Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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ENTRE ASPAS > ENCHENTES EM SANTA CATARINA

A mídia e a catarse da tragédia

Por Lelê Teles em 09/12/2008 na edição 515

A terra do vinho viu as vidas mergulharem em valas de lama e barro. Tudo ali, na terra mole de Santa Catarina, tem as fortes nuances do trágico. Estou pensando em Nietzsche neste momento.

A beleza plástica das encostas, a beleza da vegetação e da gente, evoca a tudo que é apolíneo. Terra do Guga e de várias modelos internacionais e atrizes globais, terra da magia e da arte que encanta. Apolíneo.

E de repente, num átimo, os trovões anunciam o triunfo do Deus Dionísio. A destruição total para que tudo se renove a volte a ser apolíneo.

Ergamos as taças de vinho, façamos uma libação ao grande Dionísio, que dancem as bacantes, que saltem os sátiros, que o coro anuncie o ditirambo. A vida é cíclica!

‘Ora, direis, ouvir estrelas…’

Vamos à encenação midiática. Vamos a um simples recorte. Começarei por um exemplo. Certo dia, ainda nos tempos de universidade, chega um jovem à sala de aula, interrompe-a e pede que os alunos doem casacos para os que sofrem com o frio no Vale do Jequitinhonha. Eu levantei o braço e perguntei: ‘Jovem, filho do homem, onde fica o vale do Jequitinhonha?’ Ele desdenhou da minha ignorância, mas respondeu-me prontamente. E eu disse: ‘Mas antes de chegar aqui à UnB você não vê que há pessoas morando debaixo de lonas negras? Não vê a tragédia aqui, dos mendigos debaixo de marquises, dos pedintes dos sinais? Sabe quanto de frio passam os que vivem em nossas periferias? Por que ir tão longe, por que escolher esta tragédia tão distante; é por desencargo de consciência?’

A tragédia redime

Ora, fui buscar a origem disso, descobri que dona Ruth Cardoso havia escolhido o Vale para começar o seu Universidade Solidária, o Vale tava na moda, tava na mídia!

Era isso, o rapaz estava com seus sentimentos direcionados pela mídia, porém insensível às outras tragédias.

Os dramaturgos gregos tinham na tragédia o sentido moral e didático. Toda tragédia tem essa finalidade. Veja a Paixão de Cristo que, insisto, nasce da tragédia grega e tem todos os elementos desta e a sintaxe helênica. Do que nos fala esta nossa tragédia?

Essa catarse, como queria Aristóteles, essa purificação interior é o meu objeto de estudo agora.

Ela fala muito sobre nós, sobre o nosso ethos, sobre o nosso ser social. É nesse tipo de tragédia, midiatizada, que nos vemos humanos, demasiadamente humanos: mortais, solidários, irmãos, cheios de amor e compaixão. Sem isso, somos o que somos: egoístas, cínicos e insensíveis.

A tragédia nos redime!

‘Vossa vã filantropia’

De Brasília parte um comboio com toneladas de alimentos, roupas e água. O comboio ruma a Santa Catarina, onde algumas pessoas invadiram encostas para construírem suas casas e desmataram para plantar, anunciando uma tragédia.

No caminho, o comboio passa por várias periferias, passa por pedintes, passa por miseráveis e por gente que sofre com a seca; enfim, desfila por entre a tragédia humana de todos os dias e que por isso mesmo foi convertida em banalidade.

Numa cidadezinha agredida pela seca, dois meninos seminus caminham com latas d´água na cabeça. Vinham da beira de um barranco de onde extraíram, de um poço raso onde o gado magro acabou de beber e de babar, um pouco de lama para cozinhar em casa.

Os meninos vêem os caminhões passar e perguntam ao pai que vai se achegando:

‘Ué, pai, onde será que vai tanta coisa?’

Ao que o pai responde:

‘Acho que é a cumida que o povo da cidade grande tá mandando pro povo que vive debaixo d´água; eu vi na TV.’

E o menino ingenuamente retruca:

‘E por que eles num deixa um pouco dessa comida aqui pra quem vive em cima da seca?’

E do céu, tonitruante, irrompe a voz sarcástica e sacra do velho e bom Machado de Assis; imperativa:

‘… Há entre o céu e a terra, Horácio, muitas coisas mais do que sonha a vossa vã filantropia!’

******

Escritor, publicitário e roteirista, Brasília, DF

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