Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > PÉROLAS DO JORNALISMO

A imprensa e o complexo de vira-lata

Por Eduardo Maretti em 13/03/2007 na edição 424

A visita de El Diablo ao Brasil deixou alguns jornalistas embasbacados e incontidos diante de tamanha honra. Entre aqueles que se viram em uma entrevista concedida pelo presidente dos Estados Unidos na Casa Branca, publicada no Estado de S.Paulo de quarta-feira (7/3), à correspondente do jornal em Washington, Patrícia Campos Mello, demonstrou ser quase uma tiete de Bush filho.

Terá ela pedido autógrafo ao entrevistado? Isso não posso saber, mas o textinho que ela assina em negrito na página A4 do jornal é ridículo. E meigo. ‘Uma conversa com Jorge Doblevê’, diz o título da matéria, procurando passar uma intimidade nem um pouco condizente com um jornal sério.

‘Seu nome é George W. Bush e ele é o presidente mais poderoso do mundo’, conta ela, entusiasmada tiete, como se começasse uma daquelas redações que escrevíamos no ginásio depois das férias. ‘Querida professora, nas minhas férias…’

Informando que o presidente se dirigiu a um jornalista mexicano como Joe, e acrescentando que ‘Bush adora inventar apelidos’, ela vai dizendo: ‘Com essa e outras piadinhas, o presidente norte-americano deixou o clima mais leve na imponente sala Roosevelt, na Casa Branca’. Isso é que é complexo de vira-lata, o resto é bobagem. Imagino – e me desculpem a livre-associação óbvia – como deve estar leve neste momento o clima na capital do Iraque.

Um líder ‘biglota’

E a matéria da Patrícia continua: ‘Foram 45 minutos (de entrevista), muitos sorrisos, gestos e incontáveis palavras em espanhol’, informa a repórter. ‘Bush sorriu até quando veio a ‘universal pergunta’ sobre (Fidel) Castro’, como ele (Bush) chamou a indagação infalível sobre o líder cubano’, escreve Patrícia, e posso ver até o sorrisinho de satisfação, quase entre suspiros, com que a moça olhava a tela do computador enquanto digitava essa pérola do jornalismo brasileiro.

Depois, ela encerra com uma fala de seu herói sobre Fidel Castro: ‘Vamos ver, disse Bush em espanhol (esclarece Patrícia, orgulhosa do líder poliglota ou, pelo menos, ‘biglota’), quanto tempo ele vai permanecer sobre a Terra. Isso é Deus Todo-Poderoso quem vai decidir’, termina a correspondente. Quiçá com lágrimas nos olhos.

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Jornalista, São Paulo, SP

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