Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > JEAN CHARLES DE MENEZES

A morte, quinze, dez ou ninguém

Por Urariano Mota em 23/01/2006 na edição 365

Os resultados da última investigação sobre o crime contra Jean Charles de Menezes, ocorrido ano passado, em Londres, levaram a imprensa a falar de uma diferente realidade, ainda que se referisse ao mesmo fato. A depender do jornal, ou da fonte de notícias, o relatório da Comissão Independente de Queixas contra a Polícia chegou a números diversos de culpados. No sítio da BBC, na sexta-feira (20/1), lia-se :




The Independent: 15 policiais podem ser acusados no caso Jean


O jornal britânico The Independent diz nesta sexta-feira que até 15 agentes da polícia de Londres podem receber acusações formais por causa da morte do eletricista brasileiro Jean Charles de Menezes, em julho do ano passado.


Segundo o jornal, este é o número de policiais cujos nomes são citados no relatório divulgado nesta quinta-feira pela Comissão Independente de Queixas contra a Polícia Britânica (IPCC, na sigla em inglês), que está investigando o caso.


No jornal O Globo (21/1), os números e conclusões eram outros:




Caso Jean Charles: 10 podem ser processados


Ainda que seu relatório final pareça ter estabelecido uma espécie de culpa coletiva de agentes e oficiais da Scotland Yard pela morte de Jean Charles de Menezes, a Comissão Independente de Reclamações sobre a Polícia (IPCC) teria apontado o dedo para alguns indivíduos. Segundo a mídia britânica, pelo menos dez integrantes da força teriam sido mencionados como possíveis casos de um processo criminal’.


E, por incrível que pareça, no sítio do mesmo jornal, no Globo Online (20/1), reproduzia-se despacho da agência EFE:




Relatório não culpa policiais pela morte de Jean Charles


O relatório final da investigação sobre a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, confundido com um terrorista no metrô de Londres, não culpa nenhum dos dez agentes das forças de segurança envolvidos na trágica operação antiterrorista.


De acordo com a edição vespertina desta sexta-feira do jornal Evening Standard, o informe da Comissão Independente de Queixas Policiais (IPCC, na sigla em inglês) não aponta ninguém em especial, mas aborda temas que devem ser agora estudos pela Promotoria da Coroa britânica.


Da contradição para a coincidência


Na Folha Online (20/1), reproduzindo informações da BBC Brasil, podia ser lido:




Londres pode acusar 15 policiais no caso Jean, diz jornal


O jornal britânico The Independent diz nesta sexta-feira que até 15 agentes da polícia de Londres podem receber acusações formais por causa da morte do eletricista brasileiro Jean Charles de Menezes, em julho do ano passado.


Segundo o jornal, este é o número de policiais cujos nomes são citados no relatório divulgado nesta quinta-feira pela Comissão Independente de Queixas contra a Polícia Britânica (IPCC, na sigla em inglês), que está investigando o caso.


O que é justo e normal, porque a Folha é um dos parceiros da BBC Brasil. A fonte é citada como deve. O curioso é que na mesma Folha Online, no dia seguinte, podemos ler:




Relatório isenta policiais pela morte de Jean Charles, diz jornal


O relatório final da investigação sobre a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, 27, confundido com um terrorista no metrô de Londres, não culpa nenhum dos dez agentes das forças de segurança envolvidos na trágica operação antiterrorista. Jean Charles morreu baleado em um trem na estação de Stockwell, em 22 de julho do ano passado.


De acordo com a edição vespertina desta sexta-feira do jornal ‘Evening Standard’, o informe da Comissão Independente de Queixas Policiais (IPCC, na sigla em inglês) não aponta ninguém em especial, mas aborda temas que devem ser agora estudos pela promotoria da Coroa britânica.


Os dez agentes podem, entretanto, ter que responder por crime se a promotoria assim decidir, explica o diário.


Antes de qualquer comentário, comparem por favor esta última notícia com a publicada no Globo Online (20/1), originada na agência espanhola EFE:




O relatório final da investigação sobre a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, confundido com um terrorista no metrô de Londres, não culpa nenhum dos dez agentes das forças de segurança envolvidos na trágica operação antiterrorista.


De acordo com a edição vespertina desta sexta-feira do jornal Evening Standard, o informe da Comissão Independente de Queixas Policiais (IPCC, na sigla em inglês) não aponta ninguém em especial, mas aborda temas que devem ser agora estudos pela Promotoria da Coroa britânica.


Os dez agentes podem, entretanto, ter que responder por crime se a Promotoria assim decidir, explica o diário.


Tentem descobrir, por favor, diferenças de palavras, sintaxe, pontuação, parágrafo, enfim, procurem as diferenças entre as duas notícias. Descobriram? Sem qualquer juízo de valor, podemos dizer que estamos diante de um típico recurso do noticiário recorta-e-cola. Com um pequeno câmbio da fonte: na sexta (20/1), onde se lia EFE, um dia depois, lê-se Folha.


Por que divergem, quando divergem


Com medo da queda em mais um típico exemplo do texto recorta-e-cola, tentemos alguns pensamentos. Com cuidado, no seguro reino de Lavoisier.


O primeiro deles é que para uma notícia de tamanha importância, para brasileiros em particular, e para a consciência da humanidade, no geral, os repórteres… que dizemos?, os correspondentes… que dizemos?, os jornalistas das agências de notícia… queremos dizer, enfim, os redatores das agências não levantaram o traseiro da redação. Estavam todos com os fundos pegados nos assentos.


Vejam: as fontes que nos chegam vêm por meios indiretos, na base do ‘The Independent disse’, o ‘Evening Standard afirmou’, ou então, mais genérico, ‘segundo a mídia britânica’. Para ouvir a repetição do que se escreveu em periódicos ingleses, como se fossemos cegos sem leitura de braile, não precisamos de agências, serviços da BBC ou de correspondentes. Basta-nos um passeio bem dirigido pela web. A preguiça aliada à sua fiel sócia, a ignorância, é quem necessita de repórteres que fazem o papel, triste papel, de anunciadores dos fatos noticiados na Inglaterra.


Para se saber, ou melhor, para se ver o que o The Independent (alguém perdeu a ironia?) noticia, basta-se ir ao sítio do jornal. Of course é necessário que alguém nos indique o que não vimos, porque é impossível o dom da onipresença. Bate o que vemos…


Segundo. É neste passo que o jornalismo do copia-e-copia-e-copia gera o paradoxo da divergência e da falsa autoria. Não se trata de plágio – para o nível em que estamos o plagiador é um gênio. O plagiador trabalha, imita, seleciona características, pesquisa; o plagiador é um artista, à procura de um caráter, é certo, mas um artista. Aqui, não. Temos a cópia sem trabalho, sem suor, sem esforço. Aqui, entramos no reino da preguiça que exerce suas funções num automatismo burocrático. A saber, copia, cola, copia e publica. O cérebro entra como um obstáculo, que, não está longe o dia, será substituído por um programa Linux ou Windows.


Vejam. Um leitor no Brasil não pode ter a intimidade com os fatos da imprensa e da vida em Londres. É natural. Esse leitor precisa de alguém de lá que lhe traga e traduza os fatos que interessam à vida e à consciência brasileira. Em suma, de alguém que seja uma ponte, brasileira, não uma bridge traduzida. Bate o que fazem os serviços, as agências e correspondentes? Traduzem, mal, o que lêem, e mandam. Eles não interpretam, nem fazem um diálogo, como agiriam, se fossem bons plagiadores. Não. Copiam e copiam. E mandam.


Daí que o traseiro 1 leu no news 1 que os policiais acusados são 15. Copia e manda. O traseiro 2 leu no news 2 que os culpados são 10. Copia e manda. O terceiro, traseiro também, mas com melhor pesquisa, leu no news 3 que os acusados são zero, nenhum. Copia e manda. E nós, brasileiros na colônia, traseiros de eco, ribombamos para todo o Brasil os números divergentes da grande e insuperável e honrada e confiável imprensa de Londres. Sem nem pensar na camada de ozônio.


Terceiro, dissemos que os redatores nos serviços, nas agências de notícias, lêem, mas como lêem mal, sô! Será que, por todas as cargas d’água, será que leram apenas o jornal de onde copiaram o que divulgam? A pressa, a prensa, a preguiça chegou a tal ponto? Acreditamos que não. Será que fazem um acordo, lá num pub, quando desgrudam um assento por outro? Será que se acertam na base do ‘eu divulgo o besteirol do Independent, tu divulgas a idiotice da mídia, e na média nos acertamos’?


Vejam, as agências nos enviam textos sobre o que não viram, ou não tiveram nenhum desejo, nem sentiram disso a necessidade. As fontes – dizemos melhor, as ‘fontes’ –, por sua vez, porque foram repórteres ingleses, fonte de segunda mão, portanto, se leram o mesmo relatório, se conseguiram ler o secret paper, têm que voltar à escola primária de alfabetização. Pois é impossível que um mesmo objeto escrito consiga tão diversos números e conclusões: 15, 10, zero. A não ser, claro, que o mal da pobreza intelectual seja um mal globalizado, que atinge até, quem diria, os súditos do império onde não se põe o sol. Que nas brumas e fog nunca mais se pôs, porque jamais se viu.


Daí que afinal deve ter razão, sobeja e de sobra, o sítio da BBC Brasil quando declara que ‘nossos jornalistas estão presentes nos eventos cruciais em todo o mundo, como os Fóruns de Davos e de Porto Alegre, as Olimpíadas de Sydney, a Copa do Mundo da Coréia do Sul e do Japão, a Cúpula de Johannesburgo…’. It’s true, e de tal truísmo que não vêem o que se passa diante dos olhos, lá mesmo em Londres. A não ser, of course, o resgate da baleia no Tâmisa. O primeiro cetáceo no belo rio desde 1913.

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Jornalista e escritor

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