Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > COBERTURA ELEITORAL

A mídia e o theatrum politicum

Por Verbena Córdula Almeida em 26/10/2010 na edição 613

Os candidatos à disputa presidencial Dilma Rousseff e José Serra, bem como suas bases aliadas, terminam as campanhas eleitorais com vistas ao segundo turno cometendo os mesmos erros da campanha anterior: não apresentando ao eleitorado seus programas com as propostas para o país. A mídia, por sua vez, se comporta como mera porta-voz dos discursos, desprovidos de conteúdo proveitoso, contribuindo, de forma lamentável, para a banalização de um processo tão importante.

Tucanos e petistas não dizem o que pretendem fazer para solucionar os problemas referentes à educação, à infraestrutura, à saúde etc. E isso contraria sobremaneira o eleitorado, pois quando este não decidiu o pleito no primeiro turno, justamente reclamou dessa falta de clareza programática. O governo Lula não convenceu a maioria da população de que mereceria continuidade, pois se assim o fosse o pleito teria sido decidido já no primeiro turno. Portanto, petistas, tucanos e respectivos aliados foram desafiados a jogar limpo com a sociedade e expor, de maneira objetiva e clara, os planos para livrar o país das mazelas que tanto entravam o seu desenvolvimento. Mas não o fizeram.

Em vez da apresentação e debate de propostas, os tucanos e os petistas preferiram os discursos sofismáticos, demonstrando ao povo brasileiro que não estão preparados para uma discussão ampla referente aos rumos que o Brasil deve tomar nos próximos anos.

O debate em torno da descriminalização ou não do aborto foi um exemplo claro desse despreparo. Dilma Rousseff e José Serra, bem como os meios de comunicação, demonstraram falta de clareza acerca da temática. Primeiro, porque essas e outras discussões se inserem em debates maiores sobre as inúmeras mazelas que acometem a vida societária brasileira; segundo, porque em consequência disso essas discussões devem se inserir em debates inerentes ao acesso à educação, à saúde, às condições dignas de sobrevivência dos milhões de cidadãos e cidadãs brasileiros e, portanto, não deveriam ser travadas da maneira superficial como foi feito pelos candidatos à Presidência da República e pelos meios de comunicação. E, por último, por ser esse um tema cuja decisão se dá no âmbito do Parlamento, não caberia a condução que teve nas respectivas campanhas.

Esvaziamento de discussões relevantes

No entanto, os candidatos, preocupados em aumentar o número de votos, e os meios de comunicação, imbuídos do propósito maior de ampliar a audiência, privaram a sociedade em geral e o eleitorado em particular de discutir questões que, de fato, interessam ao país.

Ao pretenderem o cargo de dirigente máximo da nação brasileira, Dilma Rousseff e José Serra deveriam ter discutido amplamente com a sociedade os pontos que consideram cruciais e que deveriam constar dos seus respectivos programas de governo, submetendo-os à apreciação da sociedade brasileira, particularmente do eleitorado. Deveriam, principalmente, ter abandonado os recursos de simulação e de espetacularização que apenas contribuíram para banalizar um processo tão sério.

Os meios de comunicação, por sua vez, deveriam ter feito valer o papel social que lhes cabe: suscitar a discussão dessas questões mais amplas e, desse modo, abrir um canal a mais para a reflexão sobre os principais problemas que afligem o Brasil. Em vez disso, contribuíram, de modo significativo, para o esvaziamento de discussões relevantes.

É lamentável que as eleições tenham sido apenas um tema sujeito ao theatrum politicum.

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Doutora em História e Comunicação no Mundo Contemporâneo pela Universidad Complutense de Madrid, professora dos cursos de Comunicação Social da Faculdade 2 de Julho, Salvador, BA e diretora de Agenciencia – Comunicación Científica

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