham falhado aos olhos da população que os derrotou democraticamente nas urnas.

Não são essas particularidades, entretanto, o pecado principal do jornalismo brasileiro contemporâneo. A grande questão é o preconceito no tratamento de certos líderes em relação a outros e a arrogante desqualificação automática de pensamentos alternativos. O que demonstra uma submissão subserviente de nosso jornalismo ao pensamento único do mercado.

Não se trata de tecer loas aos desvios populistas. Mas tampouco optar pela sistemática desqualificação de tudo que se opõe às regras do mercado, de tudo que significa busca de alternativas. Tudo que foge ao mainstream passa a ser qualificado como ‘alternativa sombria’ ou ameaça, como na matéria em discussão. Infelizmente, ela não é exceção. Essa tendência preconceituosa e arrogante é predominante no jornalismo brasileiro contemporâneo. O pluralismo caiu de moda.

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Jornalista, professor da UnB, coordenador do site Mídia&Política, membro da Renoi – Rede Nacional de Observatórios da Imprensa em Universidades

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/05/2006 francisco latorre

    não há mais jornalismo no brasil.
    é pena. o jovem ademir terá um grande futuro. emprego garantido.

  2. Comentou em 13/05/2006 Paulo Sérgio de lima

    Ao meu ver, o que acontece hoje é a banalização do jornalismo. A grande maioria destes profissionais vem de classes previgiadas, só o fato de terem se formado prova isto. A grande maioria destes profissionais não conhece o que é povo, e dizem que o representam. Muitos não conhecem o suburbio das grandes metrópoles, não pegaram um ônibus coletivo, não sabe o desespero da simples ameaça da fome. Todos os jornalistas deveriam fazer pós – graduação em pobreza. Ou deveriam fazer como aquela jornalista de Brasília – peço desculpas pois esqueci seu nome -, que viveu um mês em Belo Horizonte, com um salário mínimo, se obrigando a comer frutas do lixo. Conheçam as nescessidades básicas do ser humano para poderem falar deles. E quando aparece para tentar fazer algo pelos mai pobres, logo passam a ser taxados de populistas.

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