Sábado, 16 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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A morte na mídia

Por Juliano Schiavo em 22/04/2008 na edição 482

O Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros 2008, divulgado recentemente, demonstra que, embora o índice de assassinatos no Brasil ainda seja alto, houve queda nos números de 2004 para 2006. Esse mapa, lançado pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla), aponta que 50.980 pessoas foram mortas em 2003. No ano de 2006 esse número caiu para 46.660. É para comemorar? A situação ainda é vergonhosa…

Desses 46.660 casos de assassinatos, poucos chegaram à mídia, ou melhor, à grande mídia, que se preocupa com outras questões. Não ter representatividade econômica é sinônimo de não existir para esse quarto poder.

‘A morte de qualquer homem me diminui porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.’ É o que diz o poeta inglês John Donne (1572-1631). Se para o poeta a morte de uma única pessoa o diminui, isso não causa transtornos para o grande segmento que controla a informação de massa. Pode morrer qualquer um que não seja dos seus. Os sinos da mídia oficial só dobram para aqueles que pertencem à classe que a mantém.

Sai quem pode

A engrenagem do sistema é forte demais para permitir que um favelado seja manchete do Jornal Nacional quando é alvejado por tiros injustamente. Ele só é foco da grande mídia quando se transforma em seqüestrador e coloca em perigo os filhos apadrinhados pelo poder – tanto econômico, quanto social. As lentes objetivas têm um único objetivo: focar só o que interessa, nada mais. Morrer e ser notícia, só quando se fez grandes feitos econômicos. Ao pobre, no jornal, só o anuncio da funerária – quando a têm.

A mídia não está errada em colocar suas objetivas quando alguém é vítima de violência. É papel da imprensa lutar – com o uso da informação, ou seja, sua valiosa arma – para transformar a sociedade em um ambiente onde as pessoas possam ser livres e que tenham o direito de andarem na rua sem serem atacadas por seres abomináveis. O grande cerne da questão é quando a mídia só dá voz aos incluídos em seu sistema. Ela acaba por ser preconceituosa e desvirtua-se de sua luta por uma sociedade justa.

A única certeza (para todos) é a morte. Para os que possuem influências, há ainda o privilégio de estampar o jornal. Se a morte for trágica, tanto melhor, pois a mídia gosta de se ocupar com isso. Infelizmente é assim. Sai no jornal quem pode.

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Estudante de Jornalismo, Americana, SP

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