Sábado, 07 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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FEITOS & DESFEITAS >

A mídia, o público e a pedofilia

Por Aristides Alonso em 07/07/2009 na edição 545

Ao longo desta semana, a morte de Michael Jackson foi a principal notícia no mundo inteiro, ofuscando a de Farah Fawcett, a eterna pantera, que deixou documentada passo a passo, em um diário escrito e filmado, sua luta contra um câncer devastador.

Jackson inventou um novo estilo de dança como as conhecidas Robot e Moonwalk. Seu estilo de cantar influenciou artistas do hip hop, dance e R&B e os vídeos transmitidos pela MTV, como Beat It, Billie Jean, Thriller, Black or White, Bad e Scream são considerados como uma nova forma de apresentação musical através do videoclipe. Também doou milhões de dólares a causas beneficentes por meio da Dangerous World Tour. A música We Are The World foi um sucesso planetário.

No que se refere ao Rei do Pop, uma discussão, pelo menos na mídia brasileira, merece destaque. Se, por um lado, louvou-se seu talento, carisma, modo inconfundível de cantar e dançar, por outro, também houve a exposição de uma série de escândalos, tais como irregularidades com o fisco, as ditas ‘bizarrices’ (Thriller!), as inúmeras cirurgias plásticas, a mudança de cor da pele (será que teria o mesmo efeito se fosse de branco para negro?), seus gestos extravagantes e sua decantada pedofilia, reafirmada na fantasia de Peter Pan, que vivia em Neverland (A Terra do Nunca).

Um mutante que dissolveu fronteiras

Em 2003, o cantor concedeu uma entrevista à ITV, no especial Living with Michael Jackson, quando declarou que não via mal algum em dormir na mesma cama com garotos e disse gostar de dormir ao lado de seus convidados no rancho Neverland. A primeira acusação de pedofilia ocorreu em 1993 e a queixa acabou retirada e resolvida com um acordo milionário. A polêmica gerada pela entrevista provocou investigação policial, na qual Jackson foi preso e liberado após pagamento de fiança. Em 2005, sofre outro processo de pedofilia, mas desta vez é inocentado por unanimidade das alegações de abuso infantil. Tudo amplamente noticiado pelos meios de comunicação.

Na mídia, nota-se facilmente a ambivalência que percorre os debates, as entrevistas, os artigos de jornais e revistas, os depoimentos dos comentaristas e dos fãs do cantor, como se não fosse possível tudo isso existir na mesma pessoa. A propósito, Rubem Fonseca pergunta: ‘Michael Jackson é homem ou mulher? Você sabe? Ele sabe? É preto ou é branco? É velho ou é moço? (…)’ [Rubem Fonseca. O romance morreu. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 112.]. O que se recusa em reconhecer é que Michael Jackson é um mutante que dissolveu várias fronteiras culturais, entre elas a de gênero, idade e etnia.

A mídia o idolatrou e condenou

Artista, gênio, maluco, esquisito e pedófilo são os adjetivos ouvidos com mais freqüência. Mas uma coisa chama a atenção exatamente pelo oposto, pelo total silêncio sobre o assunto: ele começou sua carreira aos cinco anos de idade e desde o início foi amado, adorado, admirado, venerado pelo público e pela mídia por seu talento e por sua graça infantil. O sucesso do Jackson 5 se deveu à sua voz e à precocidade que aquele menino apresentava e que a todos encantava. Que nome dar a esse afeto, a essa paixão da mídia e do público pelo menino Michael Jackson? Como designar esse vínculo emotivo, aliás tão corriqueiro na cultura? Trata-se precisamente de pedofilia.

O Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa define pedofilia da seguinte maneira: ‘substantivo feminino, qualidade ou sentimento de pedófilo’ e, por sua vez, pedófilo ‘[do gr. Paidóphilos], adjetivo e substantivo masculino, que ou aquele que gosta de criança’. Também há o sentido contrário tão pouco falado, a pedofobia e o pedofóbico, o substantivo e o adjetivo para designar a ‘aversão às crianças’. Será isso que vemos diariamente nas crianças abandonadas por toda a cidade, tratadas como lixo humano, jogadas na nossa cara e que fingimos não ver? Mas, como se sabe muito bem, pedófilos são os outros, pedófilo é o Michael Jackson. A mesma cultura e a mesma mídia que o idolatrou quando criança, também o julgou e condenou como pedófilo.

Relação de amor e ódio

O psicanalista M. D. Magno já descreveu esse mecanismo mental, exposto acima, como uma das formas mais comuns de nossa comunicação cotidiana: trata-se da denegação projetiva [ver, neste Observatório, ‘Pedofilia, psicanálise e mídia‘ http://www.observatoriodaimprensa.com.br/ofjor/ofc310720024.htm]. Denegar é afirmar pela negação algo que está em nós, que fazemos com freqüência sem nos dar conta; ao mesmo tempo, projetamos sobre outro(s) o que está sendo denegado: ‘Não sou eu, é você!’ Pedófilo não sou eu, não tenho nada a ver com isso. É você que é! Como se pode ver, há nesse processo uma dupla ação: primeiramente, não se aceita, não se escuta, recusa-se reconhecer seja lá o que for que seja apontado. E depois, projeta-se sobre uma outra pessoa ou grupo de pessoas aquilo que se está denegando. Recusa e projeção. Ora, Michael Jackson é um produto de nossa pedofilia cultural [ver, neste OI, ‘A mídia, o médico e o monstro‘]. Foi desejado, adorado, amado desde criança e certamente aprendeu muito com a sociedade que sobre ele exerceu sua fantasia pedófila.

Agora, após sua morte, Michael Jackson está sendo novamente glorificado e santificado. Mas o que merece destaque nesse período que antecedeu sua morte é a sanha assassina, a vontade de linchamento que se abateu sobre o artista – tanto por parte da mídia como do público, justamente os que sustentam o aparelho midiático, reforçado diariamente com efetiva participação de todos, identificados visceralmente com seus valores, mediante maciço apoio a tudo que a mídia dissemina e apresenta. O que simplesmente não se mencionou foi o fato de que Michael Jackson, tratado como pedófilo, era, como dissemos, um típico produto de nossa pedofilia cultural. Esse lado da questão, mais uma vez, ficou inteiramente esquecido, ou seja, recalcado.

Fica assim exposta, a quem quiser ver, a ambivalência que a sociedade tem com essa questão, destacadamente a relação de amor e ódio, que aparece com bastante nitidez na costumeira denegação projetiva sobre a pedofilia em que vivemos e que fomentamos diariamente.

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Professor (Uerj e Facha), diretor da UniverCidadeDeDeus/RJ

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