Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > MAIORIA ABANDONADA

A imprensa não representa a sociedade

Por Eduardo Guimarães em 01/03/2005 na edição 318

Pretendo demonstrar neste texto que imprensa escrita brasileira definitivamente não representa o conjunto da sociedade em termos opinativos. Nesse aspecto, vejo nela o mesmo vício da imprensa da Venezuela, o de se dispor a representar um segmento minoritário e elitizado da sociedade. Vou falar das opiniões que se pode ler nos grandes jornais e revistas brasileiros sobre alguns temas, sobretudo políticos. Antes, porém, quero deixar claro que não escrevo o que se lerá adiante por apoiar alguma facção política, pois desde a reviravolta ideológica no PT deixei de apoiar o partido e não me inclinei por outro.

Recentemente, a imprensa divulgou pesquisas de opinião que dão conta de que a popularidade do governo federal e de seu titular segue firme e forte, porém o que se vê nas seções opinativas de jornais e revistas é muito diferente. A impressão que se tem é a de que há uma insatisfação generalizada da população em relação ao presidente da República e ao seu governo. Note-se, inclusive, esse caso da fala de Lula de que acobertou corrupção do governo FHC nas privatizações para não criar marola na economia. É óbvio que a maioria dos brasileiros não aprova isso, mas não dá sequer para especular sobre a possibilidade de as pessoas darem mais importância a esse acobertamento do que à hipótese de ter havido de fato corrupção. Porém, o que se vê na imprensa é o contrário.

Há várias formas de se notar que a imprensa brasileira, quando o assunto é difundir opiniões, privilegia a das elites. Um outro caso emblemático é o das cotas raciais e econômicas nas universidades. Qualquer pesquisa de opinião, num país em que ao menos metade da população é afro-descendente e pobre, mostrará ser enorme o apoio dos brasileiros a essa política pública. Então tomemos como exemplo dois dos maiores jornais do país – O Estado de S.Paulo e O Globo. Nesses veículos, é praticamente impossível ver alguém, seja leitor ou articulista, opinar favoravelmente à política de cotas. Há uma verdadeira censura a quem pensa diferente da opinião dos jornalões.

Proposta aos democratas

Outro bom exemplo da seletividade opinativa na imprensa escrita é sobre a questão dos sem-terra. Há um verdadeiro cerceamento de opiniões que não os considerem criminosos. Mesmo na Folha de S.Paulo, o mais democrático dos maiores jornais do país, opinião que não os criminaliza só pode ser vista quando há grande pressão para que dê espaço à divergência, e isso porque a Folha tem ombudsman e um projeto editorial que a obriga a sempre dar algum espaço a opiniões que diferem da sua. Mas o espaço para quem não criminaliza os sem-terra é muito bem calculado e limitadíssimo, enquanto o concedido aos que os criminalizam é ilimitado. Já num Estadão, por exemplo, simplesmente não se dá espaço a quem apóia os sem-terra.

A única conclusão que se pode extrair destas considerações é a de que o Brasil não tem imprensa escrita, e sim boletins político-ideológicos que se dedicam a defender os interesses das minorias privilegiadas da população. E isso explica o fato de este país ser o quarto mais desigual do mundo, sendo precedido apenas por três países africanos miseráveis.

E essa realidade exige que o democrata, aquele que quer ver este país civilizar-se e se democratizar, proponha que se debata como dotá-lo de veículos de imprensa que representem o conjunto da sociedade em lugar de meia dúzia de gatos pingados que nadam em dinheiro.

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Comerciante, São Paulo

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/03/2005 Lefebvre Saboya

    Eduardo Guimarães foi superficialmente raso no respectivo texto. Sobre uma aparente imparcialidade, critica o discurso político-ideológico dos jornais fazendo, ele próprio, a mesma coisa.

    Primeiro, usa um exemplo concreto: a disparidade entre a popularidade oficial do presidente o que se fala nas ruas, nas cartas dos leitores, nas opiniões da sociedade.

    Entretanto, após uma boa introdução, coloca seu discurso de defesa para o Movimento Sem-Terra e do Sistema de Cotas para Universidades.

    O comerciante não faz o paralelo entre o espaço desses temas na mídia geral, somente no veículo impresso. Entretanto, querendo falar na sociedade, impossível por ao lado o papel da mídia televisiva na questão.

    Ao contrário dos jornais e revistas, nos programas jornalísticos da TV aberta, o espaço para o debate crítico dessas questões é inexistente. Opiniões sobre o Sistema de Cotas, por exemplos, são superficiais e incompletos, predominando sempre a visão do governo sobre o assunto. Basta prestar atenção as reportagens, sempre terminam com alguma autoridade ou responsável por esses programas opinando sobre a questão.

    O Movimento Sem-Terra tem tratamento semelhante. Notícias que relatam crimes cometidos por membros do movimento são veiculados de forma rápida, terminando sempre com a declaração oficial do movimento ou promessas da justiça de apuração do caso. Exemplo é novamente o MST avisar que fará mais um ‘Abril Vermelho’. Dentro do código penal brasileiro, invasão é crime. Entretanto, nenhuma autoridade da justiça veio a público discutir um possível processo por ‘incitação ao crime’, por parte do MST.

    O poder de penetração da TV é muito maior do que o dos jornais. Some a isso – ou seja, aos pontos de vistas dos jornais – as propagandas institucionais, de organizações ligadas ou não ao governo. Teremos aí, então, uma boa visão do espaço destinado a opinião na mídia. Descartar o peso dessa desproporção ao criticar o espaço destinado em impressos aos lados da questão é um erro infantil, ou uma manobra de persuasão. Nas colunas de opinião dos jornais e revistas estão os últimos espaços para a visão oposta, crítica, fomentadora do debate.

    Querer a imparcialidade nos meios impressos é também exigi-la na televisão e rádio, para que a balança não penda mais para um dos lados.

    O respeito a pluralidade, às visões opostas ou complementares, só podem ser medidas quando levar-se em conta todos os veículos jornalísticos. Uma boa análise poderia ser feita ao se perguntar, ‘se em um meio de mídia específico a parcialidade predomina, a defesa da visão oposta pode acontecer nos outros meios, detendo uma relativa exclusividade, na tentativa de se equilibrar as opiniões’?

    Ao defender maior igualdade de espaço nos impressos para as idéias divergentes, Eduardo Guimarães, equivocadamente, pede que aumente-se esta diferença. Se foi ingenuidade ao redigir o texto, ou ‘fato pensado’, só o próprio colunista pode responder.

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