Domingo, 24 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ENTRE ASPAS > OBSERVAÇÃO DO LEITOR

A língua agredida

Por Jorge Duarte Barbosa em 26/08/2008 na edição 500

A TV acaba fazendo o que as instituições e os poderes estabelecidos não fazem: organizar o povo. Aí mora o perigo: ela o organiza, o aliena, o subestima conforme seus interesses, os únicos que lhe interessam: a grana. Agora são as ‘Olimpíadas de Pequim’. Quantas Olimpíadas são, então? Mais de uma, dez mil? A Globo não diz, mas o povo aprende desta maneira, ao invés de os Jogos Olímpicos da Olimpíada de Pequim. Bem, ela já ensinou ‘gênia’, ‘anja'(como se anjo tivesses sexo), monstra, micra (mulher micra), cavala. Qualquer dia esta péssima professora vai ensinar tudo da maneira absolutamente facilitada e sem regra tipo o formigo, a tatua, o cobro, o beijo-flor, não duvidem! Porque o quarto poder elege até presidente. Ainda não compreendi por que o Pelé não é presidente do Brasil, ou a Ana Maria Braga, ou a Hebe.

E vejam que estou falando apenas de uma questão do manuseio da língua, para o que não haverá de faltar os atuais defensores doutores daquilo que chamam modernidade justificando o mau uso em programas e espaços pagos e meramente mercantilistas chamados de nossa língua, nossa língua, nossa língua… O que será da etimologia, da raiz, da filologia da história, se continuarmos assim?

Mas, tudo bem, deixa o povo falar como ele quer. Ele manda, desde que tenha bastante cerveja, carro, moto, mulher pelada, futebol (todos entendem de futebol, embora não saibam escrever seu próprio nome). Educação, para quê? Isso é coisa de besta. Programas humorísticos bestiais e telenovelas vadias vulgarizando temas sérios e universais como poder, sexualidade, casamento, e até a fé. Por hoje é só, chega de azedume e vamos assistir TV para matar o tempo

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Por incrível que pareça, a censura continua a rondar o jornalismo no Amazonas. Pensei que isso tinha ficado no passado, mas na quinta-feira (21/8) fui alvo de um ato igual ou pior do que o praticado na época da ditadura militar.

Trabalho na TV Cultura do Amazonas, que num passado não muito distante foi a melhor emissora do Estado. Foi, pois, infelizmente, o governo do estado esqueceu de investir e o sucateamento tomou conta do canal. Na quinta-feira, durante a cobertura de uma inauguração de novos blocos da Fundação de Medicina Tropical (FMT), o governador foi surpreendido por uma manifestação. Toda a imprensa passou a dar atenção ao fato. Eu, como TV Cultura e também como jornalista, não poderia virar as costas para aquilo. Eis o meu erro – na visão do diretor da emissora, o senhor Álvaro Melo, que não é jornalista nem muito menos da área de Comunicação Social.

Pois bem: descontente por ver sua emissora entrevistando o líder dos manifestantes, ele foi ao ouvido do cinegrafista e ordenou que ele parasse de gravar, entregasse a fita e se retirasse dali.

O fato revoltou vários colegas que estavam no local. A notícia desse fato, na íntegra, está publicada no Blog do Holanda [ver aqui]. (Márcio Azevedo, jornalista, Manaus, AM)

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O que significa de fato este título que acabo de ler no Portal da UOL? ‘Ibope da derrota do futebol feminino é maior que do futebol masculino’. Perplexo, acessei a seção e após leitura concluí que é um radar de superficialidades. Ponto.

Quem escreveu esta jóia? Primeiramente, a frase é ambígua. Então, quer dizer que a derrota das atletas brasileiras deu o maior ibope? Não seria melhor e mais correto escrever que a partida de futebol feminino deu mais ibope que a do masculino? Ou algo por aí? Como dizia o sábio Chacrinha, o jogo só acaba quando termina e sempre alguém perde e alguém ganha.

Com esse tipo de texto, que eu não chamaria de jornalismo sério e substantivo, todos perdem: as empresas e os equivocados autores e editores dos textos saem muito mais derrotados que os fiéis leitores e, principalmente, os heróicos, talentosos, dedicados e quixotescos atletas de nossa Pindorama.

UOL é meu provedor há muitos anos e é um portal que acesso diariamente. A Empresa Folha de Manhã produz, entre tantas coisas, um dos mais consagrados jornais da América Latina. Merecíamos algo bem melhor que esse tipo de ‘presepada jornalistica’. (Daniel Taubkin, músico)

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Hoje a gente vê propaganda de jornais na TV e eles anunciam só as vantagens de seus classificados. Eu acho que isso é válido, mas a imprensa tem se preocupar também com sua parte jornalística – afinal, muitos fatos que a imprensa deu repercussão hoje fazem parte da história do Brasil. A redemocratização do país não seria possível sem a manifestação diária da imprensa.

Acho que a imprensa está passando por um momento de transição. Por que vou pagar por um jornal diário se posso ler as notícias de graça na internet? A imprensa tem quie procurar voltar a ter influência na vida diária do pais. Hoje o povo está mais esclarecido e não gosta de ser manipulado. Quanto à publicidade, ela superimportante para que os órgãos de imprensa tenham autonomia. Quando leio uma revista, leio até os anúncios, pois eles trazem muita informação.Também acredito que os órgãos de comunicação pública no Brasil têm contribuído muito para a melhoria da qualidade do conteúdo que é apresentado hoje, principalmente na TV. A TV Cultura e a TV Brasil têm programas de qualidade e de responsabilidade. No geral, vamos ter uma imprensa mais adequada aos novos tempos. Sem imprensa não existe sociedade democrática e organizada. (Rogério Cardozo, desempregado, Tubarão, SC)

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Terminaram as Olimpíadas e continuam circulando na mídia propagandas, como a do Ministério dos Esportes, prometendo que ‘a bandeira brasileira será hasteada muitas vezes em Pequim’. A ação do governo, aí representada, é o retrato da desorganização, que levou ao fracasso de nossa delegação, com resultados pífios e colocação vergonhosa no quadro geral de medalhistas. Eximindo nossos atletas, a culpa é toda de corruptos cartolas que, em imensas caravanas, foram à China somente para exaurir os recursos financeiros do pobre contribuinte brasileiro. Desconfio que, dos muitos milhões destinados à preparação dos atletas, um percentual ínfimo chegou a seu destino. É triste. (Sylvio Pélico Leitão Filho, jornalista, Rio de Janeiro)

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Professor de Língua Portuguesa e Literaturas da Língua Portuguesa, Porto Alegre, RS

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