Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > MÍDIA & ELEIÇÕES

A interpretação correta dos fatos

Por Cesar Vanucci em 19/10/2010 na edição 612

‘É preciso ir ao fundo dos acontecimentos. Dos mais prosaicos aos de singular relevância’ (Antônio Luiz da Costa, professor)

Muita gente anda encontrando dificuldades em decifrar as motivações de parte ponderável da grande mídia no processo sucessório em andamento. Há quem garanta que as explicações são menos complexas do que se possa supor. Estariam, por assim dizer, na cara… Tema, com certeza plena, para ser esmiuçado numa boa rodada de debates no Observatório da Imprensa, excelente programa, retomo a dica da TV Brasil, inserido na grade da Rede Minas.

Algumas interpretações do que ocorreu no primeiro turno são tão escalafobéticas que dão guarida a que se possa imaginar essa cena aqui. Uma pessoa qualquer, um estrangeiro, por exemplo, alguém desinformado dos fatos sociais, econômicos e políticos de nossa vida, visita o Brasil nos momentos seguintes à grande festa cívica do dia três de outubro. Procura, naturalmente, inteirar-se dos acontecimentos recentes. Anota as observações estampadas em alguns influentes veículos de comunicação de massa. Permanece pouco tempo entre nós. No retorno ao seu país, cuida de passar a compatriotas as impressões da viagem. Não é improvável que acabe transmitindo, com base em coisas que andou lendo e ouvindo, um punhado de informações totalmente destituídas de fundamento, resumidas, talvez, em dois itens. O primeiro deles: o presidente Lula, apesar da alardeada popularidade, sofreu derrota nas eleições. O segundo: as liberdades públicas estiveram seriamente ameaçadas, presumivelmente pelo governo, no transcurso da primeira etapa da campanha eleitoral.

Uma incontestável maioria

Essa historinha fictícia reflete um pouco a perplexidade que vem gerando no espírito popular o comportamento estranho de alguns setores com responsabilidades claramente delineadas na formação de opinião com relação a nossa realidade política, botando para circular análises distorcidas, com laivos passionais, daquilo que realmente rola hoje na vida brasileira.

Lula foi, sim senhor – não há recusar –, o grande vencedor das eleições. Por tiquinho de nada não fez da candidata que apoiou sua sucessora já no primeiro turno. Façanha, assinale-se de passagem, que nem ele próprio, dono de incontestável prestígio, contando com a ajuda inestimável desse outro extraordinário brasileiro, José Alencar, conseguiu alcançar nas duas campanhas em que se elegeu. Dilma Rousseff, com 47 milhões de votos, cravou nada mais nada menos do que 14 pontos percentuais de dianteira sobre o opositor mais próximo. Sete a mais, a propósito, do que o alcançado pelo próprio Lula no primeiro turno da disputa em 2006 com Geraldo Alckmin. Lula, continuemos, triunfou em 18 estados da federação, inclusive Minas Gerais, onde a oposição, graças à expressiva liderança de Aécio Neves, alcançou na disputa para governo estadual sua melhor performance. Obteve, de outra parte, incontestável maioria na formação dos novos quadros parlamentares – no Senado e na Câmara Federal. Infligiu duros reveses a adversários de peso, alguns deles notabilizados pela forma belicosa com que sempre o enfrentaram. A coligação lulista – chamemo-la assim – pode celebrar também conquistas regionais de monta. Alguns dos governadores eleitos ultrapassaram em feitos inéditos a barreira dos 80% dos votos.

Debates carentes de conteúdo

Outra questão a ser melhor elucidada. Devidamente avaliado todo o quadro eleitoral, o Brasil revelou-se mais brasileiro do que nunca. Deu provas soberbas, outra vez, de sua inarredável vocação democrática. Orgulhoso dessa benfazeja condição, reiterou sua capacidade em poder assegurar permanentemente aos cidadãos o sagrado direito do livre exercício da liberdade para exprimir opiniões e assumir posições políticas. Ofereceu, com as eleições realizadas, à contemplação extasiada do mundo inteiro, um magno, um belíssimo, um histórico espetáculo de afirmação política e incontestável pujança democrática. Como resultado de poderosa conjugação de vontades envolvendo o poder público, partidos políticos, candidatos e ela própria, a brava gente brasileira, conseguimos neste país continente compor um cenário eleitoral simplesmente invejável. Onde tudo funcionou magistralmente, em clima ordeiro, de induvidosa confiabilidade e de solene respeito às instituições.

O segundo turno, programado pela vontade soberana das urnas, desembocará certeiramente no arremate cintilante, almejado pelo sentimento popular, de toda essa extraordinária vivência democrática. Ocasião propícia para que Dilma e Serra se coloquem mais à vontade para expor, com maior riqueza de detalhes, idéias e propostas. Respondam melhor a questionamentos e dúvidas não suficientemente esclarecidos nos debates da televisão. Debates esses, seja mencionado de passagem – dada a formatação engessada e faltos de criatividade –, carentes de conteúdo. E não por culpa apenas dos candidatos…

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