Quinta-feira, 23 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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FEITOS & DESFEITAS >

À nossa imagem e semelhança

Por Celso Vicenzi em 20/10/2009 na edição 560

Desconfio que a maioria dos brasileiros ainda não foi apresentada à obra de Jean-Paul Sartre (1905-1980), mas o que o filósofo francês disse, certa vez – que ‘o inferno são os outros’ – tem incontáveis seguidores ao sul do Equador. Entre em qualquer roda de discussão sobre as mazelas do país e lá está o veredicto: o problema são os nossos políticos! E, geralmente, não poupam nenhum: todos corruptos!

Estranho país, onde uma casta, escolhida entre milhares de candidatos, por milhões de eleitores, consegue sair-se tão pouco fiel à imagem e semelhança de quem os escolhe. E que capacidade de errar na escolha… Pois a cada eleição, quando finalmente as esperanças se renovam, o eleitorado mantém no centro do poder velhas e novas raposas.

Tenho pouca paciência para essa unanimidade em torno dos políticos. Não gosto de simplificações. Do lado de lá, o mal, do lado de cá, o bem. Em Brasília, no planalto central, os corruptos. No resto do país, ao Sul, Norte, Leste e Oeste, os incorruptíveis. Que estranha coincidência é esta que faz com que tantos eleitores justos e inocentes, a cada eleição, consigam escolher justamente uma maioria de corruptos? E se ainda errassem uma, duas vezes… Mas não, repete-se a sina. A cada eleição, os justos e incorruptíveis eleitores escolhem – por um estranho paradoxo – justamente os corruptos de quem tanto se queixam e a quem tanto odeiam.

Corrupção é universal

A explicação sempre foi muito simples: nem todos que estão do lado de lá são corruptos e muito menos nós, os que estamos do lado de cá, somos assim tão isentos de culpa. A Folha de S.Paulo [4/10/2009], trouxe alguns números que reforçam a teoria. Segundo pesquisa do Datafolha feita em todo o país, 13% dos brasileiros admitem já ter trocado seu voto por dinheiro, emprego ou presente. São 17 milhões de brasileiros! Honestos, pelo menos, em confessar. Resta saber quantos mentiram, por pudor ou porque acreditam no autoengano. Basta olhar mais alguns números: 79% afirmam que os brasileiros vendem voto (‘os outros’, lembram?), 33% dizem que não é possível fazer política sem um pouco de corrupção (ou seja, nada que escandalize), 68% já compraram produtos piratas, 36% pagaram propina alguma vez, 27% baixaram músicas da internet sem pagar, 18% compraram ingressos de cambistas, 14% (só?) pararam o carro em fila dupla. A pesquisa mostra, ainda, que 83% admitem pelo menos uma prática ilegítima. Apesar disso, 74% dizem que sempre respeitam as leis, mesmo se perderem chances. Quanta contradição! Há um caderno inteiro para quem deseja um ‘retrato da ética no Brasil’.

A pesquisa revela que ‘brasileiros se sentem cercados de corrupção por todos os lados, embora advoguem um alto padrão moral’, conforme o texto da Folha. Na tradução popular: faça o que eu digo, não faça o que eu faço. Na versão mais elaborada da antropóloga Lívia Barbosa, ‘ou vivemos na Escandinávia, e não sabíamos, ou o que fazemos na prática corresponde pouco ao que dizemos que fazemos’. Na antológica definição do humorista Stanislaw Ponte Preta, ‘ou restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos’.

Mas não somos a escória do mundo nem trazemos a corrupção no DNA. Não fomos nós que inventamos a corrupção. Talvez, apenas, malandramente, a incluímos no ‘jeitinho brasileiro’. E não adianta buscar explicações derrotistas, do tipo ‘o Brasil não tem jeito’, como um Macunaíma às avessas, como bem definiu o escritor Nelson Rodrigues. Ou dizer que ‘os exemplos precisam vir de cima’. Bons e maus exemplos não faltam, vindos de cima, do lado, de baixo, de todos os lugares. Há escolhas. Por isso, não faltam álibis para corruptos e corruptores. A corrupção é universal. E tão antiga quanto a presença do ser humano na face da Terra.

No próximo ano tem mais

A novidade é que se transformou numa arma política, exageradamente utilizada pelos grandes veículos de comunicação, para atingir a reputação de pessoas e segmentos políticos. E até mesmo desestabilizar governos incômodos. Às vezes, apenas ilações, transferindo o ônus da prova aos acusados. Seria ótimo se a mídia tivesse isenção para acusar, mas é um dos segmentos mais ativos do poder e da fabricação de fortunas ou, se preferirem, da manutenção das desigualdades. Há menos inocentes do que gostaríamos nas intrincadas engrenagens sociais da civilização moderna.

O que podemos fazer? Fiscalizar mais e escandalizar-se menos. Tomar muito cuidado com a manipulação dos fatos. Optar por menos bravatas e mais ação, menos denúncias e mais correções de rumo, seja pela via da lei, da educação, do exemplo, da autocrítica.

Nenhum povo é mais ou menos corrupto por algum desígnio do além. Somos o resultado de nossas práticas, da nossa cultura, da nossa história, da nossa vontade política. Segundo Stephen Kanitz, consultor de empresas e conferencista, o que faz a diferença são os mecanismos de controle. ‘As nações com menor índice de corrupção são as que têm o maior número de auditores fiscais formados e treinados. A Dinamarca e a Holanda possuem 100 auditores por 100 mil habitantes. Nos países efetivamente auditados, a corrupção é detectada no nascedouro ou quando ainda é pequena. O Brasil tem somente oito auditores por 100 mil habitantes, 12.800 auditores no total. Se quisermos os mesmos níveis de lisura da Dinamarca e da Holanda, precisaremos formar e treinar 160 mil auditores.’

Vai levar tempo. Mas podemos começar já, em nosso dia-a-dia. E no próximo ano, vamos novamente escolher os políticos que irão nos representar. À nossa imagem e semelhança. O que sair das urnas não será muito diferente de quem somos. Quer gostemos ou não.

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Jornalista, Florianópolis, SC

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