Segunda-feira, 26 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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FEITOS & DESFEITAS >

A imagem das brasileiras lá fora

28/04/2009 na edição 535

Mestra em filosofia, tradutora e escritora, Rachel Gutierrez escreveu ao colunista Joaquim Ferreira dos Santos, de O Globo:

‘Num dos jornais de maior tiragem do nosso país, O Globo, você publicou ontem um artigo de meia página, no 2º Caderno, intitulado `Que Bunda!´ com o subtítulo: `Caetano põe música no mais insistente pensamento positivo que move o país´. Você escreve bem, é engraçado, inteligente. Mas seu artigo me remeteu a uma experiência bastante desagradável que tive em Palermo, na Sicília, num táxi que levava ao aeroporto a mim e minha irmã, duas senhoras moradoras há várias décadas nesta cidade que tanto amamos e que por tantos motivos nos entristece – o Rio de Janeiro. Para nosso espanto, o taxista italiano, assim que percebeu que transportava brasileiras, perguntou: `É verdade que no Rio de Janeiro estão as melhores bundas do mundo?´ Sentindo-me humilhada, constrangida, envergonhada, respondi que não sabia mas que ouvira dizer, por outro lado, que no Brasil, os italianos são considerados `tutti cornutti´! Resposta pronta e grosseira da qual não me orgulho porque reconheço que a nossa reputação no exterior, alimentada exaustivamente pela nudez das mulheres nas praias e no carnaval, ofusca o crescente número de estudantes e profissionais do sexo feminino que já ultrapassa os 60% nas áreas da advocacia e da magistratura, na medicina e na pesquisa científica apesar de que, como escreveu sua colega Míriam Leitão (25/12/2008) `as mulheres têm escolaridade maior mas a diferença salarial aumenta quanto mais se estuda´; mesmo assim, a presença feminina sobressai também nas ciências sociais e no magistério secundário e superior. E não vamos esquecer o sucesso das mulheres nas artes, na música, no teatro e na literatura, no atletismo e até mesmo no futebol. Vermos a mulher brasileira como apenas capaz de inspirar um tão reducionista `Que bunda!´ que você propõe como `mantra nacional´ é esquecermos perversamente, desculpe-me, Joaquim Ferreira dos Santos, perversamente, sim, que além de tudo isso, as estatísticas revelam que a cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil; que a maioria dos assassinatos de mulheres são cometidos por seus parceiros homens, maridos ou namorados; que nas regiões mais sacrificadas da população, 80 ou 90 % das famílias são chefiadas por mulheres trabalhadoras; que não apenas no nosso extenso e esquecido interior, pais estuprarem e engravidarem filhas crianças e adolescentes é crime corriqueiro e quase sempre impune; e que a prostituição infantil, o tráfico e o crack destroem a cada dia a vida de milhares de crianças inocentes etc. etc.. Joaquim Ferreira dos Santos, a era festiva do Pasquim já passou. Sejamos honestos, não temos mais clima para reduzir levianamente à bunda, as mulheres que além da bunda, têm o corpo inteiro, personalidade, inteligência, qualidades psicológicas e sociais e um olhar de ser humano como o seu.’

Casos complicados

O cronista não é culpado pela imagem da mulher brasileira lá fora. Afinal, ele faz textos – inteligentes, como disse a leitora – e não é responsável pelas imagens divulgadas pela mídia internacional, mostrando as mulheres cariocas na praia, com roupas sumárias. Nem são dele as imagens das mulheres quase nuas nos desfiles de Carnaval, que rodam o mundo todo ano mostrando a grande festa do Brasil.

A culpa não é do cronista e talvez nem seja da imprensa escrita. As imagens, nesse caso, valem mais do que mil palavras. E, infelizmente, a imagem da mulher brasileira que se vê lá fora é de mulheres nuas na praia e nos desfile de carnaval. Ou mesmo nas praias e piscinas dos hotéis do hemisfério norte, onde nossas conterrâneas desfilam de fio dental em contraste com bem comportados maiôs das senhoras locais.

O resultado é que quando se fala de Brasil, nos filmes e séries, a imagem é sempre a pior possível. O Brasil é o país para onde fogem os criminosos e golpistas e o país das mulheres sensuais e disponíveis. É só dar uma olhada na programação da TV paga. Outro dia, num episódio de CSI, a personagem brasileira era uma mocinha de 16 anos, que se prostituía nas ruas. Em um episódio antigo de House, o Brasil era citado como o lugar onde um funcionário do governo americano tinha sido envenenado, durante os sete dias de Carnaval. E é bom lembrar: foi o Brasil que deu nome à depilação sumária da virilha, grande sucesso nos Estados Unidos.

Não é de admirar, portanto, que o governo americano se empenhe tanto em levar de volta o menino Sean, trazido para cá pela mãe, que foi casada com um cidadão americano. Não é admirar, também, que uma brasileira tenha perdido a guarda das filhas para uma cidadã portuguesa, que a induziu a ir morar em Portugal com as duas filhas, e que agora luta na Justiça portuguesa por seus direitos.

Segundo passo

Mudar essa imagem não vai ser uma tarefa simples. E nem adianta cronistas mudarem o tom de seus textos e passarem a louvar a mulher brasileira por méritos outros que não os de uma bela bunda. É necessária uma outra postura de toda a mídia para influenciar a própria atitude das mulheres brasileiras. Aquelas que se destacam por seus feitos no mundo das ciências, das artes, dos negócios – ou ainda as que são espancadas diariamente – não aparecem nos jornais e na TV. O espaço é ocupado pelas que têm belas bundas.

O papel da mídia – TV e jornais – deveria ser mais educativo. Mostrar que os decotes escandalosos e as barrigas de fora com que as turistas brasileiras costumam escandalizar as ruas de Europa e Estados Unidos são apenas para certas ocasiões e certos locais. Mostrar o uso inteligente das tendências da moda. Tentar ensinar, inclusive, as confecções a desenvolverem modelos dentro da moda, mas adequados aos hábitos internacionais, pois as mulheres nem sempre se vestem como gostariam, mas com o que encontram nas lojas, ainda que não seja a seu gosto.

Um segundo passo seria parar de exportar imagens de mulheres nuas no Carnaval e se empenhar mais em defender as mulheres espancadas, estupradas e agredidas. Ou simplesmente aquelas discriminadas no mercado de trabalho, em benefício de homens nem sempre competentes. Quem sabe em uma ou duas décadas os italianos esqueçam que, no Brasil, as mulheres também são mamas e nonas, e não apenas as melhores bundas do mundo.

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Jornalista

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