Terça-feira, 19 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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FEITOS & DESFEITAS >

A mídia produz sua própria crise

Por Rafael Motta em 10/03/2009 na edição 528

Sim, crise é oportunidade. Chance única para quem está disposto a largar o comodismo e pensar em soluções para a sobrevivência de seus negócios, a continuidade de seu trabalho, a valorização da própria vida.

Não é o que fazem, de forma generalizada, dirigentes de veículos de comunicação.

Diante de uma crise, quando deveriam aprimorar seus produtos para continuar a vendê-los, reagem com demissões, supressão de vantagens trabalhistas, controle extremo de cartões de ponto, aperto nas despesas com reportagens.

Fica fácil concluir que, para a mídia, a crise deverá se agravar. Por que pagar por um jornal ou revista ou acompanhar determinada emissora de TV ou rádio, quando perdem conteúdo e não satisfazem o interesse do consumidor de informações?

O efeito dessa propalada situação crítica tende a ser pior. Motivo: proprietários de meios de comunicação cortam gastos, por alimentar a ilusão de preservar seu lucro.

É que essa medida dura pouco – até o empresário perder audiência ou notar o aumento do encalhe. E se sabe o que fará: dispensará gente, obrigará quem sobrar a acumular funções e ampliará o controle de gastos com a produção jornalística. Um círculo vicioso.

Notícia tem hora?

Conheço um jornal que proibiu seus jornalistas de fazerem horas-extras. Encerrado o expediente, têm de ir embora. Não acabaram de apurar e escrever a matéria? Paciência. Informação não é prioridade. Editores e diagramadores que se virem para preencher espaços em branco.

Contudo, sempre há um repórter a se lembrar de que é bacharel em Comunicação Social – portanto, um jornalista que trabalha para a sociedade, para as pessoas, para quem lê o que escreve.

Apesar da pressa que lhe é imposta, ele investe no assunto, produz boa reportagem, o texto merece destaque na primeira página. Cumpre bem seu dever. E o que ouve, no dia seguinte, de seu chefe?

‘Você passou 12 minutos do seu horário. Está aqui, no controle de ponto.’

Em resumo, o repórter recebeu uma censura por ter gerado despesa equivalente ao preço de um exemplar do jornal para o qual trabalha.

Que estímulo terá para se dedicar como deveria à função? Como se sentirão os jornalistas que restaram, após tantos enxugamentos?

Isso dá a entender que, se houver investimentos durante esta crise, será em formas de explorar, em vários sentidos, a capacidade do contingente cada vez menor que consegue emprego no jornalismo cotidiano.

Jornalistas convergentes

Faz bem pouco tempo, li matéria curta (e, superficiais como as publicações têm se mostrado, isso virou regra) a respeito de um jornal do Rio de Janeiro que começou a apostar na ‘convergência de mídias’.

Para se alcançar ‘o futuro do jornalismo’, na opinião do editor-chefe desse veículo, preparam-se repórteres para que, munidos de telefones celulares, filmem e fotografem as matérias e as transmitam à redação de dentro dos carros de reportagem, onde haverá laptops à disposição para que o façam dali mesmo. Aos editores caberá também a tarefa de analisar os vídeos que chegarem.

Que qualidade jornalística poderá ter um material preparado às pressas por gente sobrecarregada? Numa comparação grosseira, é como exigir tratamento médico de primeiro mundo para pacientes do SUS.

Os veículos de comunicação vivem, assim, sua própria crise. Não é nova, mas têm adotado soluções também velhas. E perdem a oportunidade de sair e se refazer dela.

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Jornalista, repórter de A Tribuna, Santos, SP

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