Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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FEITOS & DESFEITAS >

A mídia segundo Sarney

Por Luiz Leitão da Cunha em 22/09/2009 na edição 556

O senador José Sarney, presidente do Poder Legislativo brasileiro, fez de seu discurso em homenagem ao Dia Internacional da Democracia uma coletânea de ataques à mídia, rodeados por extenso enaltecimento à democracia. Sarney, que é também escritor, disse que ‘a mídia passou a ser inimiga do Congresso, das instituições representativas’.

A depender de seu juízo de ‘representação’, ele pode estar coberto de razão. Para o senador, existe um conflito sobre quem é o representante do povo: o parlamento ou a mídia. A mídia, qualquer que seja a concepção se lhe atribua, nunca foi nem será representante da sociedade. Mídia é um anglicismo aportuguesado, vem de media, tanto que no português d´além-mar se fala os media.

Segundo o dicionário da Universidade de Oxford, media, plural de medium (médio, meio), são os principais meios através dos quais grandes quantidades de pessoas recebem informações e entretenimento, a televisão, o rádio, os jornais e a internet. Então, mídia é, literalmente, o plural de meio, no sentido de intermediação, ao qual a TV Senado, por exemplo, se encaixa.

A mídia, portanto, é apenas a intermediária entre a população e as instituições, empresas e outras organizações. Mas, estrategicamente omitindo a minúcia, Sarney diz, em alusão à internet (que é mídia) que ‘com as transformações da informática’ é possível ‘vislumbrar um voto virtual’ – ali, ele estava, necessariamente, se referindo à internet – que ‘reduziria a intermediação da imprensa na relação entre eleitores e parlamentares e reforçaria a democracia direta’.

Imprensa responde por seus erros

‘O voto virtual’, postulou, ‘teria a segurança dos sites de bancos’ (disse isso talvez com a convicção de que as profusas notícias sobre fraudes bancárias na internet são mera invenção da tal mídia). ‘E será apenas o prenúncio de uma nova democracia, não mais inteiramente representativa, mas feita em parte de representantes, em parte da decisão direta do cidadão.’

Del dicho al hecho hay gran trecho‘, reza o cânone no idioma de Cervantes. Como se daria essa decisão direta do cidadão, o ilustrado parlamentar não explica…

Tudo isso não passaria de uma discussão de mesa de bar, não fosse o fato de o senador ser, ainda que indiretamente, um grande empresário da mídia, não necessariamente da mesma estirpe que ele não se pejou de execrar. E não apenas ele, com o Grupo Mirante, permissionário da Rede Globo, de emissoras de rádio e do jornal O Estado do Maranhão. Parcela considerável de seus pares, na Câmara e no Senado, ostensiva ou disfarçadamente, por interpostas pessoas, é composta por empresários da mídia. Meios de comunicação, em português castiço.

Um debate intelectualmente honesto a respeito dos defeitos e virtudes dessas duas entidades que, na pitoresca e delirante concepção do presidente do Congresso – ‘quem representa o povo? Diz a mídia: somos nós. E dizemos nós, representantes do povo: somos nós’ – disputam a representação popular, não poderia deixar de lado uma verdade solar: enquanto aqueles a quem o autor da cambaleante tese chama de ‘nós’ são virtualmente inimputáveis, a mídia responde judicialmente por seus erros, e até por alguns acertos. Tanto a boa quanto a chamada imprensa marrom – conceda-se uma exceção à imprensa, ou mídia, ‘chapa-branca’ – quando fora da tutela da censura antecipada, será chamada à responsabilidade por seus pecados, que os há.

Um escriba novato

Mas não só o diabo mora nos detalhes. Quantos jornais concedem generosas parcelas de seus sempre exíguos espaços à publicação de artigos ou entrevistas de gente, políticos ou não, dos mais variados matizes?

O Estadão mesmo, ‘a vanguarda do atraso’, na concepção do ex-ministro José Dirceu, publicava com regularidade textos da lavra do ex-presidente do Partido dos Trabalhadores, deputado José Genoíno, e até mesmo alguns do presidente Lula, pouco dado ao ofício da escrita; há pouco, deu em sua página dois, com cerca de generosos seis mil caracteres, um artigo do ex-ministro da Fazenda, Antônio Palocci (PT-SP). Dirceu e o atual presidente do PT, Ricardo Berzoini, também foram recentemente acolhidos nas páginas da Folha de S.Paulo.

Mas sempre haverá quem diga que o Brasil não é só o Sul Maravilha. Pois bem, a Folha do Estado, de Cuiabá, tem entre seus colaboradores regulares ninguém menos que o escritor maranhense José Sarney… O Blog do Noblat deu voz a Dirceu, a revista Veja entrevistou, entre outros, os senadores Tião Viana (PT-AC), que disse alhos e bugalhos do próprio partido, de Lula e do Senado; e Marina Silva (PV-AC).

Ora, mas não se pode esquecer de coroar o bolo com a cereja: mais de uma centena de jornais brasileiros anunciaram, não tem muito tempo, a estréia de um curioso colunista que dizia não ler jornais porque que lhe causam azia, mas é verdade que escrever é bem diferente de ler. O escriba novato atende pelo nome de Luiz Inácio Lula da Silva.

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