Sábado, 23 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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A morte do ‘rei da soja’

Por Luiz Gustavo Anversa Sprovieri em 30/06/2015 na edição 857

Qual a importância do jornalismo em tempos de comunicação digital instantânea?

Espera-se que o profissional encarregado de noticiar os fatos mais importantes do dia para seu público tenha critérios na hora de divulgar algo. Principalmente situações delicadas, como a morte de uma pessoa.

O caso é fresco, aconteceu na terça-feira (16/6). Fim de manhã nas redações e pipoca a notícia de que Olacyr de Moraes, conhecido como o “rei da soja”, havia morrido. O empresário, de 84 anos, fazia tratamento contra câncer de pâncreas há um ano e meio. Portais respeitáveis como O Globo e UOL manchetaram sem dó: “Morre aos 84 anos Olacyr de Moraes, o rei da soja”. A fonte da informação? O Facebook oficial do empresário!

Tenho apenas oito anos na profissão, mas sei que rede social alguma (nem mesmo a oficial do personagem) pode ser determinante para divulgar a morte de alguém. Quantas vezes esses sites não “viralizaram” irresponsabilidades? Hackear a conta de uma mídia social, hoje, é tão fácil quanto encontrar uma rua esburacada na cidade São Paulo.

E se algum espírito de porco tivesse entrado no perfil do “rei da soja” no Facebook e divulgado por pura maldade a morte do empresário? Como ficaria a retificação dos veículos tradicionais, aqueles em que ainda existe um pouco de credibilidade? “O Facebook oficial de Olacyr nos passou a perna” seria patético.

Profissão em baixa e desacreditada

O humilde escriba deste espaço fez um exercício rápido de lógica no momento em que a notícia fúnebre circulava na web. Pesquisei e vi que Moraes ficou internado no Albert Einstein no ano passado. Em razão de seu patrimônio, havia pouca probabilidade de estar disputando uma cama no SUS com milhões de brasileiros. Liguei para o hospital para saber se Olacyr estava realmente lá. Depois da confirmação, em cinco segundos a assessoria do Einstein reconheceu a morte do “rei da soja” – até o velório já estava terminado. Alguns telefonemas bastaram para noticiar de forma responsável algo tão pesado como a morte de uma pessoa.

A velocidade da internet pode ser boa para muitos aspectos da comunicação, mas deve ser tratada com cautela no jornalismo.

Não é por acaso que profissão anda tão em baixa e desacreditada.

***

Luiz Gustavo Anversa Sprovieri é jornalista

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