Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & POLÍTICA

A mídia Sísifo

Por Lelê Teles em 06/01/2009 na edição 519

Particulistas, aqueles que escrevem artigos emitindo a opinião particular dos donos de jornais e os colonistas, colunistas que expressam o pensamento colonizado, seguiram o ano de 2008 com as suas miríades de crises artificiais para destruir a imagem do presidente Lula, desnecessário enumerá-las. Qual massa de pão, quanto mais apanhava, mais Lula crescia nas pesquisas. O governo Lula termina o ano com 73% de aprovação, contra exíguos 6% dos que analisam o seu governo como ruim ou péssimo.

Além das crises sistêmicas artificiais, teve também uma ‘crise’ no campo sociolinguístico. Em 2007, repórteres enfiaram uma câmera clandestinamente pela janela do palácio, quais paparazzi que buscam um deslize de uma celebridade: um dedo no nariz para tirar caca, um seio de fora antes do banho etc. e pegaram Marco Aurélio analisando uma reportagem de TV e comemorando mais um fracasso do aparato midiático usando um gesto que qualquer brasileiro usaria. Gesto que em 2008 foi verbalizado pelo presidente da República: ‘Sifu’.

Mas a mídia, que fez graça quando o Capitão Marvel das Alagoas disse que tinha ‘aquilo roxo’, que achou engraçado quando o presidente Itamar Franco apareceu no carnaval ao lado da periquita desnuda de Lílian Ramos, que gargalhou quando o rei de Espanha usou da descortesia para dirigir-se ao presidente venezuelano, acionou os seus vestais para reprimir a expressão do mandatário nacional. Resultado: ‘top-top’.

Dois hábeas corpus em 48 horas

A mídia segue levando a pedra que vai colocar no pescoço de Lula da Silva, mas antes de chegar no topo, onde se encontra o nosso mandatário, a pedra volta a rolar ladeira abaixo, continuamente. Ou seja, a mídia Sísifo.

2008 termina, também, sem que fosse votado o projeto de lei que estabelece a criação de cotas sociais e raciais nas universidades federais. O demo Demóstenes Torres é contra as cotas raciais. A grande mídia, de forma covarde, apátrida e antidemocrática, nunca promoveu um amplo debate para discutir as cotas raciais, embora tenha vocalizado a opinião dos que são contra e dos privilegiados que bradam em favor da meritocracia, seja lá que diabos isso signifique.

No entanto, não há nenhuma pesquisa que comprove a opinião de que as cotas raciais fariam cair o rendimento acadêmico; as pesquisas comprovam justamente o contrário.

Agora veja em que diabo de país estivemos em 2008. Daniel Dantas, preso por suas imoralidades, recebeu dois habeas corpus em 48 horas, coisa inédita no Brasil e no mundo; enquanto isso, a artesã Caroline Pivetta foi presa e jogada aos leões por ter, veja que beleza, pintado uma galeria de arte!

A chinelada e a sapatada

E veja em que mundo estamos, um rei – tem coisa mais cafona e démodé que um rei? – de um país de piratas que veta a entrada de latino-americanos, embora tenham saqueado quase toda a riqueza da América do Sul, praticado etnocídio, estuprado mulheres e disseminado um sem número de doenças por este continente, deu uma chinelada verbal em Hugo Chávez. A chinelada em Chávez virou um chavão da grande mídia no mundo inteiro. Chinelada tida como um gesto revolucionário e corajoso.

No entanto, a sapatada do heróico jornalista Muntadar al-Zaidi em direção ao rosto do delinquente Bush virou motivo de chacota, um simples disparate de um homem tresloucado. O presidente George War Bush, qual um boxista livrando-se de um jab, corcoviou e esquivou-se da sapatada.

Al-Zaidi não teve a mesma sorte: imobilizado por um golpe de Krav Magá, teve costelas quebradas, levou cascudos, dedadas, beliscões e outros golpes baixos e pode amargar oito anos de cana; mas o seu gesto será eterno.

Na verdade, o grande erro de Al-Zaidi foi ter proferido uma expressão de ódio antes da sapatada – tivesse simplesmente atirado o seu 44, o delinqüente Bush estaria com um olho roxo.

Agora o mundo espera pra ver se Barack Obama, o Homem-Imagem, vai agir e promover a paz no Oriente Médio e reprimir Israel e seu ministro do Ataque, o genocida Ehud Barak. Se fizer isso, certamente ganhará um prêmio Nobel da Paz; ótima imagem para o Homem-Imagem. Mas já há sinais de que não haverá cisão entre Barack e Barak.

Portanto, em 2009, comece com o pé direito, mas com o sapato na mão, pronto a atirá-lo.

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Escritor, publicitário e roteirista, Brasília, DF

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