Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > DEVANEIOS LINGUÍSTICOS

A metafísica da censura

Por Rodrigo Panchiniak Fernandes em 19/09/2011 na edição 660

A autocensura é contraditória, pois a censura ocorre pela iniciativa de outro que não o próprio censurado. Portanto, a autocensura é simultaneamente realizada e não-realizada. Mas a autocensura também é equívoca porque, não obstante ser contraditória, é muito utilizada para referir enfaticamente a todo tipo de pudor.

A forma mais econômica de censura é estabelecer um índice de expressões proibidas e uma pena para a utilização. Ironicamente, quanto maior o índice, os autores serão menos capazes de evitar seus termos e o censor será menos capaz de identificar a utilização. A alternativa para o censor, então, é impor uma pena tão elevada que dissuada os autores da mera possibilidade do erro, ainda que saibam da quase impossibilidade de atestá-lo.

A forma menos econômica de censura é determinar um pensamento proibido e uma pena para a sua veiculação. Esse tipo de censura torna-se tão mais aleatória quanto mais difícil seja efetivamente ligar pensamentos a expressões. A alternativa ao censor, então, é criar um corpo de censores auxiliares tão grande quanto o de autores, de forma a que a censura aleatória seja eficaz em pelo menos metade dos casos.

Às vezes, o termo autocensura é utilizado para identificar a proibição imposta pela autoridade não reconhecida pelo usuário do termo: é o caso da censura imposta por milícias e mercenários. Mas autocensura em seu sentido equívoco é utilizada para indicar o pudor difuso. Nesse caso, o mais comum, autocensurado é aquele que não fala o que fala quem o chama de autocensurado, ou vice-versa.

***

[Rodrigo Panchiniak Fernandes, professor universitário, Florianópolis, SC]

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