Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > ENTREVISTA / ANDRÉ FISCHER

A mídia e a comunidade gay

Por Victor Barone em 27/01/2009 na edição 522

No ano passado (entre os 12 e 23 de novembro), o jornalista carioca André Fischer realizou a 16ª edição do Festival Mix Brasil. O evento, pioneiro na abordagem da temática gay no país, começou a ser construído no imaginário de Fischer na década de 1990, quando passou uma temporada em Nova York. Em 1993, foi convidado para ser curador de uma mostra de filmes brasileiros no conhecido festival gay da cidade e, de volta ao Brasil, foi chamado pelo Museu da Imagem e do Som (MIS), de São Paulo, para organizar um evento similar.


O resultado foi a realização do 1º Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual, que contou com mostra de cinema, festas e exposições sobre gays, lésbicas, travestis e, como define Ficher, reuniu ‘pessoas com atitudes, comportamentos, caminhos de vida e opções sexuais pouco convencionais’. Daí em diante, o negócio se desenvolveu a ponto de confundir o Guinness 2008 (o livro dos recordes) que afirmou ser o Mix Brasil ‘o maior festival gay do mundo’. Modesto, Fischer corrigiu o erro. É o segundo.


O sucesso do Festival Mix Brasil abriu novas possibilidades para que o agitador cultural ampliasse o raio de ação do projeto e a criação do portal Mix Brasil foi a conseqüência direta disso. O portal é um fórum de discussões para gays, lésbicas e simpatizantes, um espaço de convivência desta comunidade e sua função é informar e criar espaços para troca de informações. Além da central de notícias, o portal oferece rádio e TV digitais. Hoje, o Mix Brasil é considerado o maior portal do gênero na América Latina.


Fischer também é escritor, tradutor e DJ. Em 2005 publicou Sozinho na Cozinha, no qual ensina receitas para solteiros, em 2007 foi a vez do 1º Almanaque de Banheiro, em parceria com Renata Laureano e, em 2008, publicou Como o mundo virou gay. Como tradutor Fischer trabalhou – em 2003 – no livro Dicas de sexo para mulheres por um homem gay (de Dan Anderson e Maggie Berman) e, e em 2004, traduziu Como se livrar de saias justas (de David Borgenicht, Jennifer Worick e Joshua Piven).


Na tarde da quarta-feira (21/1), André Fischer concedeu, por telefone, a entrevista a seguir, cujo tema girou em torno da relação entre a mídia e os gays.


***


Por que um portal especializado no público gay?


André Fischer – Eu trabalhava com computação gráfica e publicidade nos anos 90. Nesta época tive contato com a internet. Junto a isso, surgiu a possibilidade, por meio do Festival Mix Brasil de cinema e vídeo e, posteriormente, através do BBS MiX Brasil, de ampliar o projeto para um portal onde pudéssemos informar as pessoas e estabelecer um fórum de discussões permanente para um grupo que chamamos gays, lésbicas e simpatizantes (GLS). Foi um processo natural. O Mix Brasil, como organização, existe, portanto, desde 1993.


Como a mídia convencional trata este público?


A.F. – Acho que há uma simpatia condescendente. Esta relação evoluiu bastante e hoje, geralmente, o gay é tratado de uma maneira respeitosa, dentro do politicamente correto. Há lugares muito piores pelo mundo. Mas, é sempre dentro dos limites do politicamente correto. As novelas, por exemplo, têm personagens gays, têm casais gays, embora estes relacionamentos não se desenvolvam. O noticiário cobre as paradas gays. Há um acompanhamento respeitoso.


O beijo gay da Britney Spears


Mas você considera que há preconceito na mídia convencional?


A.F. – Acho que sim. Não adianta, quando se fala de mídia, 50% é Globo. É lá que esta discussão aparece de forma mais clara. Talvez o melhor exemplo do tratamento dado pela mídia à questão esteja no tabu do beijo gay na TV. A Globo é uma emissora comercial que é simpática aos gays, sempre retrata personagens gays em novelas de maneira positiva, mas tem receio de ir além disso. Não sei até que ponto este receio é real, mas há um episódio recente que é emblemático: foi quando, na última novela das oito (A Favorita), a personagem de Paula Burlamaqui (Estela) se declara para Catarina (interpretada por Lília Cabral), uma dona de casa. As donas de casa trocaram de canal. Houve queda de audiência. A Globo tem que ter uma responsabilidade social, mas tem que ficar de olho na audiência. Estes tabus têm que ser quebrados aos poucos.


É papel da arte quebrar estes tabus?


A.F. – Da arte, sim, mas não sei se considero novela uma arte; é um entretenimento comercial. Cinema, teatro, linguagens que possuem públicos mais específicos, são diferentes. Um filme pode se arriscar a falar para um público mais específico. A novela tem mais uma obrigação comercial – se não atingir os 40 pontos de audiência, uma novela das oito terá problemas estruturais.


É objetivo do portal Mix Brasil acompanhar as políticas públicas e os direitos civis dos gays no Brasil?


A.F. – Desde sempre. De cara, a central de noticias é a nossa maior audiência. Mesmo que estas notícias não sejam as mais acessadas, são informações que atingem os ativistas e a militância gay. Estamos jogando estas informações junto ao entretenimento e elas têm o seu espaço.


O público do portal o utiliza para denunciar o preconceito e para se informar sobre este aspecto?


A.F. – Usa muito e é engraçado isso. Este noticiário de militância tem uma repercussão muito grande na comunidade, uma repercussão muito mais ampla do que o número de acessos que contabiliza. São as notícias menos clicadas, mas que têm mais repercussão. São informações que replicam na comunidade. Um beijo gay da Britney Spears tem muito mais acesso do que a denúncia de preconceito feita por um grupo de ativistas. No entanto, a repercussão desta última notícia é muito mais forte.


Brasileiro não é engajado


No final do ano passado, a Associação das Travestis de Mato Grosso do Sul (ATMS) teve, pela segunda vez, negado pela Câmara Municipal de Campo Grande o recebimento do título de utilidade pública municipal, apesar de ter o mesmo título no âmbito estadual e federal e cumprir todos os requisitos para tal. A concessão esbarrou na objeção das bancadas evangélica e católica da Casa. O preconceito ainda impera no Brasil?


A.F. – Acho que vivemos uma série de avanços, mas para cada dois avanços temos um retrocesso e por isso a luta e o papel da militância têm uma importância tão grande. Vou bastante à França e tenho muitos amigos por lá que participaram de militância e que dizem que lá resta pouco a ser conquistado. Eles têm os direitos básicos, de casar etc. Falta apenas o direito de adotar. Os direitos básicos foram conquistados por lá e a militância, por isso, é menos articulada. No Brasil é diferente. Por conta destes retrocessos é que temos que reafirmar a necessidade de uma militância forte. Estas notícias negativas deveriam funcionar como estímulo para a batalha contra o preconceito.


O gay brasileiro é engajado?


A.F. – O brasileiro não é engajado, não adianta cobrar isso de forma específica dos gays. Antes de sermos gays, somos brasileiros. A diferença é que somos um grupo que tem de ser mais engajado, pois nos faltam os direitos civis básicos, que devem ser garantidos. Deveríamos ser mais engajados por isso.

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Jornalista, editor do blog Escrevinhamentos

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